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Roberto Lis e os Serões da Dona Generosa
2007
 Luiz Artur Ferraretto

A desaprovação familiar rebatizou Erico de Carvalho Cramer, mas não mudou a sua firme decisão de enveredar pelo caminho da vida artística, muito malvista pela sociedade dos anos 1930. Com alguma experiência como amador em Rio Grande, município onde nasceu, o futuro escritor, ator e diretor, então segundo secretário do Tribunal de Contas do Estado em Porto Alegre, recebeu com alegria a notícia de que havia sido aceito para integrar a Companhia Teatral Dulcina-Odilon, uma das principais do país.

Roberto Lis (1942)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre: Livraria do Globo, ano 14, n. 325, p. 18, 22 ago. 1942.

A reação dos Carvalho Cramer veio de hidroavião, meio mais rápido na época para cobrir os 330 km que separam Porto Alegre da cidade da Zona Sul do estado. A bordo, o pai Gustavo Torres Cramer trazia duas cartas.

– Minha mãe me mandava pedir para que não lhe desse o primeiro desgosto e minha avó, para que eu esperasse o seu desaparecimento antes de misturar o nome ilustre da sua família ao da família do teatro – relembraria Erico Cramer nos anos 1970, em depoimento ao Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.

A preocupação com a reputação familiar faz nascer Roberto Lis, nome com o qual Erico assina seus trabalhos até se transferir para a televisão – no caso, a TV Piratini, canal 5, de Porto Alegre – no final dos anos 1950. A estreia ao microfone, ainda como Erico Cramer, ocorre em outubro de 1935, na Rádio Sociedade Gaúcha. Dois anos depois, recebe um convite do diretor artístico da Difusora, Nelson Lanza, para organizar o radioteatro da emissora. Assim, já com o pseudônimo Roberto Lis, começa a trabalhar em 22 de outubro de 1937, dividindo sketches com Carmen de Alencar. Cinco dias depois, nas comemorações do aniversário da PRF-9, estreavam as cômicas situações vividas por um grupo de moradores do bairro Cidade Baixa, no qual despontava a “agressiva e fiasquenta Dona Generosa”, como o próprio Cramer definia sua criação mais conhecida.


Erico Cramer (1976)
8 de julho de 1976
Fonte: Acervo do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa

Entre os scripts do acervo particular de Cramer doados ao Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, existe um, sem data, que pode ser do primeiro ou de um dos primeiros programas. Na abertura do texto, encimada pela denominação Um Serão na Dona Generosa seguida da expressão “um programa de Roberto Lis”, há uma extensa descrição do ambiente em que os personagens interagem, como se lá estivesse a título de introdução:

AMBIENTE: A sala de visitas da casa de Dona Generosa numa acanhada rua da Cidade Baixa. Sofá e cadeiras antigas, forradas de veludo e cobertas com capas de brim branco engomado. Um antigo piano Gaveau cor de castanha escura ocupa a parede principal da sala, ostentando os seus castiçais de ferro, escuros e desconjuntados. Das paredes de cor indefinida, onde de longe em longe uma mancha azulada nos deixa perceber que foi o azul a cor de sua última caiação, pendem os retratos gigantescos dos pais de Dona Generosa feitos a crayon e circundados de espalhafatosas molduras. Nas duas janelas da frente, cortinas de crochet feitas com fio de pavio, e nas portas que dão acesso para o corredor e o quarto de Dona Generosa, reposteiros de pedacinhos de taquara da Índia, tintos de verde e amarelo. Cobrindo o soalho, um velho tapete de veludo vermelho onde mal se adivinha, sobre os cantos, o seu primitivo desenho. Lustre de antigas mangas de vidro incolor, com ligeiros vestígios de pingentes. Colunas com guardanapos bordados e sobre elas solitários de vidro verde com lírios e rosas de papel crepom. Sobre o chão e as cadeiras, surradíssimas almofadas de crochet e cetineta pintada a óleo.
No mesmo roteiro, aparece uma situação que se tornaria quase um bordão do programa: os insistentes pedidos pelo cafezinho que Dona Generosa – muito mão de vaca, como se dizia na época – evitava sempre servir aos convidados.

Tudinha
Mamãe, o café está servido. Tratem de passar duma vez pra sala de jantar antes que ele esfrie ou caia alguma mosca (uma pausa grande de absoluto silêncio)
Generosa
Vamos passar para a sala de jantar? O café está servido.
Licurgo
(após uma pausa) Podemos passar mesmo, Dona Generosa?
Generosa
Claro que sim. Vamos, passem. O que é que estão esperando?
Licurgo
Mas o café está mesmo servido, Dona Generosa? Não será rebate falso?
Generosa
(rindo) Ora, Seu Licurgo, que ideia!… Esse seu Licurgo, sempre brincalhão. Sempre blaguer. (risos) Vamos, passem. (todos se afastam conversando)
Licurgo
Minha Nossa Senhora dos Recém-nascidos!… O que estará para acontecer!… Parece que desta vez o café vai sair mesmo!…
(Cortina Musical)
Como Erico Cramer gostava de relembrar, a sovinice da Dona Generosa convencia tanto que os ouvintes tentavam, à sua maneira, aliviar a situação de penúria dos amigos e vizinhos participantes dos serões radiofônicos transmitidos nas quartas-feiras à noite:

– Eu me lembro que nós recebíamos muitos presentes. Saíamos carregados nas quartas-feiras. Era café, porque faltava café na casa da Dona Generosa. Então o pessoal mandava café, bolos… Afinal, nos aniversários dela, para economizar, os bolos eram alugados.

Serões da Dona Generosa passou pelas três emissoras de Porto Alegre existentes na época – Difusora, Gaúcha e Farroupilha. No início, ia ao ar às 20h30, depois às 21h30, sempre às quartas. Com o tempo e graças ao sucesso obtido, de 30 minutos passou a uma hora de duração. No programa, o autor pretendia refletir “o próprio espírito da cidade”, mas conseguiu bem mais do que isto. Embora o enredo se esgotasse em cada episódio, havia uma continuidade na semana seguinte, constituindo-se na primeira narrativa seriada do rádio do Rio Grande do Sul. Roberto Lis lançava, assim, as bases da novela, gênero em que seria, anos mais tarde, também o pioneiro no estado.

Carmen de Alencar, a Dona Generosa (1942)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre: Livraria do Globo, ano 14, n. 325, p. 18, 22 ago. 1942.

Ao longo dos 11 anos em que Serões da Dona Generosa permanece no ar, o rumo da narrativa altera-se, muitas vezes, como consequência do afastamento de atores e atrizes do elenco. No entanto, o principal papel é sempre interpretado por Carmen de Alencar, pseudônimo de Odete Carmen Becker, que pegou o sobrenome artístico emprestado de Iracema de Alencar, sua tia, atriz conhecida então nacionalmente. De sua interpretação dependia tanto o sucesso do programa que, quando ela decide se casar, em 1948, deixando o rádio, Roberto Lis põe um fim à trajetória da Dona Generosa e de seus vizinhos e amigos.





Reconstituição de Serões da Dona Generosa (1977)
Fonte: RÁDIO DIFUSORA PORTO-ALEGRENSE. Opinião Pública. Porto Alegre, 26 set. 1977. Programa de rádio.
70 anos da Hora do Bicho, o primeiro programa de calouros do Rio Grande do Sul
2007
 Luiz Artur Ferraretto

A grafia adotada na época e em uso até hoje para o seu nome nem sequer fazia jus à correta pronúncia do apelido artístico adotado por Antonio Amabile, o Pi-ra-TI-ni, dito assim mesmo como paroxítona e não oxítona. Pois quando a Rádio Difusora Porto-alegrense inaugurou o primeiro auditório da capital gaúcha, em 25 de setembro de 1937, lá estava o Piratini, escrito errado, mas quem ligava. Ele já era conhecido dos ouvintes como músico e humorista, tendo começado se apresentando na Rádio Sociedade Gaúcha. É, no entanto, na Difusora que ele vai chamar a atenção com o programa de calouros Hora do Bicho, lotando as novas instalações da PRF-9.

Na década de 1930, os cabarets e cassinos já apresentavam números musicais ou de dança, além de sketches. Contando anedotas e brincando com o público, o cabaretier, espécie de mestre de cerimônia destas casas noturnas, fazia a passagem entre uma e outra atração, o que pode ter servido de inspiração para profissionais como Piratini.

Programa Hora do Bicho (1937)
Em primeiro plano, aparece o conjunto regional de Piratini e, em segundo, os candidatos. O animador está atrás do garoto que segura a maceta do bombo.
Fonte: Folha da tarde, Porto Alegre, 4 out. 1937. p. 14.

Assim, no domingo, dia 3 de outubro de 1937, das 11 às 12h, vai ao ar pela primeira vez o “programa de principiantes”, na definição do jornal Correio do Povo, a Hora do Bicho, com 16 pessoas submetendo-se ao concurso em que “Piratini, o humorista da cidade, lá estava no bombo, como um verdadeiro fantasma para os candidatos à constelação radiofônica”. Explica-se: quando o calouro não correspondia ao esperado, o apresentador utilizava o enorme instrumento musical para indicar a desclassificação.

