Mostrando postagens com marcador Pioneiros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pioneiros. Mostrar todas as postagens
Pery e Estelita: o surgimento do radioteatro gaúcho
2005
Luiz Artur Ferraretto

É setembro de 1999 e, no apartamento acanhado em pleno centro do Rio de Janeiro, a dona Esther Daniotti, com seus 80 e muitos anos, como prefere definir a idade, ainda olha com o mesmo carinho das décadas de 1930 e 1940 a caixa de onde transbordam lembranças e dezenas de cartas de ouvintes da PRH-2 – Rádio Sociedade Farroupilha, de Porto Alegre. Não só de apreciadores. O que mais atesta o sucesso dela, que ninguém conhecia pelo nome de batismo, são as folhas amareladas, algumas manuscritas, outras datilografadas, escritas por enfurecidos donos de cinema de toda a Região Sul. Também pudera, a grita é geral. Aos domingos à noite, o Teatro Farroupilha, liderado por ela, a Estelita Bell, e por seu marido, o Pery Borges, bate com vantagem qualquer outro entretenimento. É a nossa segunda entrevista, já que, um pouco antes, havíamos conversado por telefone. O apartamento – pequeno, contrastando com a enorme popularidade dela e do marido décadas antes – não me sai da memória.

Pery e Estelita apresentam-se no quarto aniversário da Rádio Farroupilha (1939)
Fonte: Acervo particular de Estelita Bell.

Dona Esther se foi este ano, ganhou algumas notas nos jornais e até, por ser atriz do elenco da Rede Globo de Televisão, menção no Jornal Nacional. Se fosse há 70 anos, sua morte comoveria milhares de pessoas. A dupla Pery e Estelita era, então, a atração mais famosa do rádio do sul do país. Nas décadas seguintes, ainda brilharia ao microfone da Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro.

Natural de Jaguarão, a 380 km de Porto Alegre, Luiz Pery Borges entra para a Companhia Procópio Ferreira em 1932, como ponto, quando o grupo teatral do maior ator do país na época fazia temporada na capital gaúcha. Três anos depois, casa-se com a carioca Esther Daniotti, que, substituindo o sobrenome do pai pelo da mãe, a atriz Renée Bell, transformara-se em Estelita Bell. Naquele mesmo 1935, no dia 29 de novembro, radicando-se no Rio Grande do Sul, estreiam ao microfone da Rádio Difusora Porto-alegrense com sketches. O cenário radiofônico dos anos 1930 permite que, sem sair da PRF-9, de Arthur Pizzoli, os dois estreiem também na PRH-2, da família Flores da Cunha, logo em seguida. No dia 6 de janeiro de 1936, Pery e Estelita passam, então, a se apresentar na Difusora, às segundas, quartas e sextas, enquanto, na Farroupilha, aparecem às terças, quintas e sábados. Meses depois, graças ao sucesso obtido pela encenação de trechos da vida de Jesus Cristo, durante a Semana Santa, Luiz Guerra Flores da Cunha contrata a dupla com exclusividade.

Boa parte do sucesso da PRH-2 pode ser atribuído ao trabalho de Pery e Estelita, em especial pela criação do Teatro Farroupilha em 1937, o segundo programa do gênero lançado no país, como lembraria seis anos mais tarde o jornal Diário de Notícias:

Quando da fundação do atual conjunto de Pery e Estelita, só existia, no Brasil, um teatro do mesmo gênero, dirigido por Manoel Durães, em São Paulo. Em 1937, então, surgiu o Teatro Farroupilha e, logo após, o Teatro nos Ares, da Mayrink Veiga.
A iniciativa de apresentar uma peça inteira foi do diretor da PRH-2, Arnaldo Ballvé, que sugeriu a ideia à dupla dentro das comemorações programadas pela Farroupilha para a Semana da Pátria de 1937. A escolha recaiu sobre Deus lhe pague, de Joracy Camargo, também da Companhia Procópio Ferreira, encenada, pela primeira vez, cinco anos antes. A denominação do programa surgiu quase por acaso, como contaria Estelita Bell, naquela tarde de 1999, folheando suas recordações:

– Ninguém cogitou de dar um nome mais geral para a apresentação de Deus lhe pague. Na hora, o Antonacci Rabello, que era o locutor, é que batizou: “Está no ar, agora, o Teatro Farroupilha”. Na hora! São destas coisas da vida. Da vida e do rádio da época.

