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Anos 1930
Em textos, fotos, entrevistas e documentos sonoros, recomeçamos a relembrar a história do rádio no Rio Grande do Sul, agora com o auxílio do estudante de Jornalismo Gustavo Monteiro Chagas. Chegamos, assim, aos anos 1930, quando o idealismo das sociedades e clubes vai sendo substituído pela lógica do lucro. É o início do rádio comercial. Tempos marcados, ainda, pela fundação da Difusora e da Farroupilha, em Porto Alegre, pelo uso político do rádio e pelos primeiros grandes sucessos das emissoras locais. Ganham os lares do Rio Grande os sons das dramatizações da dupla Pery e Estelita, na Farroupilha, e Roberto Lis, na Difusora. Os ouvintes divertem-se com os programas de pioneiros como Piratini – leia-se Pi-ra-TI-ni – e Duque de Antena. E há – é claro – a música: de virtuoses locais, como Paulo Coelho, aos grandes nomes da canção brasileira e internacional. Para ir criando o hábito, um pouco de humor e emoção na aba Um pouco de tudo.

Destaques da década
A Rádio Gaúcha e a Revolução de 1930
A Rádio Gaúcha e a Revolução Constitucionalista de 1932
Arthur Pizzoli e o início do rádio comercial
A inauguração da Rádio Difusora
A inauguração da Rádio Farroupilha
O Estado Novo e a Rádio Farroupilha
Pery e Estelita: o surgimento do radioteatro gaúcho
O casal que inspirou Chico Anysio
Radioteatro: quando o som cria imagens
70 anos do Teatro Farroupilha
A Rádio Gaúcha e a Revolução de 1930
2013
Luiz Artur Ferraretto

Intelectuais, integrantes da burguesia ascendente ou burocratas com fortes laços com o poder, os associados da Rádio Sociedade Gaúcha acompanharam com vivo interesse a derrota de Getúlio Vargas nas eleições de 1930 e a rebelião que, meses depois, vai levá-lo ao poder. Embora de resultado notoriamente fraudulento – 298.627 votos contra apenas 982 –, a maioria no pleito obtida por Vargas no Rio Grande do Sul atesta este apoio dos antigos chimangos e maragatos. Dois anos depois, a situação, contudo, é diferente, como observa Sandra Pesavento na sua História do Rio Grande do Sul:
Desde o ponto de vista da oligarquia gaúcha [...] a sua participação na Revolução de 1930 e a ascensão de um gaúcho ao posto mais alto do país deveria, forçosamente, implicar a orientação da política nacional em favor do Rio Grande do Sul. Em suma, para setores da classe dominante regional, os gaúchos deveriam alçar-se na posição outrora ocupada pelos paulistas. Inconformados com a não realização de suas pretensões, parte dos pecuaristas gaúchos iria se voltar contra o poder central, unindo-se aos paulistas num movimento contrarrevolucionário em 1932.
No caso da Rádio Sociedade Gaúcha, a afinidade com o Partido Republicano Rio-grandense era garantida pela presença, na presidência, da entidade-emissora de Fernando Martins de Souza, chefe do Departamento de Obras Novas da Intendência Municipal, ocupada por Octavio Rocha. Indícios desta proximidade aparecem nos jornais de Porto Alegre, quando o intendente morre, em 27 de fevereiro de 1928. Em nota à imprensa, a diretoria da sociedade manifesta-se a respeito, conforme publica o jornal A Federação no dia seguinte:
A Rádio Sociedade Gaúcha deve inestimáveis serviços ao seu distinto sócio e, por isso, resolveu a sua diretoria, em sessão extraordinária hoje realizada, [...] não irradiar à noite o programa de música de costume. Apenas será feita a transmissão do seu necrológio pelo diretor senhor Alberto de Souza Gomes. 
A Rádio Sociedade Gaúcha perde, com a morte de seu prestimoso sócio doutor Octavio Rocha, um de seus mais fortes esteios.
Em 29 de fevereiro, é a vez do redator da seção Radiotelefonia, no Diário de Notícias, definir o papel de Octavio Rocha para a emissora:
Foi sem dúvida um dos mais ardorosos radioamadores que teve a Rádio Sociedade Gaúcha no seu quadro social e foi sem dúvida também o seu melhor auxiliar na vida econômica da sociedade. 
Pode-se afirmar, sem receio, que, sem ele, a RSG não teria logrado o seu objetivo, não lhe teria sido possível conseguir os elementos do seu estúdio e de seu transmissor. 
Por isso, muito justas foram as homenagens prestadas pela diretoria da Rádio Sociedade Gaúcha ao seu ilustre benfeitor na ocasião da sua morte e dos seus funerais. 
Entre os inúmeros serviços prestados à coletividade, lá está a alterosa antena da RSG, por cima do edifício do Grande Hotel, como a lembrar para sempre à população de Porto Alegre e aos forasteiros o nome do inesquecível remodelador da nossa capital.
De fato, a Rádio Sociedade Gaúcha fazia, por si própria, parte deste imaginário de modernização em voga durante a administração de Octavio Rocha, chamado de “o remodelador da capital”, de modo significativamente ufanista pelos jornalistas de então. Não é de se estranhar, portanto, que, ao iniciar a campanha da Aliança Liberal, a Gaúcha tenha servido de instrumento de divulgação política desta parcela da oligarquia brasileira. Inseria-se, assim, no contexto político e social de sua época, uma vez que mesmo o principal jornal do estado, o Correio do Povo – diário surgido em 1895 com a pretensão de não ser ligado à nenhuma facção partidária –, assumia entusiasticamente o apoio à candidatura oposicionista. O jornal da família Caldas começa a incluir, no alto da primeira e da última página, acima dos títulos e manchetes, a frase: “Para os supremos postos da magistratura brasileira no próximo quadriênio: Getúlio Vargas e João Pessoa”.

Imprensa atesta importância da Gaúcha no processo revolucionário de 1930
Fonte: Correio do Povo, Porto Alegre, 26 out. 1930. p. 3.

Ao longo da campanha, há registros de transmissões da Gaúcha defendendo a Aliança Liberal e colocando um contraponto às irradiações da Rádio Educadora Paulista, que, por sua vez, faz a apologia do candidato do seu estado, Júlio Prestes, apoiado pelo presidente Washington Luiz Pereira de Sousa. O efeito das mensagens difundidas pela Gaúcha incomoda as lideranças do governo federal, como o Correio do Povo registra em sua edição do dia 26 de outubro de 1930:
Já na fase eleitoral da luta, prestou a nossa estação difusora do rádio serviços relevantes à causa nacional, levando a palavra do Rio Grande até as mais longínquas povoações, incutindo nos nossos patrícios a fé inabalável de que estavam animados os orientadores da opinião. 
Por tal forma se portou a Gaúcha que o governo federal tentou, na sua obra de compressão, emudecê-la, ordenando o seu fechamento. Essa providência só não foi efetivada graças à ação enérgica da sua diretoria, que fez compreender às autoridades federais a violência da medida, quando a Rádio Educadora Paulista fazia, com a maior liberdade, a propaganda do Catete.
Não foi esta a única reação do governo de Washington Luiz à campanha radiofônica da Gaúcha. Também um transmissor comprado à Telefunken alemã é retido no porto do Rio de Janeiro ao chegar da Europa. A Rádio Sociedade Gaúcha monta, então, com recursos próprios, uma estação de ondas curtas para garantir o alcance nas suas emissões. Quando a revolução inicia, em 3 de outubro, as proclamações dos rebelados usam as ondas hertzianas da Rádio Sociedade Gaúcha, seguindo-se um embate propagandístico pelo éter que acompanha as pelejas do campo de batalha. Na radiodifusão, o principal alvo rebelde é a Educadora Paulista. A respeito, o Correio do Povo critica, em 10 de outubro, à emissora:
Sociedade que deveria ser um modelo de civismo, levando a todos os recantos do território nacional, no desempenho de sua elevada missão, palavras de conforto e de confiança na vitória da causa nacional, acha-se, mercê da subvenção que lhe dá o governo paulista, transformada em arma de guerra manejada criminosamente pelos agonizantes dominadores do dia.
Dias depois, o governo federal manda apreender todos os aparelhos receptores de radiotelegrafia e radiotelefonia. Os amadores estavam colaborando com as tropas rebeldes, captando transmissões militares e dos clubes e sociedades de radiodifusão. A preocupação básica era evitar, principalmente, a troca de informações estratégicas e, em segundo lugar, a propaganda dos rebeldes.