Nas semanas seguintes à estreia, conforme indicam os jornais, o auditório da Difusora fica lotado. “Aos domingos, não havia rádio, em casa de pobre ou de rico, que não sintonizasse o programa máximo de Porto Alegre”, lembraria, saudoso, Ney Fonseca, em abril de 1961, na Revista do Globo. A afluência de público obrigou, inclusive, à transferência do programa, em 1944, para o Cinema Rex. A Hora do Bicho já ocupava então maior parte da manhã de domingo, das 10 às 12h. Nesta época, os melhores candidatos recebiam uma coroa e tinham direito a uma espécie de trono no auditório até que fossem superados por outros pretendentes ou obtivessem o prêmio final. A Hora do Bicho, com Piratini à frente, consolida-se, deste modo, como a primeira grande atração dos auditórios das rádios de Porto Alegre.

Piratini e os candidatos coroados da Hora do Bicho (1944)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre: Livraria do Globo, ano 16, n. 316, p. 24, 22 abr. 1944.
Estrangeiros daqui
2013
 Luiz Artur Ferraretto

Bem ao ritmo da influência crescente dos Estados Unidos, o rádio de Porto Alegre nos anos 1930 teve ao seu microfone algumas atrações internacionais de autenticidade difícil, passado tanto tempo, de ser atestada. Faziam sucesso, então, cantores e cantoras de pseudônimo com sotaque inglês, embora, ao soltarem a voz no idioma emprestado, por vezes, permanecesse mesmo certo acento tupiniquim. E dá-lhe fox na voz destes singers.

Uma das exceções, talvez fosse, Tommy Roberts, atração da Gaúcha que os jornais de então identificam como húngaro radicado desde a infância em São Paulo, que aparecia posando de galã com um chapéu à Bogart. Segundo a Folha da Tarde, em uma passagem por Londres, ele “conheceu o fox e o fox tomou conta de Tommy Roberts”. Na programação da época, destaca-se, ainda, a cantora Lilian Lee, do cast da Difusora, também, intérprete de fox, que conhecia, como descreve o vespertino da Caldas Júnior, “o inglês de todos os lados, por dentro e por fora”, provável garantia de qualidade em meio a vocalizações macarrônicas. Lilian Lee, por sinal, apresentava-se com o Jazz Melody, de Clóvis Mamede, uma popular orquestra de “música americana” como se usava chamar naqueles tempos.

Tommy Roberts, cantor da Rádio Sociedade Gaúcha
Fonte: Folha da Tarde, Porto Alegre, 1º dez. 1937. p. 10.

Lilian Lee, cantora da Rádio Difusora Porto-alegrense
Fonte: Folha da Tarde, Porto Alegre, 7 jun. 1937. p. 10.

Já a principal emissora da época, a Rádio Sociedade Farroupilha, recorria a um crooner americanizado para ganhar ouvintes e garantir o sucesso: Bob Keeler, cujo sobrenome talvez traísse uma transcrição errônea do substantivo inglês killer, usado, na época, à moda de gíria: o matador, algo como o cobra da canção.
Bob Keeler, cantor da Rádio Sociedade Farroupilha
Fonte: Folha da Tarde, Porto Alegre, 5 jul. 1937. p. 14.

No processo de crescimento da influência dos Estados Unidos, o cinema também tem papel de destaque, com os astros de Hollywood ganhando, até mesmo, seus correlatos no imaginário local. Assim, dizia-se, por exemplo, que os galãs da Farroupilha, Ernani Behs e Walter Ferreira, eram o Tyronne Power e o Clark Gable da Rua da Praia – a rua dos Andradas, mais tradicional via do centro da capital gaúcha e que, na época, prestava-se ao footing de final de tarde da burguesia local.

Obviamente, a aproximação com o star-system das já fortíssimas indústrias culturais dos Estados Unidos parava por aí. Os salários eram baixos, quando os profissionais não se apresentavam por um cachê simbólico ou, pior ainda, “de favor”.
A estruturação da concorrência em Porto Alegre
2013
Luiz Artur Ferraretto

Ao longo dos anos 1930, o associativismo idealista dos pioneiros da radiodifusão sonora dá lugar à lógica comercial e, com ela, à disputa – mesmo que incipiente – por ouvintes e anunciantes. Neste processo, o Rio Grande do Sul sofre a influência do que ocorre nas emissoras do centro do país. É em uma delas, a Record, de São Paulo, que César Ladeira – speaker conhecido por sua participação no movimento constitucionalista de 1932 – revoluciona o rádio do país, criando o elenco fixo com remuneração mensal. A esta inovação, Gisela Swetlana Ortriwano, no livro A informação no rádio, atribui o início da concorrência entre as estações:

A partir daí, começa a corrida e as grandes emissoras contratam a peso de ouro astros populares e orquestras filarmônicas. E mesmo as emissoras de pequeno porte procuram também ter o seu pessoal fixo. Essa mudança aguçou - ou mesmo desencadeou - o espírito de concorrência entre as emissoras, inclusive as de outros estados, que imitaram a programação lançada pela Record.
Em meados da década, ao serem inauguradas, Difusora e Farroupilha já possuem, portanto, o seu, como se chamava na época, cast próprio e organizado com orquestras e conjuntos musicais mais ou menos fixos. Acertam, ainda, contratos de um a três meses com intérpretes que se destaquem nos bares, confeitarias e casas noturnas de Porto Alegre. Há, também, uma constante tentativa de apresentar novas atrações, sejam artistas descobertos entre os valores locais ou importados das coirmãs do Rio de Janeiro e de São Paulo. Exemplo disto ocorre em 1937. A PRF-9 – Rádio Difusora Porto-alegrense, de Arthur Pizzoli, traz, para temporadas ao seu microfone, os locutores César Ladeira, da Mayrink Veiga, e Oduvaldo Cozzi, da Nacional, anunciando também apresentações musicais de Araci de Almeida, Jorge Fernando e Bando da Lua para contrabalançar a presença de Carmen e Aurora Miranda na PRH-2 – Rádio Sociedade Farroupilha.

Mais antiga e originalmente uma associação sem fins lucrativos, a Rádio Sociedade Gaúcha vai sofrer para se adaptar à realidade comercial, como conta Nilo Ruschel, um dos pioneiros das peerrês locais, em uma entrevista, anos depois, ao jornalista Flávio Alcaraz Gomes:

A Gaúcha estava onerada por um cast muito numeroso e pouco selecionado, com contratos muito longos de artistas, que nem sempre eram muito do agrado do público. As outras emissoras, mais agressivas, mais novas, vinham, com mais recursos financeiros, importando os nomes mais populares da música brasileira, do Rio e de São Paulo. Provocavam, então, um movimento muito intenso de programação. [...] Isto foi deixando a Gaúcha para trás. Ela foi marcando passo e a liderança passou a ser disputada, então, entre Difusora e Farroupilha.
A situação da Rádio Sociedade Gaúcha começa a mudar em 1937, quando é alterada a sua figura jurídica, marcando o fim do associativismo idealista em Porto Alegre. A respeito, assinala, em setembro daquele ano, a Revista do Globo:

Quinta-feira passada [provavelmente, 23 de setembro de 1937], foi ultimado o ato mais importante da Rádio Sociedade Gaúcha. A veterana irradiadora completou a reforma que a transformou em sociedade civil de fins comerciais. Depois de uma importante e movimentada fase de transição, aparelhou-se agora, definitivamente, a veterana PRC-2, dentro de um novo e necessário aspecto social, capaz de facilitar os seus movimentos dentro do campo comercial, o que, logicamente, terá seu reflexo num maior desenvolvimento da parte artística.
Na mesma época, Breno Caldas, diretor do jornal Correio do Povo que, em 1936, lançara a Folha da Tarde, assume o controle da Gaúcha. Nos anos seguintes, o dono da Casa Victor, Francisco Garcia de Garcia, conhecido como Chico Vitrola, também participa do negócio. A loja especializada em receptores RCA e refrigeradores Kelvinator concorre, diretamente, com a Casa Coates, então sob controle de Arthur Pizzoli, proprietário da Rádio Difusora Porto-alegrense. Pelos três empresários, vai passar o futuro da PRC-2 e da PRF-9 nos primeiros momentos em que as emissoras disputam a atenção dos ouvintes na capital do Rio Grande do Sul.
Difusora: de Arthur Pizzoli a Assis Chateaubriand
2013
Luiz Artur Ferraretto

Idealizada como empresa – seja para sustentar a venda das mercadorias da Casa Coates, seja para obter lucro pelo patrocínio de sua programação –, a Rádio Difusora Porto-alegrense sofre um duro impacto, em 1935, com o surgimento da Farroupilha. Na nova emissora, tecnologia, recursos financeiros e interesses políticos convergem, objetivando transformar a estação da família Flores da Cunha em uma das maiores e mais influentes do país. Aos 25 kW do potente transmissor da PRH-2, a estação de Arthur Pizzoli contrapõe os seus 500 W, ampliados apenas em outubro de 1936. Os dados existentes indicam, contudo, que a potência do novo equipamento não ultrapassava 5 kW. Os problemas com a qualidade do sinal da Difusora chegam a ser ridicularizados na imprensa especializada da época. No final de 1937, por exemplo, circula uma anedota reproduzida na Folha da Tarde. Alguém afirma:

– Ainda bem que a Difusora construiu um auditório...