Conforme um anúncio comemorativo do Café Carioca, à época patrocinador do Teatro Farroupilha, no sexto aniversário do programa, em 1943, a dupla Pery e Estelita já contabiliza um saldo de 278 peças apresentadas, a maioria – 180 – comédias. Predominam ainda os textos nacionais – 173. No total, parcela significativa – 128 – é inédita no Rio Grande do Sul, sendo 47 obras nunca antes encenadas no país. Seis anos antes, em 1939, a PRH-2 registra nas noites de domingo, graças ao radioteatro, um público de 23 mil ouvintes em Porto Alegre, aproximadamente 10% da população da capital gaúcha na época.

De 1937 a1945, a rotina de produção do Teatro Farroupilha não se altera. Pery Borges encarrega-se das adaptações, por vezes selecionando obras de escritores consagrados – O Guarani, de José de Alencar, encenada em 6 de janeiro de 1940, é um exemplo – ou em evidência na época – caso do norte-americano John Steinbeck e do seu Noite sem lua, livro radiofonizado em 4 de abril de 1943.

Apresentação de O Guarani, adaptação de Pery Borges para a obra de José de Alencar
(setembro de 1938)
Fonte: Acervo particular de Estelita Bell.

Trecho do roteiro de O Guarani (6 de janeiro de 1940)
Fonte: Acervo particular de Estelita Bell.

Roteiro pronto, as cópias são datilografadas com o auxílio de papel carbono e distribuídas ao elenco. Cada ator ou atriz tem, então, alguns dias para estudar o seu papel. Em paralelo, Pery Borges, com o auxílio dos técnicos em sonoplastia, acerta as trilhas musicais e os efeitos sonoros necessários. Nos finais de semana, à tarde, ocorrem os ensaios, em geral dirigidos por Estelita Bell. O resultado do trabalho pode ser conferido nas noites de domingo.

Na PRH-2, Pery e Estelita trabalham durante nove anos e três meses. Seu sucesso radiofônico permite que passem algum tempo em turnê pelos teatros do Rio Grande do Sul. Na sequência, transferem-se para o Rio de Janeiro, onde integram o cast da Rádio Mayrink Veiga. Os dois voltam ao estado, em 1950, durante uma breve temporada na Gaúcha, por iniciativa de Cândido Norberto Santos. No entanto, para o público do estado, a atuação da dupla fica marcada pelo Teatro Farroupilha, apresentado nas noites de domingo.
É este mesmo Teatro Farroupilha que desfila frente aos olhos da dona Esther Daniotti na tarde de um dia perdido de 1998, atendendo à curiosidade do pesquisador e sendo, de novo, Estelita Bell, pseudônimo que, em um dia também perdido, o grande ator e diretor Procópio Ferreira definiu:

– Fica meio cantora de tango, mas serve!


Estelita Bell
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 14 de julho de 1999.
O casal que inspirou Chico Anysio
2012

Fonte: CHAVES, Ricardo; BÍSSIGO, Luís. Zero Hora, Porto Alegre, 27 mar. 2012. p. 56.
Almanaque Gaúcho.


Chico Anysio
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 22 de janeiro de 2009
Radioteatro: quando o som cria imagens
2006
Luiz Artur Ferraretto

Corre o ano de 1938. Com base em uma leitura atenta de O Guarani, de José de Alencar, o radialista Pery Borges prepara uma peça em três atos para o Teatro Farroupilha, transmitido nas noites de domingo e então uma das atrações mais ouvidas no Sul do Brasil. O diretor e ator da PRH-2 – Rádio Sociedade Farroupilha, de Porto Alegre, redobra cuidados nesta produção que vai comemorar, naquele mês de setembro, os dois anos de sucesso do programa pioneiro em radioteatro no Rio Grande do Sul e o segundo do tipo em todo o país. Além do roteiro com as marcações de trechos para cada um dos atores, inclui uma listagem das trilhas musicais a serem utilizadas, quadro a quadro, como nas apresentações a que Pery se habituara nos seus tempos da Companhia Teatral de Procópio Ferreira. A dramatização radiofônica já superara, então, sua fase inicial, quando trechos de peças em cartaz na cidade eram apresentadas, sem maiores tratamentos radiofônicos, ao microfone. Na relativa precariedade das peerres da época, no entanto, não se definiu, ainda, uma linguagem própria, que diferencie as montagens do apresentado nos teatros e casas de espetáculo. Nos anos seguintes, ao contrário, toda uma rotina de trabalho vai se desenvolver, incorporando técnicas próprias que fazem das encenações hertzianas uma arte à parte.