Um exemplo deste uso propagandístico, utilizando o precário transmissor de ondas curtas montado às pressas, é a irradiação do discurso em francês do professor Julio Lebrun, no dia 20 de outubro. Nela, de acordo com o relato também do Correio, em 21 de outubro, há a nítida intenção de informar ao exterior o que ocorre no país, registrando a vitória da revolução em 15 estados. Lebrun preocupa-se também em desmentir a versão difundida pelo Palácio do Catete de que o movimento possuía caráter comunista. O próprio Oswaldo Aranha, um dos líderes da sublevação armada, usa o microfone da Gaúcha para instigar a população à revolta, fato, mais tarde, registrado em uma placa de bronze colocada no estúdio da praça José Montaury, no Moinhos de Vento.

Fora estes acontecimentos isolados, existem registros de que a Rádio Sociedade Gaúcha, durante a campanha da Aliança Liberal, transmite informes e proclamações antigovernistas cinco vezes ao dia, procurando explorar as possibilidades, em especial, das ondas curtas. Estas irradiações tornam-se mais frequentes após a divulgação dos resultados do pleito de 1º de março de 1930, indicando a vitória do presidente de São Paulo, Júlio Prestes de Albuquerque. Os sócios da Gaúcha continuariam em clima de radicalização crescente até a derrubada de Washington Luiz, em 24 de outubro, e a posse de Getúlio Vargas, em 3 de novembro desse mesmo ano.

No Rio Grande do Sul e no Brasil, rádio e política começavam uma relação nem sempre ética, nem sempre informativa, mas, com certeza, duradoura e de forte influência na sociedade.
A Rádio Gaúcha e a Revolução Constitucionalista de 1932
2007
Luiz Artur Ferraretto

Há 75 anos, o rádio ocupou local de destaque no embate político e militar que passaria à história como a Revolução Constitucionalista de 1932. Pelo lado do apoio ao governo federal, a então PRAG – Rádio Sociedade Gaúcha iria se destacar, fazendo o contraponto, em especial, às transmissões da Educadora Paulista e da Record, esta última por si palco do primeiro movimento a encaminhar para o conflito.

No dia 23 de maio de 1932, um grupo de estudantes invade a Rádio Record, de São Paulo. Um deles, José Branco Lefèvre, lê ao microfone um manifesto contra o governo revolucionário liderado por Getúlio Vargas:

– Nós, os abaixo-assinados, declaramos que invadimos, à valentona, os estúdios da Rádio Record e conclamamos o povo para que se mude a situação política existente no Brasil.

Na mesma noite, uma multidão tenta tomar a sede da antiga Legião Revolucionária, entidade tenentista transformada no Partido Popular Progressista. Os manifestantes são repelidos a bala. Quatro estudantes – Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo – morrem. Das suas iniciais, surge a sigla MMDC, que denomina a entidade responsável pela organização da Revolução Constitucionalista. Até outubro, quando termina o conflito, locutores como Nicolau Tuma, Renato Macedo e, em especial, César Ladeira leem apelos revolucionários ao som da marcha Paris Belfort. As emissoras fazem ampla propaganda do movimento antigovernista.

No Sul, passadas três semanas do início da Revolução Constitucionalista, em 9 de julho de 1932, a Rádio Sociedade Gaúcha encaminha, no dia 1º de agosto, um ofício ao chefe de Polícia, tenente-coronel Agenor Barcellos Feio, e ao diretor regional dos Correios e Telégrafos, Carlos Thompson Flores Netto, solicitando autorização para estabelecer comunicações com São Paulo. A respeito, registra o jornal Correio do Povo, no dia 3:
A Rádio Sociedade Gaúcha, desta capital, há vários dias, vinha recebendo constantes pedidos por parte de interessados para ser estabelecido, por meio de seu microfone, um serviço de comunicações particulares de pessoas que, residentes no estado de São Paulo e aqui de passagem ou com parentes moradores naquele estado, desejem dar notícias suas ou pedi-las daqueles que lá estão.
Com o pedido aceito pelas autoridades, a PRAG começa a transmitir os comunicados no dia seguinte, a partir das 22h. Nas madrugadas de sábado para domingo, todos os recados da semana são repetidos. O uso da estação da Rádio Sociedade Gaúcha não se restringe a esta tarefa informativa. No dia 9 de setembro, o interventor federal do Rio Grande do Sul, general José Antônio Flores da Cunha, requisita as instalações da emissora. O objetivo, como define o jornal governista A Federação, é informar, fazendo frente e acabando com a “campanha de falsificações posta em prática pela Rádio Educadora Paulista”. A ocupação estende-se até os primeiros dias do mês de outubro.

Neste período, a PRAG opera com o nome de Rádio Oficial. A programação também sofre alterações. Além das notícias dos matutinos publicados na capital, lidas das 12 às 12h15, e dos vespertinos, reproduzidas das 21h45 às 22h, passa, junto com as habituais apresentações musicais ou reproduções de discos oferecidos por casas comerciais de Porto Alegre, a intercalar notícias sobre a situação política do país, destacando a visão do governo central a respeito do conflito.

Outra interessante modificação acontece na Audição Infantil. Transmitida aos sábados, das 19h45 às 20h15, o programa era conduzido por Ruth Ruschel, interpretando uma preta velha, a Tia Euphrasia, que contava estórias para as crianças. Ocorre que, durante a intervenção, a personagem dá lugar ao Coronel Pacífico e à Nhá Chica, desaparecidos quando a emissora volta a ser a Rádio Sociedade Gaúcha. O curioso é que a revolta liderada pela classe dominante paulista opunha-se ao crescente poder do tenentismo dentro do governo federal. Enquanto isto, na Rádio Oficial, saía Tia Euphrasia e entrava uma dupla em que se destacava um militar e, ainda, com uma denominação – Pacífico – contrastando com o momento belicoso vivido pelo país. Talvez os gaúchos pensassem que, se uns invadiam “à valentona” uma emissora de rádio, outros, pelo jeito, poderiam encarnar, de outra parte, um coronel “pacífico”.
Arthur Pizzoli e o início do rádio comercial
2007
Luiz Artur Ferraretto

Chove muito em Porto Alegre, prejudicando a recepção das emissoras de Buenos Aires e de Montevidéu. Aos ouvintes, resta como alternativa sintonizar a única estação local mantida pela PRC-2 – Rádio Sociedade Gaúcha. O gerente da Casa Coates, Arthur Pizzoli, tem uma ideia. Quer aproveitar o inesperado aumento de sintonia, ampliando o número de comerciais dos refrigeradores Frigidaire e dos receptores Philco, dos quais é o revendedor exclusivo no Rio Grande do Sul. Por telefone, fala com o agenciador de reclames Nilo Ruschel. Ainda muito reticente quanto à veiculação de publicidade, a diretoria da sociedade só aceita anúncios submetidos à apreciação 24 horas antes de serem lidos ao microfone. Sabendo das restrições, Ruschel, rapidamente, contata os responsáveis pela PRC-2, tentando convencê-los a aceitar o pedido do comerciante. Nada consegue. Ao saber da resposta dos diretores da Gaúcha, Pizzoli, irritado, responde:

– Eu sei o que vocês estão precisando. Vocês estão precisando de uma emissora concorrente para acabar com este monopólio. Pois eu vou botar a minha própria estação de rádio.