Para ouvir, na sequência a pergunta:

– Por quê?

E a resposta vir rápida:

– Ao menos de lá pode se ouvir a estação!

O auditório que vai virar chiste – pequeno, mas o primeiro de Porto Alegre – integra a estratégia da emissora para confrontar a Farroupilha, emissora que se pretende para a elite, embora atinja também o restante da população. Como no prédio da concorrente, para assistir às apresentações, são aceitos apenas convidados muito especiais – patrocinadores, figurões da política, capitalistas... – e, assim mesmo, em poucas e selecionadas ocasiões, a Difusora trata de instalar, em 1937, junto ao seu estúdio, um espaço para abrigar o público. Ao mesmo tempo, mantém uma linha de programação um pouco mais popular. No final da década de 1930, sob a direção artística de Nelson Lanza, a rádio criada por Pizzoli transmite, deste modo, dois grandes sucessos da época: Serões da Dona Generosa, radioteatro em tom humorístico criado por Roberto Lis; e Hora do Bicho, programa de calouros conduzido por Piratini.

A emissora não deixa de recorrer, também, a talentos do centro do país, como acontece em novembro de 1936, quando Aracy de Almeida, Floriano Belham, Irmãs Pagãs, Jorge Murad e Sonia Barreto, entre outros, misturam-se com artistas locais em um espetáculo transmitido do Cinema Imperial, complementando as comemorações de aniversário e marcando a instalação do novo transmissor.

Anúncio da Rádio Difusora Porto-alegrense (1936)
Fonte: Folha da Tarde, Porto Alegre, 31 out. 1936. p. 10.

Segundo Breno Futuro, após comprar a Gaúcha, Arthur Pizzoli começa a enfrentar problemas para obter patrocinadores devido à precariedade do mercado porto-alegrense. Pensa, então, em vender suas duas emissoras, gerando os recursos necessários para adquirir a Farroupilha, muito mais potente. Em 1943, o representante dos Diários Associados no Rio Grande do Sul, João Freire, assiste às comemorações do nono aniversário da PRF-9. Pizzoli aproveita e oferece a estação. Dias depois o negócio é fechado. Tomando conhecimento de que iriam enfrentar o poderio dos Associados, os proprietários da Farroupilha, já em sérias dificuldades financeiras, oferecem a PRH-2 para Freire. Atraído pelo canal exclusivo internacional e pelo transmissor de 25 kW, ele se reúne mais uma vez com o proprietário da PRC-2 e da PRF-9, que, algo impensável nos dias atuais, desfaz amigavelmente a transação já acertada. Um ano depois, empolgados com o faturamento da Farroupilha, os Associados voltam à carga e adquirem por Cr$ 4 milhões (quatro milhões de cruzeiros) a Difusora. A rádio, no entanto, não chega a deslanchar nos anos seguintes, acabando por ser vendida para a Ordem dos Capuchinhos em 1959.
Cândido Norberto, o início de carreira do mais importante radialista gaúcho
2006
Luiz Artur Ferraretto

No início dos anos 1940, o bageense Cândido Norberto Santos divide seu tempo entre o estudo e o trabalho como repórter na Folha da Tarde, então um sucesso editorial. Por vezes, acompanha o colega João Bergmann, o Jotabê, conhecido cronista das coisas de Porto Alegre, à Rádio Difusora Porto-alegrense e vai tomando contato com o veículo que marcará sua trajetória profissional ao longo das sete décadas seguintes.

– O Jotabê era locutor da Rádio Difusora e, como nós trabalhávamos juntos na Folha pela parte da manhã, era comum que almoçássemos também juntos e, depois, a partir de certo momento, continuássemos a conversa na Rádio Difusora, que era a “PRF-9 – Rádio Difusora Porto-alegrense, a sua emissora”. Era o slogan dela. Enquanto rodava um disco e outro, ficávamos conversando dentro do estúdio. Uma tarde, por estas coisas da vida, houve um imprevisto e ele teve de sair urgentemente para atender um telefonema, mas o telefonema se prolongou. Abriu o microfone e o operador fez sinal... E eu li uns textos. A partir daí, fui convidado para fazer locução comercial. Já entrei também como redator de textos comerciais. Logo em seguida, já estava fazendo um comentário chamado O Fato e Algumas Palavras, que ia à noite.

Da Difusora, tempos depois, Cândido passa a trabalhar na Rádio Gaúcha, ambas as emissoras, na época, sob o controle de Arthur Pizzoli. A versatilidade já marca, então, a carreira do radialista.

– Certa vez, eu saí de um jogo do campo do Força e Luz [time de futebol da empresa que fornecia energia elétrica à capital gaúcha]. Eu estava narrando um jogo de futebol em plena Semana Santa. Saí do campo, larguei o microfone, entrei correndo no estúdio, na rádio, e começamos a tratar da interpretação da vida, paixão e morte de Jesus Cristo. Por sinal, era uma Quinta-feira Santa. Sabe quem era o Jesus Cristo? Eu. Aquele santíssimo homem. [fazendo o sinal da cruz] A paz esteja convosco! Saí da narração estridente de um jogo de futebol para fazer o suave Jesus Cristo. Era algo alucinante.

Como diretor artístico da Rádio Gaúcha, Cândido protagoniza duas iniciativas pioneiras na radiodifusão do Rio Grande do Sul. Numa época de novelas transmitidas duas ou três vezes por semana, ele introduz a irradiação em capítulos diários apresentados na primeira parte do programa Tapete Mágico. A atração faz o sucesso das noites da Rádio Gaúcha, de segunda a sexta, das 20 às 21h, na virada da década de 1940 para a de 50. Além disto, em 14 de maio de 1949, Cândido torna-se o primeiro profissional de rádio do Rio Grande do Sul a transmitir um jogo de futebol fora do país. Nesta fase, fazendo frente à Farroupilha, Cândido contrata, também, Walter Ferreira e Adroaldo Guerra. Junto com eles, cartazes de destaque no rádio porto-alegrense, divide, em 1948, os papéis principais de Os Três Homens Maus, novela de Raymundo Lopes, um grande sucesso junto ao público:

– A coisa chegou a tal extremo de popularidade, de força, que o mais frequente era encontrar, em qualquer ponto de Porto Alegre, Oficina Mecânica Três Homens Maus, Padaria Três Homens Maus, não-sei-o-que Três Homens Maus...

Cartão promocional da novela Os Três Homens Maus (1948)
Da esquerda para a direita, Cândido Norberto, Adroaldo Guerra e Walter Ferreira.
Fonte: Zero Hora, Porto Alegre, 9 jul. 2001. p. 46.

Cândido fica conhecido, também, pelo Pensando em Voz Alta, espaço de opinião sempre marcado pela Glenn Miller Orchestra interpretando Moonlight Serenade, que serve de cortina musical. O comentário torna-se um dos tantos trabalhos do radialista a permanecer na memória dos ouvintes. Décadas depois, numa homenagem ao Dia do Rádio, em 1975, a pedido da produção do programa Opinião Pública, de José Antônio Daudt, na mesma Difusora em que começara sua carreira, Cândido relembraria os tempos de pensar em voz alta, não que deixasse de refletir assim nas três décadas seguintes. Até porque, nem só dos tempos do rádio espetáculo se fez a sua trajetória profissional. Por isto, sobre o Cândido, há que voltar a falar, mesmo, mais adiante. São décadas de rádio e 79 anos de vida completados no dia 18 de outubro deste 2006.

Cândido Norberto revive o comentário Pensando em Voz Alta (1977)
Entrevista realizada por José Antônio Daudt para o programa Opinião Pública, da Rádio Difusora Porto-alegrense, transmitido em 26 de setembro de 1977.
Fonte: Acervo do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa.
João Bergmann: o cronista da cidade e descobridor de Cândido Norberto
2013
Gustavo Monteiro Chagas
Estudante de Jornalismo (UFRGS)

Se cada leitor tem um colunista de jornal favorito, nos anos 1950, Porto Alegre como um todo tinha lá o seu também: João Bergmann. O sucesso era tanto, que ganhou o epíteto “O cronista da cidade”, graças às crônicas publicadas sob o pseudônimo Jotabê nos jornais Correio do Povo e Folha da Tarde, ambos da Caldas Júnior. João também foi locutor de rádio, levando, quase sem querer, Cândido Norberto para o meio. Mesmo morrendo jovem, com apenas 38 anos, o cronista marcou a história da imprensa gaúcha. Era uma espécie de Luiz Fernando Verissimo daqueles tempos.

João Bergmann nasceu em Porto Alegre em 1922. Formou-se em Direito no portentoso palacete que ainda abriga a faculdade hoje ligada à Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Trabalhou como consultor jurídico do Sindicado dos Lojistas. Sua carreira no jornalismo começou na Folha da Tarde, no início dos anos 1940. O emprego foi obtido com ajuda de Arlindo Pasqualini, anos depois, seu colega no curso de jornalismo. Na Folha, Jotabê começou escrevendo reportagens da editoria de geral e, mais tarde, trabalhou na editoria nacional.

Ainda naquela década, Jotabê trabalhou na Rádio Difusora Porto-alegrense. Era locutor (ou, como se dizia na época, speaker). Seu dia era dividido entre a rotina do jornal pela manhã e a da emissora de rádio pela tarde. Nas idas diárias para a Difusora, Jotabê era acompanhado por Cândido Norberto, seu colega da Folha. Certa vez, Cândido teve que substituir o amigo na locução enquanto o cronista atendia ao telefone. E assim, por um acaso, o Rio Grande do Sul ganhava um dos maiores radialistas de sua história.

Mesmo com carreira consolidada, Bergmann seguiu os estudos, formando-se no curso de Jornalismo em 1954, na primeira turma da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. O cronista foi o orador da turma de 47 alunos que havia iniciado a graduação dois anos antes. Ainda em 1954, Bergmann ganhou um espaço próprio para seus textos na Folha. Era o De Ontem para Hoje.

Irônico e bem-humorado, Jotabê tratava dos assuntos do cotidiano dos porto-alegrenses da época. Suas crônicas tinham espaço para economia, política, problemas da cidade, entre outros temas. Até o trânsito, complicado já naquela época, era alvo do sarcasmo do cronista. Nos domingos, Jotabê mantinha coluna no Correio do Povo, intitulada O Domingo é Meu. Junto com suas crônicas, vinham ilustrações de profissionais como Sampaio, Xico Stockinger e George Duque Estrada.

Jotabê morreu em julho de 1960, vítima de um ataque cardíaco. Foi casado com Bernardina Assis e teve quatro filhos (entre eles o dirigente e conselheiro do Grêmio, João Luiz Bergmann, morto em 1983). Em 1964, suas crônicas publicadas na Folha e no Correio renderam o livro Crônicas de Jotabê, lançado pelo Instituto Estadual do Livro da Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul. Hoje, João Bergmann é nome de uma praça na Vila Assunção, na Zona Sul de Porto Alegre.

Nas crônicas que abrem o livro, o jornalista brinca com as radionovelas da época, criando a fictícia Almas irmãs gêmeas nascidas no mesmo dia com a diferença de cinco minutos apenas ou Os grilhões de uma consciência agrilhoada. Confira:


NOVELA 
Inúmeros críticos cinematográficos a quem submeti, modestamente, os screen-plays dos meus dois primeiros filmes nacionais, não foram capazes de esconder a surpresa diante do fato de ter eu podido fazer, assim de saída, uma coisa que os americanos levaram anos e anos fazendo. Um deles declarou, textualmente, que os meus filmes só eram comparáveis ao incomparável Radische Yuywzrvqspklmxesxch Srqthgflçbn, filme croata-esloveno que, como os meus, ainda não foi exibido no Brasil. Outro, foi ao ponto de classificar-me como autor claroescuramente precoce, iludido, por certo, com este meu natural bem cuidado e jovial que dá, aos circunstantes menos avisados, a impressão de estarem à frente de um simples garoto, em idade de bambolê. O que, no fundo, não passa de mera ilusão de ótica, mas ainda assim tão perfeita que nem os sinais de uma calvície com entradas pela frente e pelos fundos conseguem prejudicar, tanto mais que como todos sabem, um dos mais meninos prodígios do cinema, o querido Pablito, de Marcelino, pão e vinho, também é Calvo. 
Devo, entretanto, a bem da verdade, esclarecer que não alcancei aquelas culminâncias, logo no primeiro voo. Antes de abalançar-me à produção de enredos cinematográficos, produzi uma novela radiofônica, a qual só não chegou a ser lançada ao ar, por falta de patrocinador. No geral, os dirigentes das firmas procuradas eram para esse fim, não queriam assumir compromissos tão longos, alegando que não sabiam se os seus netos desejariam manter o programa e interromper, assim, no meio, uma novela de sucesso, como a minha, poderia criar um grave caso de comoção intestina. 
O título que escolhi, modéstia à parte, é bastante sugestivo e capaz de provocar enorme sintonia: Almas irmãs gêmeas nascidas no mesmo dia com a diferença de cinco minutos apenas ou Os grilhões de uma consciência agrilhoada. 
A história é simples, porém emocionante. Trata-se de dois irmãos que não sabem que são irmãos, pois viveram, sempre, em quartos separados e faziam refeições em horas diferentes, sem jamais terem descoberto o terrível segredo que cercava as suas origens. 
Uma vez, graças à bisbilhotice de uma vizinha, quase que fica tudo esclarecido, estragando-se a novela, antes, mesmo, de começar. Felizmente, porém, a megera é fulminada no momento em que ia contar tudo a André: − Meu pobre André, como tens vivido na ilusão! Ao que André retruca: − Fale claro, D. Esmeralda. Eu tenho o direito de saber tudo, tudo, t-u-d-o, tudo! Pelo amor de Deus, D. Esmeralda. Fale por favor! Fa (soluça) le! Pelo que, D. Esmeralda, já com voz sumida de quem vai ter uma coisa daí a pouco, resolve abrir-se: “Não sei se deva, meu filho. O segredo não é só meu. Mas aquele que m’o confiou em seu leito de molas, já não mais existe. (Ofega, bem perto do microfone que deverá ser convenientemente desinfetado, logo após) André! Ó meu pobre André! És ir... (cai, vitimada por um mal súbito, cujo mal, um quintanista de medicina, chamado às pressas, informa ser nó nas tripas, pois a novela se passa antes da invenção do apêndice). 
Vai daí que André e Maurício (o outro irmão que também não sabe que é irmão) apaixonam-se pela mesma moça, a loira e doce Margarida, a qual – vejam só a sutileza da trama – apaixona-se por André, acreditando que ele é o Maurício. Margarida, por seu turno, também tem uma irmã, a quem não vê há vários anos, porque foi dada como perdida durante o incêndio de um circo, mas, na verdade, fora recolhida pela mulher barbuda que a criou como um pai, ocultando-lhe, sempre, a história de sua vida. No circo, Martha, (é o seu nome verdadeiro, conforme assentamento constante a fls. 137 verso do livro 3-AB do Cartório de Registro de Nascimentos e Óbitos da Comarca) por uma dessas coincidências que nos fazem acreditar em inspirações sobrenaturais, passa a se chamar Margarida, o que, até hoje, me espanta, pois asseguro-vos que a mulher barbuda não conhecia a família de Martha, ignorando, completamente, o nome da irmã dela, não podendo, assim, ser intencional o uso daquele prenome. 
Um dia, depois de muitas voltas pelo mundo, o circo retorna à cidade e anuncia a sua grande atração: “Margarida, a única mulher barbuda que não tem barbas, em números de arrepiar os cabelos”. Preços reduzidos. 
Irá Margarida-Margarida ao circo para ver Margarida-Martha? E, se for, lá estarão, também, nas gerais, André e Maurício? E será que Margarida-Martha, durante o seu número do trapézio da morte não sentirá uma vertigem e cairá lá de cima?’ E André e Maurício, quando todo o mundo ficar sem saber o que fazer, não saltarão, ao mesmo tempo, para o picadeiro, a fim de socorrerem a jovem e bela moça? E não acabarão, a instâncias do Sr. Cordeiro (pai das Margaridas) levando-a para a case dele, a fim de, ali, ser melhor atendida? E não será isso, afinal, o que proporcionará ao Autor a possibilidade de, 53 capítulos após, escrever uma das mais comoventes páginas do rádio brasileiro, quando o Sr. Cordeiro descobre que é pai de sua filha e esta, por sua vez, fica sabendo que é filha de seu pai, caindo, ambos, de joelhos, um à frente do outro, com mal disfarçada emoção: “Minha filha! Minha pobre filha!” – “Meu pai! Meu pobre pai!”? 
Será.
Fonte: BERGMANN, João. Novela. In: DUARTE, Júlio; REVERBEL, Carlos (Org.).
Crônicas JotaBe. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1964. p. 15-18. 