Do episódio, conforme alguns, surge a primeira estação exclusivamente comercial da cidade, a Rádio Difusora Porto-alegrense. Outra versão diz que Pizzoli queria mesmo vender os aparelhos receptores da marca Philco distribuídos pela Coates. O certo, no entanto, é que o sucesso da Difusora permite, anos depois, a compra da própria Gaúcha. Tudo amparado, é claro, no tino comercial de Pizzoli. Um exemplo é o slogan que cria para as geladeiras vendidas na Coates:

– Não compre um refrigerador, compre um Frigidaire.

Graças à popularidade desta frase de efeito, a marca torna-se sinônimo de refrigerador no Rio Grande do Sul. É este pendor para o negócio que o empresário leva também para a Gaúcha no início da década de 1940. Quem controla a PRC-2, então, é Breno Caldas, tendo por sócio um concorrente da Coates, Francisco Garcia de Garcia, proprietário da Casa Victor. Conforme Breno Futuro, genro de Arthur Pizzoli, o gerente da Coates e dono da Difusora começa a se interessar pela Gaúcha:

– Com a continuação da guerra, foram se criando e agravando dificuldades para as firmas de eletrodomésticos. Praticamente, tudo era importado, principalmente peças importantes de reposição. As dificuldades começaram a se fazer sentir para os aparelhos vendidos. As oficinas de manutenção das casas Coates e Victor, esta de Chico Garcia, tinham problemas semelhantes. Para a sobrevivência das mesmas e bom andamento, foi proposta por Pizzoli uma negociação em que seria permutado o controle acionário da Casa Coates pelo controle da Rádio Gaúcha, em mãos de Garcia.

Arthur Foltran de Pizzoli, fundador da Rádio Difusora Porto-alegrense (anos 1940)
Fonte: Diário de Notícias, Porto Alegre, 22 out. 1949. p. 6.

Em 1942, o habilidoso Pizzoli já possui o controle acionário da emissora. Trata, então, de aproveitar profissionais da Difusora na Gaúcha. Cândido Norberto Santos, um destes radialistas, descreve assim a situação da emissora na época:

– Encontramos a Gaúcha tocando disco o dia inteiro, paupérrima de comerciais, tendo como suporte econômico as dedicatórias. Para erguê-la, foi preciso levar adiante um lento trabalho de pôr ordem nas coisas.

Entre 1942 e 1944, a Gaúcha atravessa, assim, um período de reformulação, preparando-se para competir com mais força no mercado. Os transmissores são reformados e o auditório, ampliado. O balanço de 1943 já registra um faturamento de Cr$ 465.183,00 (465 mil 183 cruzeiros). No entanto, com duas das três estações de Porto Alegre em um mercado ainda incipiente, Pizzoli começa a enfrentar dificuldades de comercialização. Opta, então, por vender a Difusora, direcionando seus investimentos em rádio para a Gaúcha. Assim, até o final da década, a PRC-2 faz frente à Farroupilha, escudando-se na cobertura esportiva – ponto fraco da concorrente – e no espetáculo – área em que a concorrência parecia imbatível.

Breno Martins Futuro
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 26 de junho de 1999.
A inauguração da Rádio Difusora
2013
Luiz Artur Ferraretto

No primeiro semestre de 1934, a primeira emissora pensada como negócio no Rio Grande do Sul – a Rádio Difusora Porto-alegrense – começa a transmitir experimentalmente. Já nesta fase inicial chama a atenção o espaço destinado à publicidade e o caráter mais popular das irradiações, o que contrasta com a orientação dada, ainda, à Gaúcha pelos sócios desta entidade dedicada à radiodifusão sonora. Tais práticas desagradam alguns pioneiros da radiodifusão como Bolivar Fontoura, o Duque de Antena, que, em sua coluna no Jornal da Manhã, não perdoa o que considera falta de qualidade dos primeiros reclames da estação de Arthur Pizzoli, mas reconhece o poder dos anúncios na sustentação das emissoras:
A propaganda é o nervo das broadcasting, é condição sine qua non de sua existência, por isso que elas se mantém – a maior parte – exclusivamente da renda dos anúncios que irradiam pelo microfone. 
[...] São muito comuns, na nossa Difusora, os anúncios malfeitos, que os speakers, mecanicamente, despacham para o infinito todos os dias. 
Na propaganda de Underberg, por exemplo, parece que existe a preocupação especialíssima de enfadar e enervar o ouvinte pacato e desprevenido. Se não vejamos: 
‘XXX – Um cálice por dia dá saúde e alegria. 
XXX – Não deve faltar em nenhuma casa. 
XXX – 88 anos de êxito mundial.’ 
Essa repetição inútil e irritante serve exclusivamente para desagradar e mesmo irritar o ouvinte que, não raro, ao primeiro enunciado de Underberg, num gesto brusco, passa a sintonizar outra onda. 
Convenhamos, se o representante desse afamado líquido usasse apenas a primeira frase, não teria feito um anúncio mais econômico, muito mais eficiente e simpático?
As transmissões experimentais, por vezes, ocorrem em bares e cafés da rua dos Andradas, uma forma idealizada por Pizzoli com o objetivo de popularizar a Difusora, atraindo ouvintes para a rádio e clientes para os produtos da Casa Coates e dos demais anunciantes. O comércio porto-alegrense vivia um ciclo de prosperidade que se estenderia até a eclosão da Segunda Guerra. A economia gaúcha recuperava-se dos efeitos da crise mundial iniciada cinco anos antes com a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque.

Outro fator vai também facilitar o sucesso comercial do empreendimento de Arthur Pizzoli. Em 1º de março de 1932, o governo federal organiza a veiculação da publicidade pelas emissoras de rádio, com o Decreto n. 21.111, regulamentando outro, o de n. 20.047, de maio do ano anterior. Assim, 10% das transmissões podem ser ocupados por reclames. É a garantia dos recursos que, lucro à parte, serão reinvestidos na programação com a finalidade de atrair o público necessário, se possível em um ciclo interminável do ponto de vista do capitalista, para obter mais e mais anunciantes.

Neste contexto, em 27 de outubro de 1934, às 21h, é inaugurada oficialmente a PRF-9 – Rádio Difusora Porto-alegrense. Aos estúdios localizados junto à galeria do Bar Florida, na rua da Praia, comparecem, entre outros, o diretor regional dos Correios e Telégrafos, Carlos Thompson Flores Netto; e os representantes da Rádio Sociedade Gaúcha, Ivo Barbedo e Ernani Ruschel. “Depois de servidos champanhe e doces, os presentes visitaram o estúdio, que se encontra modernamente instalado com material fornecido pela Casa Coates”, informa o Correio do Povo, no dia seguinte, acrescentando que a estação de 500 W permitiria a sintonia do sinal em qualquer ponto do estado.