NOVELA (II) 
Nos 162 capítulos anteriores desta emocionante novela radiofônica que escrevi em prantos e que só não chegou a ser levada ao ar por absoluta falta de um patrocinador de boa visão, sobretudo, vida longa, vimos que André e Maurício, dois irmãos bastante gêmeos, ignorando completamente essa circunstância, apaixonaram-se pela mesma moça, a qual, por sua vez, perdeu-se de amores por André, acreditando que ele fosse Maurício, sem falar em que ela possuía, também, uma irmã, cuja irmã perdera-se no verdor dos anos, durante um incêndio de um circo, nunca mais se ouvindo falar nela. Mas eis que o circo volta (os circos sempre voltam ao local do incêndio) e por uma série de coincidências felizes, a irmã circense, pois a meninazinha não morrera carbonizada como noticiou um órgão de imprensa local (o esqueletinho achado no dia seguinte, entre os escombros, era da macaca Balduina, com quem Martha nutria, apenas leve parecença) e, sim, acolhida pela mulher barbuda que a criou como um pai. Dezenas de capítulos após, o pai das moças descobre que a artista do circo que caiu do trapézio fraturando a bacia, sendo levada para sua casa, dele, não era nada mais nem menos do que a sua querida filhinha Martha, lançando-se um nos braços do outro, com tanto entusiasmo que se verificou nova fratura da moça, desta vez no ante-braço esquerdo, pois como todos estarão lembrados, a vítima era completamente canhota. Encanado o braço, ficou resolvido o problema das irmãs, permanecendo de pé, entretanto, o dos irmãos. Ah! Esqueci-me de dizer que um era de caráter honesto, trabalhador, cumpridor de seus deveres, incapaz de dizer uma leve mentira, ainda que em seu próprio benefício, motivo pelo qual estava bastante mal de vida, mas não se queixava nem pedia dinheiro emprestado, sendo, por isso, muito bem-quisto. O outro, era um refinado patife, hipócrita e falso, jogador profissional de bambolê a dinheiro, o que lhe dava grossos lucros, no geral obtidos com trapaças e com o uso de arcos falsos que trazia escondidos na manga, pelo que era muito considerado nas altas rodas, prevendo-se para ele uma bonita carreira na política, mediante a compra de votos nas eleições. Maurício era o bom; André era o canalha. Digo, o canalha era Maurício e André o bom. Não, o bom era Maurício. Aliás, confesso-vos que não me recordo muito bem desse detalhe, mas no final não faz muita diferença, pois tocado pelo amor angelical de Margarida, o ruim regenera-se e o bom, por ela desprezado, dá para beber, matando um pobre velho que veio lhe oferecer um buquê de margaridas, num dia em que, como de costume, bebera mais do que habitualmente, motivo pelo qual foi recolhido à Ilha-Presídio, com um espantalho vestido de guarda à porta da sua cela, da qual só conseguiu fugir 12 horas depois, aproveitando-se de um descuido do carcereiro. Esclareço-vos que cheguei a pensar, seriamente em fazer surgir um romance entre este irmão e a irmã reencontrada de Margarida, mas a coitada também não deu em boa coisa, fugindo de cada com um vendedor de cachorro quente, sem mostarda, o que ocasionou a morte, em 5 capítulos, do seu pobre pai, vitimado por insidiosa falta de ar, segundo diagnosticou um quinta-anista de medicina, pois a ação se passa antes da descoberta do enfarte do miocárdio. 
No último capítulo, na última cena, há, modéstia à parte, um diálogo belíssimo, entre Maurício e Margarida. Ele pega e diz – Amar-me-ás, sempre, Margarida? Ao que ela retruca, docemente: Amar-te-ei sempre, sempre, sempre. Daí ele vai e ela vai e dizem: 
− Minha Margarida...  
− Meu André... 
Não sei, até hoje, como foi que ela descobriu.
Fonte: BERGMANN, João. Novela. In: DUARTE, Júlio; REVERBEL, Carlos (Org.).
Crônicas JotaBe. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1964. p. 19-21.
A guerra nas ondas do rádio
2013
Luiz Artur Ferraretto

No dia 28 de janeiro de 1942, o ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha, anuncia o rompimento com as forças do Eixo – Alemanha, Itália, Japão e seus aliados. O rádio gaúcho não vai ficar alheio à entrada do país na Segunda Guerra Mundial ao lado dos Aliados – Grã-Bretanha, EUA e União Soviética.

A Farroupilha, por exemplo, passa a retransmitir o programa Boa Vizinhança, gerado em Washington, refletindo a política de mesmo nome lançada em meados dos anos 1930. Durante a 8ª Conferência Pan-americana, em Lima, no ano de 1939, o governo Roosevelt reforçara esta posição, pretendendo desencadear uma ofensiva sobre os demais países do continente e assegurar para si estes mercados. Portanto, pelo Boa Vizinhança, irradiado de segunda a sábado, das 21 às 21h15, os ouvintes do Rio Grande do Sul vão se inserindo no contexto do conflito pela ótica dos Estados Unidos, complementada pela da Grã-Bretanha, presente no noticiário e nos comentários da British Broadcasting Corporation, transmitidos de Londres, diariamente, das 21h15 às 21h30.

Irradiadas em ondas curtas de seus países de origem, estas emissões em português fazem, assim, frente às da Rádio Berlim, herdeira da antiga Transmissora Nacional Alemã. Em julho de 1944, na mesma época em que as primeiras tropas da Força Expedicionária Brasileira chegam à Itália, as emissões do Reichsrundfunk – o órgão ligado ao Ministério do Esclarecimento Público e da Propaganda, responsável pelas transmissões radiofônicas nazistas  – começam, diariamente, às 21h, horário do Rio de Janeiro. Revezam-se ao microfone quatro gaúchos, um mineiro e uma baiana convertidos à causa nazista, a maioria deles usando pseudônimos para disfarçar a ascendência germânica e dar certo ar de proximidade às irradiações. O coordenador da programação dedicada ao Brasil é Karl Heinrich Hunsche, natural do Rio Grande do Sul e, anteriormente, conforme investigação da Delegacia de Ordem Política e Social, um dos responsáveis pela infiltração nacional-socialista no estado.

Como registra Renato Mottola, em reportagem publicada pelo Diário de Notícias, em 5 de julho de 1944, destaca-se entre os programas transmitidos da Alemanha, o Atualidades do Dia, conduzido por Gerhard Wolfgang Dohms, com as notícias do conflito, tentando demonstrar como a Alemanha, então em franca retirada nos vários fronts, estava vencendo a guerra. Chama a atenção, ainda, o Pipocas e Batatas, espaço infantil apresentado por Lourdes Lage, encarnando uma simpática velhinha nazista, a Dona Filomena e, deste modo, preparando as futuras gerações para o Reich que pretendia durar mil anos.

No lado brasileiro da guerra pelo rádio, a Farroupilha, em julho de 1943, inclui, ainda, em sua programação o satírico Barão Eixo, ridicularizando o inimigo nazista, e o radioteatro semanal Brasil na Guerra, como chamam a atenção os anúncios no Diário de Notícias, “focalizando o esforço de guerra do Brasil” e a contribuição do país “para a vitória das Nações Unidas”.

Anúncio do programa O Brasil na Guerra (1943)
Fonte: Diário de Notícias, Porto Alegre, 19 set. 1949. p. 15.

Já a Difusora começa a transmitir, em 1º de abril de 1943, o programa de comentários A Marcha da Guerra, enquanto a Gaúcha lança A Marcha do Tempo, atração semelhante em conteúdo e denominação.

Anúncio do programa A Marcha da Guerra (1943)
Fonte: Correio do Povo, Porto Alegre, 17 set. 1943. p. 3.

Em meio ao conflito que, gradativamente, vai envolvendo países de todos os continentes, os noticiários crescem em importância e espaço no rádio. Como já acontecera em 1941 na Nacional, do Rio de Janeiro, e na Record, de São Paulo, o Repórter Esso ganha edições locais em Belo Horizonte, na Inconfidência; Recife, na Jornal do Comércio; e Porto Alegre, na Farroupilha. Assim, no dia 16 de julho de 1942, estreia a versão gaúcha do informativo patrocinado pela Standard Oil Company of Brazil, com notícias fornecidas pela United Press International, o que também garante uma visão do conflito segundo o ponto de vista dos Estados Unidos. Nos outros informativos, o mais comum é o uso de dados provenientes dos jornais e de agências noticiosas, atualizados graças à escuta das emissões em ondas curtas – em especial da BBC.
De O Solar dos Alvarengas e Em Busca da Felicidade à radionovela diária
2013
Luiz Artur Ferraretto

Até 1943, no radioteatro gaúcho, preponderavam sketches e peças isoladas. Naquele ano, o Rio Grande do Sul começa a ingressar na era das novelas. No dia 28 de março, um domingo, às 20h, os ouvintes da Rádio Difusora Porto-alegrense passam a acompanhar o Folhetim Sonoro da PRF-9, com O Solar dos Alvarengas, novela escrita por Roberto Lis e de título assim mesmo com Alvarengas, no plural. Os poucos roteiros remanescentes indicam que a obra pode ter começado, no entanto, como estória seriada, ou seja, os mesmos personagens de episódio a episódio, mas com tramas que se resolviam a cada programa. No Setor de Rádio e Fonografia do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, em Porto Alegre, existem os textos de oito capítulos esparsos de O Solar dos Alvarengas. Neles, é possível notar uma evolução gradual para o formato de novela. O de estreia, já na abertura, procura introduzir a estória:

Fazendo hoje a primeira apresentação de O Solar dos Alvarengas, a Rádio Difusora, de Porto Alegre, inicia, com os seus elementos de radioteatro, um novo programa que o seu autor intitulou de Folhetim Sonoro da PRF-9. Será ele irradiado todos os domingos às 20h e cada um dos seus capítulos constituirá uma estória diferente vivida pelos diversos representantes do austero e fidalgo solar que nos áureos tempos da monarquia viu passar pelos seus luxuosos salões de requintado gosto grandes figuras do nosso Império e da corte portuguesa. Do antigo fundador da Casa dos Alvarenga, resta apenas um grande retrato colocado sobre a lareira da biblioteca – ladeado por dois candelabros de bronze cinzelado – e o nome ilustre que seus filhos tão orgulhosamente ostentaram e fizeram por honrar e que hoje pertence aos netos e bisnetos, uma vez que a ronda implacável do tempo, na sua faina devastadora, à medida que oxidava a prataria dos orgulhosos fidalgos, ia também prateando os seus cabelos anelados até fazer com que desaparecessem no mistério insondável da morte. Restam hoje no velho casarão silencioso, entre a prataria sem brilho e os damascos desbotados, o velho comendador Carlos Alvarenga e seus netos Lucília, Suzana e Jorge, uma vez que os seus próprios filhos, levados pelo imperativo de um desejo forte de viver uma vida diferente, há muito se afastaram da casa que os viu nascer e onde viveram a sua meninice.

Quando Roberto Lis afirma, no texto de abertura de O Solar dos Alvarengas, que “cada um dos seus capítulos constituirá uma estória diferente”, fica clara a intenção inicial de apresentar uma trama completa todo domingo. Os indícios existentes, no entanto, permitem levantar a possibilidade de que a transformação em novela tenha se concretizado entre os capítulos transmitidos em 5 e 12 de setembro de 1943. No primeiro deles, o de número 20, não há nenhuma remissão ao que ocorrera até aquele momento. No domingo seguinte, no entanto, Roberto Lis preocupa-se em resumir o capítulo anterior, dando uma real noção de continuidade à trama, o que é repetido a partir de então:

Antes de darmos início ao episódio desta noite, façamos uma ligeira recapitulação dos acontecimentos desenrolados no capítulo anterior que se poderá resumir no seguinte: 
Jorge vai à casa de Maribel acusá-la de ter sido a culpada dos comentários escandalosos que giram em torno do nome de sua irmã Lucília com o industrial Paulo Henrique de Viveiros. Acusa-o de ter levado sua irmã para um dos cassinos da cidade, embebedando-a. Maribel diz-lhe que Paulo pretende com Lucília o que Jorge não acredita. Retirando-se indignado, o rapaz jura que há de vingar-se do industrial, o que deixa Maribel seriamente preocupada. Indo Jorge à casa de Paulo, lá encontra-se, enquanto o espera, com Clarisse, que, mais uma vez, pretende insinuar-se aos olhos do rapaz sem o conseguir. Como Paulo esteja demorando, Clarisse retira-se, deixando Jorge sozinho a esperá-lo. 
Paulo chega um pouco depois e Jorge começa a censurar-lhe o procedimento. Em sua cólera, entretanto, dirige ao seu contendor palavras ofensivas e Jorge tira do bolso um revólver e antes que Paulo tenha tempo de se defender atira contra ele no justo momento em que Maribel vem entrando apressada. Paulo cai morto quase que instantaneamente e, enquanto na porta do apartamento um guarda bate violentamente, Maribel arranca das mãos de Jorge a arma assassina, indicando-lhe a escada de serviço para que ele fuja sem perda de tempo. Ao retirar-se o rapaz apressadamente, Maribel vai abrir a porta do apartamento, ainda com o revólver na mão, dizendo ao guarda: ‘Prenda-me. Matei um homem’. Vejamos agora o que depois aconteceu.

Por estes capítulos, pode-se, ainda, ter uma ideia do enredo desenvolvido por Roberto Lis: a oposição entre o novo e o antigo no seio de uma família decadente, de origem aristocrática, em uma cidade interiorana com a estória dos relacionamentos amorosos envolvendo, em especial, Lucília, Suzana e Jorge – o presente e o futuro –, netos do outrora poderoso comendador Carlos Alvarenga – o passado. Mais do que isto, pelo que indicam os roteiros restantes, o autor procurou colocar um algo mais de fundo psicológico na caracterização dos personagens, relacionada sempre a um sentimento definido. O comendador Carlos Alvarenga, patriarca da família, com seus 73 anos, lembrando sempre os tempos do Império, quando a corte frequentava o solar, representa, neste contexto, o preconceito. Entre os netos, Lucília encarna a ilusão, Jorge, a ambição e Suzana, a desilusão. Aurora, a sobrinha do comendador, é a razão e Seu Félix, o confidente do patriarca dos Alvarenga, o coração. A preta velha Tia Esperança demonstra a resignação, enquanto o neto dela Donguinha, também descendente dos escravos do velho solar, significa a bondade. O mesmo ocorre com cada um dos protagonistas restantes. Do elenco, faziam parte, entre outros, João Bergmann, Carmen de Alencar, Lourdes Cotrim, Raymundo Gray, Cláudio Real, Branca Margarita e Lilia Maria.

Um pouco antes de O Solar dos Alvarengas migrar em definitivo para a narrativa novelada, Em Busca da Felicidade estreia na Rádio Farroupilha, como anuncia no dia 29 de junho de 1943 o Diário de Notícias:

Pela primeira vez, os radiouvintes deste estado irão desfrutar as mais fortes emoções jamais proporcionadas por um espetáculo radiofônico com a irradiação da sensacional novela do Radioteatro Colgate, Em Busca da Felicidade, na Rádio Farroupilha, a partir de 2 de julho, às segundas, quartas e sextas, das 10h30 às 11h.

No mês anterior, a Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, completara a transmissão dos 284 capítulos da obra do cubano Leandro Blanco, traduzida e adaptada por Gilberto Martins. Detentora da conta publicitária da Colgate-Palmolive, a Empresa de Propaganda Standard sugeriu a importação do texto para impulsionar as vendas do creme dental da indústria norte-americana. O estúdio da própria agência abriga, assim, a montagem da primeira radionovela transmitida no país. Quando Em Busca da Felicidade começa a ser transmitida pela PRH-2, no dia 2 de julho, vem precedida do sucesso anterior obtido por sua irradiação pela Nacional. A trama é acompanhada pelos ouvintes da Farroupilha, portanto, em sua versão original, gravada e distribuída a várias emissoras do país dentro da campanha publicitária dos produtos da Colgate-Palmolive.

Abertura de Em Busca da Felicidade (1943)
Fonte: BASF BRASILEIRA S.A. 1934 - 1984, 50 anos de memória brasileira.
São Paulo, 1984. Fita cassete.

A partir do sucesso dos capítulos transmitidos nas segundas, quartas e sextas, das 10h30 às 11h, a PRH-2 parte para a estruturação do chamado Conjunto de Radioteatro Novela, dirigido pelo então locutor e ator Walter Ferreira.

Walter Ferreira (1943)
Fonte: Diário de Notícias, Porto Alegre, 5 nov. 1943, p. 5.

Assim, estreia, no dia 28 de setembro de 1943, Rosa de Sangue, de Arsênio Mármol. Sob o patrocínio dos “Produtos de Beleza Pindorama – Óleo, Petróleo e Água de Rosas Pindorama”, a novela transporta o ouvinte para a Viena imperial, cidade em que a nobreza austríaca dançava valsas de Strauss e onde se podia ouvir o ruído dos sabres em românticos e idealizados duelos. Os capítulos com 30 minutos de duração vão ao ar às 16h, nas terças, quintas e sábados. Graças à receptividade do público, a Farroupilha prepara ainda Penumbra, de Amaral Gurgel, que vai ao ar a partir de 5 de novembro.

Elenco de Rosa de Sangue (1943)
Fonte: Diário de Notícias, Porto Alegre, 28 set. 1943. p. 5.

No ano seguinte, com a Difusora também sob o controle dos Associados, o gênero começa a se firmar na capital gaúcha. Na PRF-9, Adroaldo Guerra comanda o Conjunto de Radioteatro, que, em 4 de setembro de 1944, irradia o primeiro capítulo de Almas Inquietas, de Saint-Clair Lopes. Patrocinada pela Casa Guaspari, a produção é apresentada nas segundas e nas sextas, das 11h30 às 12h, com um elenco formado, além do próprio Adroaldo Guerra, por Joaquim L. Braga, Jorge Muccilo, Nelson Cardoso da Silva, Terezinha Furtado, Zilda Elaine e Linda Gay.