Inauguração da Rádio Difusora Porto-alegrense (27 de outubro de 1934)
Fonte: Correio do Povo, Porto Alegre, 28 out. 1934. p. 9.

A imprensa destaca, ainda, o maior diferencial da PRF-9 em relação às suas antecessoras. O Diário de Notícias deixa claro que “a nova broadcasting é de propriedade de uma sociedade civil”. A Rádio Difusora Porto-alegrense já nasce, portanto, como empresa, procurando tirar da publicidade, além da cobertura para as despesas geradas, o lucro.
A inauguração da Rádio Farroupilha
2005
Luiz Artur Ferraretto

Uma fria noite de inverno. O público se aglomera em frente a um casarão da Duque de Caxias, número 1.304, em pleno centro de Porto Alegre. Em torno do prédio de dois andares, cada um espera ver, nem que seja por breves instantes, na chegada ou na saída, dois dos mais importantes artistas da música brasileira, assunto, desde a véspera, das rodas de conversa da Rua da Praia, a principal da cidade. De fato, neste 24 de julho de 1935, repete-se o acontecido na tarde anterior, quando centenas de pessoas foram até o cais do porto, junto à estação flutuante do Condor Syndikat. De um hidroavião da empresa aérea alemã, desceram então Carmen Miranda, sem dúvida a maior cantora brasileira, e Mario Reis, um dos principais intérpretes da música de Noel Rosa. Ela, que havia vendido, quebrando recordes, 36 mil cópias do seu terceiro disco, o da marchinha Pra você gostar de mim, de Joubert de Carvalho, ou melhor, de Taí, como o povo rebatizou o samba, entoando a letra em todos os carnavais, enquanto existirem pierrôs e colombinas. Ele, não Francisco Alves, o mais importante cantor do momento, mas o ex-parceiro do rei da voz, na dupla desfeita há dois anos, em 1933.

Mario Reis e Carmen Miranda chegam a Porto Alegre para a inauguração da
Rádio Sociedade Farroupilha (23 de julho de 1935)
Fonte: Correio do Povo, Porto Alegre, 24 jul. 1935. p. 5.

Pra você gostar de mim (Taí), de Joubert de Carvalho, na voz de Carmen Miranda acompanhada pela Orchestra Victor (1930)

A cantora de trejeitos brejeiros e o intérprete quase aristocrata da voz sempre em um tom abaixo a criar estilo estão em Porto Alegre e – à boca pequena, na voz de renitentes elitistas, ou, de forma escrachada, na dos seus admiradores confessos – vão participar, nesta noite, da inauguração oficial da PRH-2 – Rádio Sociedade Farroupilha, “a maior broadcasting do país”, como os jornais não deixam ninguém esquecer nos últimos dias.

Pelos corredores dentro do casarão nos altos do viaduto que corre perpendicular à avenida Borges de Medeiros, circula um orgulhoso Arnaldo Ballvé, ex-funcionário do Banco da Província do Rio Grande do Sul convertido em diretor da estação pelos laços de parentesco e amizade entre a sua família e a dos proprietários, a do general José Antônio Flores da Cunha, governador do estado. Junto ao estúdio, apenas convidados especiais a garantir certa feição de elite à PRH-2, primeira grande emissora de rádio do Sul do país. Na Duque e ao longo das quatro escadarias do viaduto, a multidão cresce na expectativa também de ouvir seus ídolos pelos alto-falantes colocados no lado de fora do prédio.

Estúdio da Rádio Sociedade Farroupilha (1937)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre: Livraria do Globo, ano 9, n. 210, p. 47, 24 jul. 1937.

Pouco depois das 20h, após a chegada do governador gaúcho com os integrantes do secretariado estadual, o locutor Arildo Príncipe encarrega-se da apresentação inicial da Farroupilha. Na sequência, discursa o próprio Flores da Cunha, além de outras autoridades. A noite, no entanto, é de Carmen Miranda e Mario Reis ao microfone da PRH-2. Em um desfecho apoteótico, acompanhando os seus ídolos pela Duque de Caxias, descendo com eles em direção ao Grande Hotel, onde os dois estão hospedados, a multidão vai se apropriando do rádio. Naquele trecho, as pessoas já são ouvintes e não mais sem-filistas ou amadores da radiofonia, como nos tempos das sociedades de elite. Com 25 kW, maior potência entre as emissoras brasileiras da época, a Farroupilha nasce para reinar como pioneira do lazer massivo no Rio Grande do Sul.

Frederico Arnaldo Ballvé, filho de Arnaldo Ballvé, primeiro diretor da Farroupilha
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 29 de abril de 1999
O Estado Novo e a Rádio Farroupilha
2013
Luiz Artur Ferraretto

À medida que, em surdina, articula-se o Estado Novo, diminui o espaço político do antes poderoso general Flores da Cunha, patriarca da família que controla a PRH-2 – Rádio Farroupilha, de Porto Alegre. Em maio de 1937, já sem a maioria na Assembleia Legislativa e com a Brigada Militar sob ameaça crescente de federalização, o governador do estado passa a apoiar a candidatura de Armando de Salles Oliveira à Presidência da República. O seu Partido Republicano Liberal integra – junto com o Partido Constitucionalista, de São Paulo, e o Partido Republicano Mineiro – a União Democrática Brasileira (UDB). Na mesma época, Getúlio Vargas, de um lado, lança o paraibano José Américo de Almeida, enquanto, de outro, prepara o golpe que suspenderá as eleições marcadas para 3 de janeiro de 1938.

Flores da Cunha e seus filhos (outubro de 1930)
Da esquerda para a direita, Antônio Guerra Flores da Cunha, José Bonifácio Guerra Flores da Cunha, José Antônio Flores da Cunha e Luiz Guerra Flores da Cunha.
Fonte: Correio do Povo, Porto Alegre, 12 out. 1930. p. 12.

Os veículos de comunicação controlados pela família Flores da Cunha são postos, assim, a serviço da UDB. O Jornal da Manhã, administrado pelos filhos do governador, publica, diariamente e com destaque, um cabeçalho em quase todas as suas páginas, onde se lê: “Para presidente da República, votai no candidato democrata Armando de Salles Oliveira”. Quando o ex-governador paulista vem ao estado em setembro, a Farroupilha transmite vários comícios, inclusive os realizados em cidades do interior como Pelotas e Caxias do Sul, utilizando as linhas de longa distância da Companhia Telefônica Rio-grandense. O ponto alto da participação da PRH-2 na campanha eleitoral ocorre com a irradiação de uma concentração política no Parque Farroupilha, onde Armando Salles de Oliveira e os partidários da sua candidatura discursam para 350 mil pessoas, número consideravelmente ampliado através da difusão do comício pelos potentes transmissores da estação dos Flores da Cunha.

A crise com o governo federal chega ao ponto máximo em outubro. No dia 18, como consequência da ordem de federalização da Brigada Militar, o general renuncia e pede asilo político ao Uruguai, partindo em um avião da Varig na direção de Montevidéu. O país já está, então, em estado de guerra pela divulgação do chamado Plano Cohen, descrevendo a articulação de uma suposta insurreição comunista. O documento falso serve de pretexto à decretação do Estado Novo, em 3 de novembro. Como ditador, Getúlio Vargas vai usar todo o aparelho repressivo governamental posto a sua disposição para perseguir a oposição.