Falta, no entanto, um detalhe para que a novela se constitua na principal atração do rádio: a transmissão diária dos capítulos. No final dos anos 1940, o diretor artístico da Rádio Gaúcha, Cândido Norberto Santos, elabora uma estratégia de concorrência em relação à Farroupilha e à Difusora. Contrata, entre outros, Walter Ferreira, Adroaldo Guerra e Tânia Maria, constituindo em torno deles um grupo de diretores, atores e atrizes. Com este cast, cria o programa Tapete Mágico, transmitido de segunda a sexta, das 20 às 21h, no horário nobre do rádio da época. Nos primeiros 30 minutos, o ouvinte acompanha o capítulo diário de uma novela. Entra em seguida Pensando em Voz Alta, com as opiniões de Cândido Norberto. O comentário faz as vezes de divisor entre o radioteatro e a atração seguinte, o humorístico Corta Tesourinha, no qual um alfaiate de origem alemã ia dialogando com amigos e fregueses em uma crítica social sempre marcada pelo bordão que dava nome a esta parte do programa e interrompia as opiniões satíricas mais fortes.
Glênio Reis, o primeiro disc-jóquei do Rio Grande do Sul
2005
Luiz Artur Ferraretto

Orlando Silva e Glênio Reis
Fonte: Acervo particular de Glênio Reis.

Em 1958, na PRF-9 – Rádio Difusora Porto-alegrense, Glênio Reis inicia o ciclo dos comunicadores no rádio do Rio Grande do Sul, trazendo para dentro do estúdio o estilo de animação, na época, exclusivo dos programas de auditório. Loquaz e demonstrando uma descontração contagiante, o primeiro disc-jóquei do estado conduz o Falando de Discos, de segunda a sexta-feira, das 9h30 às 11h30, como se estivesse em um palco, levando ao microfone também seus conhecimentos de aficcionado:

Eu sempre me diferenciei dos outros, porque sempre fui um animador, nunca um apresentador. O apresentador, sim, é do estilo sóbrio. Anuncia as pessoas com elegância, com sobriedade. Eu, não. Eu não tinha, eu era uma pessoa que procurava divertir os outros, entretendo as pessoas e me comunicando com elas, rodando o artista e fazendo comentários sobre o disco, porque eu andava muito em contato com os cantores e eu sabia tudo, tudo, tudo do cantor.

Glênio Reis chama tanto a atenção do público que os ouvintes passam a frequentar o estúdio da Difusora, quase como se fosse um minúsculo auditório. Quando o número de pessoas ao seu redor é significativo, a irreverência do disc-jóquei permite a ele organizar uma espécie de coral improvisado a acompanhar, cantando, as músicas transmitidas. O sucesso desde novo jeito de fazer rádio permite que o animador amplie sua atuação na PRF-9. Explorando o horário das 18h, nas segundas, quartas e sextas-feiras, encarna também o Sherlock do Disco:
Era aquela figura misteriosa, que andava sempre à procura de novidades, com seu cachimbo... Eu fazia uma coisa misteriosa. Tinha uma porta que abria – Creaaaccckkk!!! –, eu entrava e falava com o locutor do horário, que era o meu querido amigo, o doutor Watson. E eu dizia [fazendo a voz]: “Eu dei uma chegadinha na Odeon e sabe o que eu descobri, meu querido doutor Watson?”. E ele: “Não”. “Eu descobri...” Ficava aquela coisa misteriosa e, então, eu tocava os discos. Depois, fazia o mesmo com os das outras gravadoras. Assim, eu desenvolvia um programa bem mais criativo.
O disc-jóquei apresenta, ainda, na mesma época, o Você Faz o Sucesso, atendendo pedidos musicais. De todos os três, no entanto, é o Falando de Discos o programa que atrai mais a atenção não só do público, mas também do meio artístico. Esta empatia permite ao disc-jóquei entrevistar ao microfone da Difusora cantores e compositores de grande sucesso no país. Logo de início, por exemplo, convence Agostinho dos Santos, atração da PRH-2 no sábado à tarde, no Vesperal Farroupilha, de Salimen Júnior, a comparecer ao estúdio da PRF-9 na segunda-feira pela manhã, com os ouvintes congestionando os telefones e o acesso ao quarto andar do Edifício Comendador Azevedo, onde a rádio funciona. Em outra ocasião – quase um feito na época –, entrevista Orlando Silva, intérprete conhecido por sua aversão aos jornalistas.

Nestes programas, Glênio Reis, seguindo a tendência da época de oferecer um conteúdo diversificado, não inclui apenas um tipo específico de música:
Naquele tempo, o que prevalecia era a boa música. Então, a gente tocava música francesa, música alemã, música norte-americana... Tocava muito tango também. Jazz se tocava. Tudo que era bom, tudo que tinha qualidade pertencia ao rádio.
Em 1959, Glênio Reis transfere-se para a Farroupilha, como chefe da discoteca e programador musical, com o Falando de Discos passando a ser transmitido às 14h. É, então, conforme a Revista TV, “o radialista que recebe mais correspondência no rádio gaúcho”. Nos finais das tardes de domingo, anima, direto da discoteca da PRH-2, o Rádio Baile Mesbla, tipo de atração que faz sucesso em uma época de pouca disseminação de eletrolas, com os ouvintes ligando ou escrevendo para pedir músicas e dançar em casa, nas reuniões familiares ou com amigos e vizinhos.

Ganha, ainda, um programete na televisão – Disque é Jóquei –, que apresenta a caráter: vestido como se fosse participar de uma prova turfística, montado de costas em um cavalo magro, quase esquelético. Quem assiste à TV Piratini, na época, começa a ter a sua atenção despertada para aquela figura muito diferente da de outros animadores.

Em 1965, o disc-jóquei é contratado pela Gaúcha, emissora na qual vai ajudar a quebrar um tabu da época. Até então, nos feriados religiosos, as rádios tocavam apenas peças eruditas, uma espécie de sinal de respeito em relação ao calendário da Igreja Católica. Gradativamente, nestas datas, vai introduzindo orquestrações de música popular nacional e estrangeira. Na virada para a década de 1970, apresenta, ainda, à meia-noite, o Programa da Pesada, com o slogan “Este é um programa sem preconceito, onde a mediocridade não tem vez”, tocando, por exemplo, músicas de grupos de rock como Led Zeppelin e Steppenwolf ou do guitarrista Jimi Hendrix, além de servir de referência para toda uma nova geração de comunicadores.

Dissertando sobre os diversos estilos musicais, sempre com a mesma precisão, Glênio chega ao século 21 apresentando, nas noites de sábado, o programa Sem Fronteiras, na Gaúcha.

Glênio Reis
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 4 de junho de 2003.
1950: o silêncio do Maracanã no microfone das emissoras de Porto Alegre
2006
Luiz Artur Ferraretto

Cartaz da Copa do Mundo de 1950 (1950)

Quando, aos 33 minutos do segundo tempo, o goleiro Barbosa sai da meta na expectativa de que Ghigia vá cruzar para outro jogador uruguaio, o Estádio do Maracanã lotado segura a respiração, para segundos depois ver o resultado de um chute direto do ponteiro, quase sem ângulo e em diagonal, transformar-se na derrota do Brasil por 2 a 1, na tarde de domingo, 16 de julho de 1950. A euforia dá lugar, assim, à perplexidade no mesmo dia em que, pela manhã, as manchetes dos jornais do Rio de Janeiro, à época capital federal, já previam a conquista do título, inédito para o país, de campeão mundial de futebol. De seu posto, observando a torcida majoritariamente verde-amarela e o gramado onde o desempenho das equipes dá vantagem ao adversário, o narrador da Rádio Gaúcha, Cândido Norberto Santos, tem a sua frente aquilo que vai guardar na memória como o “silêncio mais ensurdecedor” de toda a sua carreira.

A Copa do Mundo de 1950 chega ao fim, deste modo, como uma espécie de tragédia nacional, relembrada no futuro, a cada quatro anos, pelos programas especiais de rádio que antecedem a disputa desta competição organizada, periodicamente, pela Fédération Internationale de Football Association (Fifa). Meses antes do certame em território brasileiro, mobilizam-se as emissoras de Porto Alegre, até porque a cidade vai sediar, no Estádio dos Eucaliptos, do Sport Club Internacional, os jogos das seleções da Iugoslávia, México e Suíça. Nas transmissões, destacam-se Cândido Norberto e Guilherme Sibemberg, pela PRC-2 – Rádio Sociedade Gaúcha, e Antonio Mafuz, Leonel Silveira e Rafael Merolillo, do lado da PRF-9 – Rádio Difusora Porto-alegrense. Para a viabilização técnica das irradiações do centro do país, são firmados, na época, acordos com outras estações. A Gaúcha utiliza as ondas curtas da Nacional, do Rio de Janeiro, e a Difusora, como integrante dos Diários e Emissoras Associados, faz o mesmo com a Tupi, de São Paulo. É, portanto, a primeira cobertura esportiva de larga escala a mobilizar o rádio do estado. Mobilização que, a garantir comercialmente o trabalho realizado, envolve também os anunciantes, como neste exemplo recuperado por Jamile Dalpiaz, em O futebol no rádio de Porto Alegre, sua dissertação de mestrado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul:

Havia [...] concursos envolvendo patrocínios, que aproximavam os torcedores à mídia impressa e à radiofônica, como o Melhoral dos Cracks de 1950. Tratava-se de um concurso no qual torcedores escolhiam seus craques e, naquele ano de Copa, a fim de estimular seus votantes, a The Sydney Ross Company, idealizadora do concurso, resolveu distribuir ingressos para jogos da Copa que seriam realizados em Porto Alegre. Os ouvintes, após depositarem seus votos em urnas espalhadas pela cidade e ligarem seus receptores nos programas Melhoral dos Cracks e No Mundo da Bola irradiados, respectivamente, pelas emissoras Gaúcha e Difusora, ouviriam os nomes dos contemplados.