No Rio Grande do Sul, as forças de segurança prendem partidários e simpatizantes do general Flores da Cunha. O próprio diretor da Farroupilha, Arnaldo Ballvé, homem avesso à política, chega a ser detido. Em junho de 1937, a Empresa Jornalística Rio-grandense já suspendera a circulação do Jornal da Manhã e do Jornal da Noite. Assim, depois da renúncia e do subsequente golpe do Estado Novo, o palacete da PRH-2, na Duque de Caxias, torna-se ponto de convergência da oposição. Diariamente, por volta das 11h, no gabinete de Luiz Guerra Flores da Cunha, reúne-se um grupo oposicionista, formado, entre outros, por Daniel Krieger, Ottoni Câmara Arregui e João Pibernat de Carvalho. Os encontros são vigiados pelas forças de segurança da ditadura. Neste contexto, chega do Uruguai um manifesto em que José Antônio Flores da Cunha afirma a sua firme decisão de voltar ao país para liderar um movimento contrário às arbitrariedades do Estado Novo. No início da noite, pela voz de Manoel Braga Gastal e pelo microfone da emissora, o general exilado vai falar ao estado e ao país. A cada cinco minutos, um locutor anuncia, criando suspense e chamando a atenção dos ouvintes: “Aguardem, às 19h, uma importante informação política”. À tarde, o texto original intitulado Aos meus amigos do Rio Grande do Sul é reduzido para dois minutos e meio, levando em consideração o tempo a ser gasto pelos agentes da Delegacia de Ordem Política e Social, a polícia política, para o deslocamento da sede da Repartição Central de Polícia, no número 1.411, até o prédio da PRH-2, no 1.304, na mesma Duque de Caxias. Manoel Braga Gastal, em seu livro Flashes de vida, descreve como se deu a intervenção policial:

Mal chegara à metade do texto e já ouvia o barulho da pancadaria, embora a pesada porta acústica da cabina de locução filtrasse os ruídos de intensidade comum. Gritos ferozes, sons de móveis caindo, invasão dos estúdios, um inferno. Pelo visor de vidro vi passar voando uma estante de suporte de partitura musical da orquestra do maestro Salvador Campanella, diretor dos programas musicados da estação. Aumentei a velocidade da leitura, mas a proclamação me fora arrancada das mãos. Fui violentamente puxado para fora da cabina. Pude constatar, então, o que fez a fúria de beleguins – era como se houvesse passado pelo local um regimento da SS hitlerista. Estava ferida a austera emissora, de tantos serviços prestados nos seus três anos de existência [...].
A promessa de Flores da Cunha contida no manifesto vai demorar a se concretizar. Quando o general retorna, em 1942, é imediatamente preso, sendo indultado um ano depois. Nesta época, a Farroupilha, por sua vez, enfrenta problemas econômicos que levam a sua venda para os Diários e Emissoras Associados, em 1943.


Manoel Braga Gastal
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 3 de outubro de 1999.
Pery e Estelita: o surgimento do radioteatro gaúcho
2005
Luiz Artur Ferraretto

É setembro de 1999 e, no apartamento acanhado em pleno centro do Rio de Janeiro, a dona Esther Daniotti, com seus 80 e muitos anos, como prefere definir a idade, ainda olha com o mesmo carinho das décadas de 1930 e 1940 a caixa de onde transbordam lembranças e dezenas de cartas de ouvintes da PRH-2 – Rádio Sociedade Farroupilha, de Porto Alegre. Não só de apreciadores. O que mais atesta o sucesso dela, que ninguém conhecia pelo nome de batismo, são as folhas amareladas, algumas manuscritas, outras datilografadas, escritas por enfurecidos donos de cinema de toda a Região Sul. Também pudera, a grita é geral. Aos domingos à noite, o Teatro Farroupilha, liderado por ela, a Estelita Bell, e por seu marido, o Pery Borges, bate com vantagem qualquer outro entretenimento. É a nossa segunda entrevista, já que, um pouco antes, havíamos conversado por telefone. O apartamento – pequeno, contrastando com a enorme popularidade dela e do marido décadas antes – não me sai da memória.

Pery e Estelita apresentam-se no quarto aniversário da Rádio Farroupilha (1939)
Fonte: Acervo particular de Estelita Bell.

Dona Esther se foi este ano, ganhou algumas notas nos jornais e até, por ser atriz do elenco da Rede Globo de Televisão, menção no Jornal Nacional. Se fosse há 70 anos, sua morte comoveria milhares de pessoas. A dupla Pery e Estelita era, então, a atração mais famosa do rádio do sul do país. Nas décadas seguintes, ainda brilharia ao microfone da Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro.

Natural de Jaguarão, a 380 km de Porto Alegre, Luiz Pery Borges entra para a Companhia Procópio Ferreira em 1932, como ponto, quando o grupo teatral do maior ator do país na época fazia temporada na capital gaúcha. Três anos depois, casa-se com a carioca Esther Daniotti, que, substituindo o sobrenome do pai pelo da mãe, a atriz Renée Bell, transformara-se em Estelita Bell. Naquele mesmo 1935, no dia 29 de novembro, radicando-se no Rio Grande do Sul, estreiam ao microfone da Rádio Difusora Porto-alegrense com sketches. O cenário radiofônico dos anos 1930 permite que, sem sair da PRF-9, de Arthur Pizzoli, os dois estreiem também na PRH-2, da família Flores da Cunha, logo em seguida. No dia 6 de janeiro de 1936, Pery e Estelita passam, então, a se apresentar na Difusora, às segundas, quartas e sextas, enquanto, na Farroupilha, aparecem às terças, quintas e sábados. Meses depois, graças ao sucesso obtido pela encenação de trechos da vida de Jesus Cristo, durante a Semana Santa, Luiz Guerra Flores da Cunha contrata a dupla com exclusividade.

Boa parte do sucesso da PRH-2 pode ser atribuído ao trabalho de Pery e Estelita, em especial pela criação do Teatro Farroupilha em 1937, o segundo programa do gênero lançado no país, como lembraria seis anos mais tarde o jornal Diário de Notícias:

Quando da fundação do atual conjunto de Pery e Estelita, só existia, no Brasil, um teatro do mesmo gênero, dirigido por Manoel Durães, em São Paulo. Em 1937, então, surgiu o Teatro Farroupilha e, logo após, o Teatro nos Ares, da Mayrink Veiga.
A iniciativa de apresentar uma peça inteira foi do diretor da PRH-2, Arnaldo Ballvé, que sugeriu a ideia à dupla dentro das comemorações programadas pela Farroupilha para a Semana da Pátria de 1937. A escolha recaiu sobre Deus lhe pague, de Joracy Camargo, também da Companhia Procópio Ferreira, encenada, pela primeira vez, cinco anos antes. A denominação do programa surgiu quase por acaso, como contaria Estelita Bell, naquela tarde de 1999, folheando suas recordações:

– Ninguém cogitou de dar um nome mais geral para a apresentação de Deus lhe pague. Na hora, o Antonacci Rabello, que era o locutor, é que batizou: “Está no ar, agora, o Teatro Farroupilha”. Na hora! São destas coisas da vida. Da vida e do rádio da época.

Conforme um anúncio comemorativo do Café Carioca, à época patrocinador do Teatro Farroupilha, no sexto aniversário do programa, em 1943, a dupla Pery e Estelita já contabiliza um saldo de 278 peças apresentadas, a maioria – 180 – comédias. Predominam ainda os textos nacionais – 173. No total, parcela significativa – 128 – é inédita no Rio Grande do Sul, sendo 47 obras nunca antes encenadas no país. Seis anos antes, em 1939, a PRH-2 registra nas noites de domingo, graças ao radioteatro, um público de 23 mil ouvintes em Porto Alegre, aproximadamente 10% da população da capital gaúcha na época.

De 1937 a1945, a rotina de produção do Teatro Farroupilha não se altera. Pery Borges encarrega-se das adaptações, por vezes selecionando obras de escritores consagrados – O Guarani, de José de Alencar, encenada em 6 de janeiro de 1940, é um exemplo – ou em evidência na época – caso do norte-americano John Steinbeck e do seu Noite sem lua, livro radiofonizado em 4 de abril de 1943.

Apresentação de O Guarani, adaptação de Pery Borges para a obra de José de Alencar
(setembro de 1938)
Fonte: Acervo particular de Estelita Bell.

Trecho do roteiro de O Guarani (6 de janeiro de 1940)
Fonte: Acervo particular de Estelita Bell.

Roteiro pronto, as cópias são datilografadas com o auxílio de papel carbono e distribuídas ao elenco. Cada ator ou atriz tem, então, alguns dias para estudar o seu papel. Em paralelo, Pery Borges, com o auxílio dos técnicos em sonoplastia, acerta as trilhas musicais e os efeitos sonoros necessários. Nos finais de semana, à tarde, ocorrem os ensaios, em geral dirigidos por Estelita Bell. O resultado do trabalho pode ser conferido nas noites de domingo.

Na PRH-2, Pery e Estelita trabalham durante nove anos e três meses. Seu sucesso radiofônico permite que passem algum tempo em turnê pelos teatros do Rio Grande do Sul. Na sequência, transferem-se para o Rio de Janeiro, onde integram o cast da Rádio Mayrink Veiga. Os dois voltam ao estado, em 1950, durante uma breve temporada na Gaúcha, por iniciativa de Cândido Norberto Santos. No entanto, para o público do estado, a atuação da dupla fica marcada pelo Teatro Farroupilha, apresentado nas noites de domingo.
É este mesmo Teatro Farroupilha que desfila frente aos olhos da dona Esther Daniotti na tarde de um dia perdido de 1998, atendendo à curiosidade do pesquisador e sendo, de novo, Estelita Bell, pseudônimo que, em um dia também perdido, o grande ator e diretor Procópio Ferreira definiu:

– Fica meio cantora de tango, mas serve!


Estelita Bell
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 14 de julho de 1999.
O casal que inspirou Chico Anysio
2012

Fonte: CHAVES, Ricardo; BÍSSIGO, Luís. Zero Hora, Porto Alegre, 27 mar. 2012. p. 56.
Almanaque Gaúcho.


Chico Anysio
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 22 de janeiro de 2009
Radioteatro: quando o som cria imagens
2006
Luiz Artur Ferraretto

Corre o ano de 1938. Com base em uma leitura atenta de O Guarani, de José de Alencar, o radialista Pery Borges prepara uma peça em três atos para o Teatro Farroupilha, transmitido nas noites de domingo e então uma das atrações mais ouvidas no Sul do Brasil. O diretor e ator da PRH-2 – Rádio Sociedade Farroupilha, de Porto Alegre, redobra cuidados nesta produção que vai comemorar, naquele mês de setembro, os dois anos de sucesso do programa pioneiro em radioteatro no Rio Grande do Sul e o segundo do tipo em todo o país. Além do roteiro com as marcações de trechos para cada um dos atores, inclui uma listagem das trilhas musicais a serem utilizadas, quadro a quadro, como nas apresentações a que Pery se habituara nos seus tempos da Companhia Teatral de Procópio Ferreira. A dramatização radiofônica já superara, então, sua fase inicial, quando trechos de peças em cartaz na cidade eram apresentadas, sem maiores tratamentos radiofônicos, ao microfone. Na relativa precariedade das peerres da época, no entanto, não se definiu, ainda, uma linguagem própria, que diferencie as montagens do apresentado nos teatros e casas de espetáculo. Nos anos seguintes, ao contrário, toda uma rotina de trabalho vai se desenvolver, incorporando técnicas próprias que fazem das encenações hertzianas uma arte à parte.

A partir da década de 1940, com a novela preponderando sobre as peças únicas, a ficção radiofônica transforma-se em espetáculo que concentra grande quantidade de ouvintes. Em torno desta poderosa atração, surge toda uma infraestrutura específica. Na virada para os anos 1950, as encenações utilizam, de modo mais sistemático, todos os elementos básicos da linguagem radiofônica: a voz, a música, o efeito sonoro e o silêncio. Segundo Rubens Vidal, autor da reportagem A volta do folhetim, publicada em 1948 pela Revista do Globo, a utilização do som inclui, então, três áreas – sonoplastia, contrarregra e sonotécnica – distintas e complementares:
A primeira é a montagem sonora do programa: efeitos musicais que fazem fundo de cena ou que separam as cenas. Auxiliam, com a música, as palavras do intérprete. (…) Assim como os sábios pesquisam nos laboratórios, existem indivíduos que vivem nas discotecas procurando novos efeitos, tentando novas descobertas, novas ilustrações. O contrarregra encarrega-se de completar aquilo que as palavras não podem especificar. É o senhor dos mil ruídos. Barulho de passos, bater de portas, ruído de talheres, arrastar de cadeiras etc. A sonotécnica diz respeito à execução da parte musical dos programas pela mesa de controle e pelo operador.
Em um mercado que cada vez mais exige uma rapidez de linha de montagem na produção cultural, o aprimoramento dos técnicos diminui a carga de trabalho dos autores. A produção como um todo, graças a estes profissionais de trilhas e efeitos, tem de ser pensada considerando que diferentes tipos de sons provocam também reações diversas sobre a sensorialidade do público. A música e os efeitos exploram a sugestão, criando imagens na mente do ouvinte. São auxiliados pelo tom e pela flexão da voz do locutor ou apresentador. Assim, além de pontuarem a narrativa, os efeitos permitem ao público “ver” o que está sendo descrito e a música possibilita ao ouvinte “sentir” o que se transmite.

Nos dez anos que separam a montagem de O Guarani e a reportagem da Revista do Globo, não só a radiofonização em si, como consequência desta nova mentalidade, evolui, mas a interpretação vai se adaptando ao rádio. A constatação é também de Rubens Vidal:
Assim como o cinema é imagem, o radioteatro é voz e som. Ele começou a ser feito, primitivamente, por pessoas do teatro, e daí um terrível defeito: o artificialismo das interpretações. Os atores falavam alto, quase gritando, gesticulavam, gargalhavam com voz de tenor, numa luta titânica para serem ouvidos tanto pelos espectadores da primeira como da última fila. Ignoravam que o microfone tem uma vantagem: coloca todos os espectadores na primeira fila. Nas cenas de alcova – exemplificando – os segredos, os cochichos, são ouvidos no mesmo tom real. Com esta naturalidade, a novela deu um salto. 
Um bom ator de rádio não é apenas aquele que está de posse de uma bela voz ou que apresenta uma bela dicção e facilidade de locomover-se diante do microfone. Esses são requisitos para speaker, não para ator. Julgava-se que uma voz melíflua e agradável era o quanto bastava. Mas é apenas isto: interessa o que possui voz adequada para este ou aquele papel.
Se os efeitos sonoros retratam o ambiente, à voz cabe, com diferentes entonações, transmitir, além do conteúdo da narrativa, a emoção, associando-se assim às trilhas musicais utilizadas. Na época, muitos atores e atrizes submetem-se, por este motivo, a aulas de canto lírico, buscando aprimoramento e, assim, adequando-se às exigências do teatro radiofônico. Prática comum, portanto, é aprender a solfejar, ou seja, a entoar um trecho de uma música, pronunciando o nome das notas e procurando dar a cada uma delas o seu valor e acentuação corretos conforme o compasso e o ritmo exigidos. Os atores desenvolvem, deste modo, a capacidade de interpretação.