Em fins da década de 1940 e início dos anos 1950, é a Gaúcha que lidera em termos de cobertura esportiva, conforme admitem inclusive profissionais como Antonio Mafuz e Rafael Merolillo, então na Difusora, principal concorrente da PRC-2 nesta área. A Farroupilha, por sua vez, pertencendo, como a PRF-9, aos Associados, de Assis Chateaubriand, dedica-se ao espetáculo das novelas, humorísticos e programas de auditório, abrindo poucos espaços para este tipo de conteúdo, ao qual a Gaúcha também faz frente. Nos anos seguintes, a PRH-2 mantém, na realidade, a mesma estratégia verificada até então: transmissão de competições esportivas somente em casos muito especiais, condicionada à existência de um bom patrocinador e desde que não seja prejudicada a programação voltada ao entretenimento.

De fato, a Gaúcha registra até o início dos anos 1950 uma série de pioneirismos em termos de rádio esportivo no estado. Em 19 de novembro de 1931, Ernani Ruschel, pelo microfone da emissora, então utilizando o prefixo PRAG, irradia pela primeira vez um jogo de futebol no Rio Grande do Sul, descrevendo, do Estádio da Baixada, a vitória do Grêmio Foot-ball Porto-alegrense por 3 a 1 frente à Seleção do Paraná. Por coincidência, em meados da década seguinte, no ano de 1944, é o combinado paranaense que a Seleção do Rio Grande do Sul enfrenta em Curitiba, perdendo por 3 a 1, com a já PRC-2 realizando, na voz de Farid Germano, a pioneira transmissão esportiva interestadual. A estação vai ser também a primeira a cobrir um jogo no exterior, o que ocorre em 14 de maio de 1949, com Cândido Norberto ao microfone, narrando do Estádio Centenário, em Montevidéu, a vitória por 3 a 1 do Grêmio frente ao Club Nacional de Football.

Neste contexto, a Copa de 1950 serve para começar a consolidação no Rio Grande do Sul da dobradinha rádio e futebol, útil à sobrevivência, até hoje, tanto de uma quanto de outra parte.
A Ordem dos Capuchinhos e a Rádio Difusora
2013
Luiz Artur Ferraretto

Eis aqui, confrade, onde em especialíssimo modo devemos estar todos unidos e prestar a colaboração indispensável para esta obra rainha. Apelo para sua compreensão para que, quanto antes, organize festas, recolha esmolas, realize coletas, faça rifas, consiga empréstimos... tudo para a Rádio Difusora. Tenha a bondade de remeter o resultado ao provincial [responsável pelos capuchinhos no Rio Grande do Sul], em Caxias do Sul, ou para o frei Irineu Costella, em Veranópolis. Ótima oportunidade para mostrar o verdadeiro espírito familiar: auxiliar a Província é dever de bom filho, pois ela é nossa mãe. Espero que nenhum pároco fique fora da lista dos benfeitores da Difusora. O ministro geral, frei Clemente de Milwaukee [principal líder da Ordem dos Capuchinhos], abençoou a Difusora e a todos os seus benfeitores.

Distribuídas em um folheto, acompanhando a veneração dos crentes a São Lourenço de Brindes, o santo do dia, as palavras do provincial dos capuchinhos, frei Celestino Dotti, comunicam, naquele dia 23 de julho de 1958, que a Igreja Católica do Rio Grande do Sul passa a contar “com um meio poderoso para inculcar e defender a doutrina revelada”, a PRF-9 – Rádio Difusora Porto-alegrense. Na época, os religiosos desta ordem já operavam estações em algumas cidades do interior do estado, além de publicarem, em Caxias do Sul, o jornal Correio Rio-grandense, então com 50 mil assinantes.

à Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, interessa, então, adquirir uma emissora em Porto Alegre para a montagem de uma rede de rádio, como explica frei Osébio Borghetti, mais tarde diretor administrativo da Rádio e TV Difusora:

Os capuchinhos tinham no interior algumas emissoras de rádio. Precisavam de um ponto forte na capital gaúcha. Era a forma de ter uma emissora mais potente que pudesse coordenar uma rede de rádio. Na época se desconheciam outros meios para interligar emissoras, a não ser a potência. E a Difusora poderia aumentar a potência. Com 50 kW seria possível fornecer um sinal razoável para formar cadeia (era a palavra da época). Por isso, e com muito sacrifício, foi adquirida a Rádio Difusora Porto-alegrense dos Diários e Emissoras Associados.

Para os Diários e Emissoras Associados, por sua vez, a venda da Difusora cumpria um duplo papel. A rádio, na realidade, sempre ficara em um segundo plano em relação à Farroupilha. Ao longo da década, embora não registrasse prejuízos significativos, também deixava de gerar lucros. A emissora estava então bem equipada. Pouco antes da negociação, seus transmissores haviam sido transferidos do morro Santa Teresa para uma área no bairro Mathias Velho, em Canoas, instalando ali equipamentos recém-adquiridos que garantem um som de boa qualidade com 10 kW de potência. Os estúdios também novos funcionavam no quarto andar do Edifício Comendador Azevedo, na rua Uruguai, no centro de Porto Alegre.

A negociação com os capuchinhos é fechada no dia 31 de maio de 1958, assumindo a direção o frei Manoel Sebben Ramos. Depois de um período inicial de hesitação, a emissora começa a operar com o slogan “PRF-9 – Rádio Difusora Porto-alegrense – Esporte, música e notícia”. Sucedem-se na sua administração os religiosos Casimiro Zaffonato, Antônio Guizzardi, José Pagno, Jaime Biazus, Cyrillo Mattiello e Pedro Miszewski. Ao longo do tempo, frei Mattiello constitui-se no principal incentivador da estruturação de uma rede de estações de rádio ligada à ordem. Engenheiro eletrônico com formação nos Estados Unidos, cabe a ele elaborar os projetos que envolvem a outorga, tanto na parte técnica, quanto na legal. Deste modo, os capuchinhos vão obter, em 1961, uma concessão para instalar uma TV na capital do Rio Grande do Sul, o que ocorre no dia 10 de outubro de 1969.

A orientação adotada pela Rádio Difusora não é de cunho, exclusivamente, evangelizador. Mesmo assim, mantém horários específicos para a religião: Um Novo Dia Começa Para Ti, de segunda a sexta, às 6h; Hora Católica, nos domingos, às 11h, programa antes apresentado pela Farroupilha; e Missa Irradiada, nos domingos, às 19h30, inicialmente transmitida da catedral e, depois, da Igreja Santo Antônio, no bairro Partenon. Mais tarde, em 5 de junho de 1961, estreia A Voz do Pastor, conduzida pelo arcebispo dom Vicente Scherer, um espaço da Cúria Metropolitana, esta dentro da linha mais conservadora do clero. Os vínculos com a igreja são reforçados ainda pela relação de apoio mútuo com a publicação católica Jornal do Dia.

Interesses institucionais também vão estar presentes no dia a dia da rádio. Logo após a negociação com os Associados, a Difusora transmite palestras do professor Armando Pereira da Câmara, então “na luta pela liberdade do ensino no Brasil, ameaçada por grupo poderoso do Ministério da Educação” . Em outras palavras, o ex-reitor da Pontifícia Universidade Católica defende o direito ao ensino particular, quando o ministro Clóvis Salgado da Gama promove uma tentativa de reestruturação dos cursos secundários e superiores no país através da chamada Educação para o Desenvolvimento, que se insere no Plano de Metas do governo Kubitschek. Outro exemplo da preocupação terrena da Igreja Católica levada ao microfone da Difusora é a dogmática pregação anticomunista do então arcebispo dom Vicente Scherer, em A Voz do Pastor. A respeito, escreve Luiz Osvaldo Leite em um dos capítulos do livro Radiodifusão no Rio Grande do Sul, organizado por Lotário Neuberger:

Muito severas foram as análises do marxismo, leninismo e comunismo procedidas por dom Vicente. Suas críticas ao materialismo dialético, bem como às concretizações históricas do comunismo, foram radicais. Não aceitava, igualmente, qualquer forma de esquerdismo.

De modo geral, no entanto, na indefinição dos anos 1960, a emissora veicula programas musicais, apresenta noticiários e transmite competições esportivas. É nela, por exemplo, que o narrador Armindo Antônio Ranzolin e o plantão Antônio Augusto dos Santos vão surgir. Um pouco antes da troca no controle acionário, o radialista Glênio Reis transforma-se ao microfone da PRF-9 no primeiro disc-jóquei do Rio Grande do Sul, desempenhando no estúdio o papel antes exercido pelos animadores nos auditórios, mais um indício de que o espetáculo dava lugar a novas formas de fazer rádio.