A voz indica, ainda, o papel que pode ser dado ao ator ou atriz, definindo tipos específicos para homens e mulheres. A do galã deve ser aveludada e romântica, situada entre o grave e o agudo. Sua contraparte feminina, a mocinha, poderá soar doce, suave e ingênua, ao interpretar a sofredora, vítima de vilões, inocente ante as maldades do mundo, ou insinuante, a sugerir possibilidades amorosas, em personagens agraciados pela sorte ou perseguidos por desventuras. A voz madura caracteriza o centro: dramático, quando transmite confiança e seriedade, e cômico, ao, pelo contrário, indicar descontração em tom de galhofa. Do vilão ou vilã, exige-se uma voz cortante, por vezes sibilante, indicando maldade na frase pronunciada entre os dentes ou na gargalhada soturna. Os caricatos capricham na voz esganiçada e de pronúncia deficiente, numa fala, por vezes, arrevesada em que predominam cacoetes e redundâncias. Há, ainda, os excêntricos, cuja voz, mais neutra, adapta-se aos sotaques estrangeiros ou aos tipos exóticos.

Tanto apuro técnico contrasta com algumas tentativas – sem dúvida bem-intencionadas – verificadas, vez por outra, nos últimos anos, em emissoras do Sul do país. A utilização de recursos radioteatrais aparece em pequenos documentários de cunho histórico, reconstruindo momentos considerados chave nesse ou naquele período. Os produtores, em sua maioria, oriundos dos departamentos de jornalismo, mesclam profissionais da própria emissora – seus colegas de redação ou de estúdio – com atores de teatro. Resultado: as vozes soam ora excessivamente juvenis para os papéis a elas confiados, ora gritadas em demasia como se diante do improvisado radioator ou radioatriz não estivesse um microfone, mas a plateia de uma grande sala a ser atingida em toda sua extensão pela projeção da fala. Em ambas as situações, aparece o mesmo artificialismo verificado nos primórdios da ficção radiofônica. É claro, fora a arte esquecida do tempo dos galãs, mocinhas, centros, caricatos etc., falta o punho forte do diretor a corrigir sutilezas de tons e exageros de impostação.
70 anos do Teatro Farroupilha
2007
Luiz Artur Ferraretto

Cartão distribuído aos fãs do Teatro Farroupilha (1942)
Além de Pery e Estelita, aparecem, entre outros, Ruy Figueira, locutor da versão gaúcha do Repórter Esso; Josué Guimarães, mais tarde, consagrado escritor; Walter Ferreira, futuro galã de radioteatro; e Renée Bell, mãe de Estelita.
Fonte: Acervo particular de Estelita Bell

O locutor Mario Pinto identifica a emissora:

– PRH-2 – Rádio Farroupilha, de Porto Alegre, 50 kW. Mensagens que vão mais longe!

Ao seu lado, Zênite Amaral começa uma espécie de jogral a marcar a abertura do programa, para, na sequência e após a trilha musical, Mario Pinto complementar, com sua voz forte e, a exemplo dela, também escandindo os erres na pronúncia bem típica do rádio de então:

– Num oferecimento exclusivo das Lojas Imcosul, a Rádio Farroupilha anuncia e apresenta…

– …o Grande Teatro Farroupilha…

– …sempre com um original de categoria para o desempenho de um elenco também de categoria!

É a noite de 29 de julho de 1962. Nos próximos 60 minutos, vão se alternar ao microfone da PRH-2 algumas das vozes mais significativas da dramaturgia radiofônica do Rio Grande do Sul. Ali, estão Pery Borges e Estelita Bell, os pioneiros desta atividade no estado, eles próprios criadores, quase 25 anos antes, do Teatro Farroupilha, mais tarde rebatizado com o adjetivo “grande” a anteceder a sua denominação original. Como fizeram até 1945, ano de sua transferência para a Rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro, os dois interpretam e Estelita dirige. Só o texto – ao contrário daquele período anterior de nove anos –, nesta apresentação especial, não é de Pery. O roteiro de Uma mulher singular vem da máquina de datilografia de Erico Cramer, que, em carreira paralela à de Pery e Estelita, escrevera e ensaiara a primeira radionovela do Rio Grande do Sul, O solar dos Alvarengas, assim mesmo com este “s” a mais e levada ao ar a partir de 28 de março de 1943, quando ele ainda assinava com o nome artístico de Roberto Lis. Em um dos papéis principais, aparece Ernani Behs, um dos maiores galãs do rádio gaúcho. Fora isto, há a sonoplastia e a sonotécnica de Victor Stoebe, complementada pelos efeitos de estúdio de Abel Gonçalves.

Para quem sintoniza a emissora nessa noite de domingo, fica a homenagem da Rádio Farroupilha a Luiz Pery Borges e Esther Daniotti, conhecidos como Pery e Estelita, “marcos da era radioteatral no Sul”, como registra o Diário de Notícias, dias antes, ao anunciar a presença dos dois – “a dupla de ouro” dos anos 1930 e 1940 – nas comemorações do 27º aniversário da PRH-2. Quarenta e cinco anos após a sua transmissão, esta edição do Grande Teatro Farroupilha constitui-se no único registro sonoro do programa que mobilizou audiências nas noites de domingo, de 1937 até o final dos anos 1960.

A gravação é uma prova do valor de Pery e Estelita e merece ser lembrada neste dia 5 de setembro de 2007, quando se completam sete décadas da estreia do Teatro Farroupilha, terceira atração deste tipo a entrar no ar no rádio brasileiro. Merece ser lembrada porque comprova o descaso infinito deste país para com a sua memória. Quando Esther Daniotti Borges, a Estelita, faleceu há alguns anos, foi a consciência de um brasileiro anônimo como tantos que fazem deste país uma pátria a ser reivindicada. Não um político. Não um doutor a excretar arrogância em confortáveis gabinetes acarpetados. Ao longo dos anos, Renato Rezende Cordeiro apreendeu a respeitar aquela senhora que se dividia entre papéis na televisão e no teatro. Uma cordial troca de palavras na entrada do edifício no centro do Rio de Janeiro. Ela passando, ele atrás do pequeno balcão de madeira da portaria. Renato salvou do lixo uma fita com a gravação lá de 1962. Salvou muitos outros materiais que iriam para o lixo ou seriam até incinerados. Aos 94 anos, Dona Estelita sofreu uma queda e fraturou o fêmur, vindo, tempos depois, a falecer. Pois foi o Renato que ajudou a socorrê-la junto com a empregada, Dona Maria, uma espécie de anjo da guarda da velha atriz. Numa carta, ele me diria:

– Uma atriz nota 10 como a Dona Estelita não poderia cair no esquecimento. Consegui resgatar a história desta mulher, que tive o prazer de conhecer e, quando ajudei no seu socorro, o privilégio de ter em meus braços a maior atriz do rádio do Rio Grande do Sul, porque não dizer do Brasil.

E nisto, para quem duvidar, o Renato concorda com Chico Anysio, grande admirador de Estelita Bell. Entrevistado pela Revista do Rádio, nos anos 1960, o humorista seria taxativo apontando-a como a melhor atriz do rádio brasileiro. Só para ter uma ideia, na mesma reportagem, Chico colocava, em posição idêntica, mas na TV, Fernanda Montenegro.

Neste dia 5 de setembro de 2007, há que se lembrar do Renato mesmo. A ele, o Rio Grande do Sul deve parte de sua memória: roteiros e mais roteiros, fotografias, gravações e outros documentos.
E assim Pery e Estelita seguem vivos.

Grande Teatro Farroupilha (29 de julho de 1962)
Fonte: Acervo particular de Estelita Bell.

 

Um Perfume do Passado exalado pelas ondas do rádio
2021
Elisa Kopplin Ferraretto

Roteiros dos 117 programas Perfume do Passado (final dos anos 1930)
Fonte: Acervo de Estelita Bell.

Pery Borges e Estelita Bell, criadores do radioteatro no Rio Grande do Sul, fizeram enorme sucesso ao microfone da Rádio Farroupilha, durante sete anos, com o Teatro Farroupilha. Mas a produção da Dupla de Ouro – como eram chamados carinhosamente pelos ouvintes – em quase uma década de atuação na emissora não se limitou a esse programa. Além das 365 peças de três atos encenadas na atração dos domingos à noite, foram responsáveis por 735 esquetes, centenas de crônicas e monólogos para audições de quartos de hora e também por outras atrações. Uma delas foi Perfume do Passado, transmitido todas as segundas, quartas e sextas-feiras.

Na noite de 2 de maio de 1938, Pery anuncia:

– Ouvintes da PRH-2, boa noite. Eu não sei se alguém já chamou a saudade de “o perfume do passado”. Há milhares de definições por aí e nenhuma bastante clara para significar o “delicioso pungir do acerbo espinho” do poeta. Estou que a própria palavra eloquente, que se gaba de intraduzível, é ainda bem inexpressiva diante da delicadeza e, às vezes, da amargura do sentimento a que serve de nome.

Entra Estelita interpretando a Canção da Saudade, que ficou famosa na voz de Vicente Celestino.

Saudade palavra doce

Que traduz tanto amargor

Saudade é como se fosse

Espinho cheirando a flor.

Saudade, ventura ausente,

Um bem que longe se vê,

Uma dor que o peito sente

Sem saber como e por que

Volta Pery:

– Perfume do passado! As ondas hertzianas vivem cheias desse perfume, pela execução inteligente de seus programas. Chamam-nos de vários nomes: Hora da Saudade, Recordar é Viver, Naquele Tempo... PRH-2 e seus ouvintes desde este instante o terão sob o romântico apelido de Perfume do Passado! Quero que a nossa saudade seja perfume, para que a sintamos suavíssima, sem lágrimas nos olhos, sem aperto no coração, sem pena nem remorsos, mas apenas com saudade.

Logo depois, anuncia a música Amor Perfeito, interpretado pela orquestra da PRH-2, regida pelo maestro Salvador Campanella:

– A nossa caixa de música vai abrir-se. Vamos sentir, subindo como um perfume, as notas musicais de uma página do passado.

E arremata após o final da execução:

– O maestro Campanella e seus colegas nos fizeram ouvir uma canção que talvez fizesse sonhar muita cabecinha linda, hoje embranquecida, nos serões e saraus daquele tempo. Mas vamos dar a palavra ao Ruy, um instante. Depois voltamos às nossas recordações.

Logo após os reclames comerciais lidos pelo locutor, começam as histórias.

– Voltemos à rua Venezianos, numa noite de maio há 25 anos, entre o alarido da garotada travessa e a cantoria ingênua das moças de então. Entre a roda travessa dos guris e a roda alinhada das meninas, um lampião de querosene. Luz mortiça, sonolenta, piscando como uma criança com sono. E, sob ele, mudo e quedo, o vulto de um rapaz... horas a fio... e lá, a mais de 20 metros, no quadro escuro de uma janela, uma cabecinha mal distinta. Eram os amorosos do tempo. Toda noite, aquela adoração muda... Para cobrar o silêncio resignado daquela afeição, altas horas, a mudez do bairro era despertada pela voz, nem sempre harmoniosa, do trovador enamorado. Ou então um grupo de amigos, boêmios de alma enluarada, dizia a Julieta o amor de seu Romeu, pela voz harmoniosa dos violinos.

E volta a orquestra, desta vez com Estrela Dalva.

Assim vai seguindo a noite de estreia de Perfume do Passado, que finaliza com um pedido de Pery aos ouvintes:

– A iniciativa deste programa está realizada. Fica aqui o seu primeiro passo. Telefonem, escrevam, dizendo se ele merece o vosso acolhimento, ou quais as suas falhas. Perfume do Passado quer acordar nos velhos uma saudade boa e mostrar aos moços as belezas e os encantos daquela época. Uns e outros podem colaborar conosco, enviando-nos músicas antigas, canções e anedotas de então, lembrando feitos e acontecimentos, apontando tipos que estejam quase esquecidos... Tudo que se viveu naquele tempo e que hoje chega até nós, suavemente, como um perfume do passado!

E os ouvintes telefonam, escrevem, mandam suas histórias, de todos os cantos do Rio Grande. Porque sim, Perfume do Passado mereceu o acolhimento do público e conquistou para Pery e Estelita uma nova legião de fãs. No total, foram ao ar 117 edições do programa. 


Caderno no qual Pery Borges fazia anotações e guardava recortes para o Perfume do Passado
Fonte: Acervo de Estelita Bell.
Um pouco de sorte e muitas intenções positivas
2013
Luiz Artur Ferraretto 

Em setembro de 2011, por coincidência o mês de aniversário do Teatro Farroupilha, tocou o interfone do meu prédio no Bonfim, tradicional bairro de Porto Alegre. Um cidadão queria saber se morava ali algum parente ou conhecido de certa Esther ou Estelita. Muito desconfiado nestes tempos de insegurança total, resolvi descer até a frente do prédio, onde um cidadão me esperava também com cara apreensiva. Meia hora depois, conversávamos já convencidos das boas intenções de ambos. O nome dele: Ricardo da Silva Fernandes. Pois não é que ele cruzara por acaso no Rio de Janeiro com o Renato, no prédio onde Estelita Bell morara. E não é que trouxera para o Rio Grande do Sul a parte restante do acervo da atriz. E não é que ele, portanto, tinha em seu poder, dezenas e dezenas de fotos e documentos. Deem uma olhada só em algumas pérolas e curiosidades desse tesouro:

Lamartine Babo, com a bandeira do seu clube do coração, o América, ao fundo (1946)
Fonte: Acervo particular de Estelita Bell.

Pedro Vargas, cantor e ator mexicano (anos 1940)
Fonte: Acervo particular de Estelita Bell.

Virginia Vargas, mais tarde esposa do humorista Carlos Nobre (anos 1930)
Fonte: Acervo particular de Estelita Bell.


Ione Pacheco, atração infantil do rádio porto-alegrense e, mais tarde,
esposa de Maurício Sirtosky Sobrinho (anos 1930)
Fonte: Acervo particular de Estelita Bell.

A respeito do Ricardo, vale o mesmo dito sobre o Renato. Soube ver valor no que muita gente – muitas vezes, as chamadas autoridades – descartam. Vai demorar ainda para eu ter uma ideia completa do acervo. E nem sei se terei tempo ou conseguirei fazê-lo. Sei que, dias depois de termos conversado, fui até a casa dele junto com o Luciano Klöckner, professor da PUC-RS, e recolhemos, maravilhados, o material. Valeu foto e tudo a registrar confluências de boas intenções.

Luiz Artur Ferraretto, Ricardo da Silva Fernandes e Luciano Klöckner (2011)
Fonte: Acervo pessoal.