A partir da década de 1940, com a novela preponderando sobre as peças únicas, a ficção radiofônica transforma-se em espetáculo que concentra grande quantidade de ouvintes. Em torno desta poderosa atração, surge toda uma infraestrutura específica. Na virada para os anos 1950, as encenações utilizam, de modo mais sistemático, todos os elementos básicos da linguagem radiofônica: a voz, a música, o efeito sonoro e o silêncio. Segundo Rubens Vidal, autor da reportagem A volta do folhetim, publicada em 1948 pela Revista do Globo, a utilização do som inclui, então, três áreas – sonoplastia, contrarregra e sonotécnica – distintas e complementares:
A primeira é a montagem sonora do programa: efeitos musicais que fazem fundo de cena ou que separam as cenas. Auxiliam, com a música, as palavras do intérprete. (…) Assim como os sábios pesquisam nos laboratórios, existem indivíduos que vivem nas discotecas procurando novos efeitos, tentando novas descobertas, novas ilustrações. O contrarregra encarrega-se de completar aquilo que as palavras não podem especificar. É o senhor dos mil ruídos. Barulho de passos, bater de portas, ruído de talheres, arrastar de cadeiras etc. A sonotécnica diz respeito à execução da parte musical dos programas pela mesa de controle e pelo operador.
Em um mercado que cada vez mais exige uma rapidez de linha de montagem na produção cultural, o aprimoramento dos técnicos diminui a carga de trabalho dos autores. A produção como um todo, graças a estes profissionais de trilhas e efeitos, tem de ser pensada considerando que diferentes tipos de sons provocam também reações diversas sobre a sensorialidade do público. A música e os efeitos exploram a sugestão, criando imagens na mente do ouvinte. São auxiliados pelo tom e pela flexão da voz do locutor ou apresentador. Assim, além de pontuarem a narrativa, os efeitos permitem ao público “ver” o que está sendo descrito e a música possibilita ao ouvinte “sentir” o que se transmite.

Nos dez anos que separam a montagem de O Guarani e a reportagem da Revista do Globo, não só a radiofonização em si, como consequência desta nova mentalidade, evolui, mas a interpretação vai se adaptando ao rádio. A constatação é também de Rubens Vidal:
Assim como o cinema é imagem, o radioteatro é voz e som. Ele começou a ser feito, primitivamente, por pessoas do teatro, e daí um terrível defeito: o artificialismo das interpretações. Os atores falavam alto, quase gritando, gesticulavam, gargalhavam com voz de tenor, numa luta titânica para serem ouvidos tanto pelos espectadores da primeira como da última fila. Ignoravam que o microfone tem uma vantagem: coloca todos os espectadores na primeira fila. Nas cenas de alcova – exemplificando – os segredos, os cochichos, são ouvidos no mesmo tom real. Com esta naturalidade, a novela deu um salto. 
Um bom ator de rádio não é apenas aquele que está de posse de uma bela voz ou que apresenta uma bela dicção e facilidade de locomover-se diante do microfone. Esses são requisitos para speaker, não para ator. Julgava-se que uma voz melíflua e agradável era o quanto bastava. Mas é apenas isto: interessa o que possui voz adequada para este ou aquele papel.
Se os efeitos sonoros retratam o ambiente, à voz cabe, com diferentes entonações, transmitir, além do conteúdo da narrativa, a emoção, associando-se assim às trilhas musicais utilizadas. Na época, muitos atores e atrizes submetem-se, por este motivo, a aulas de canto lírico, buscando aprimoramento e, assim, adequando-se às exigências do teatro radiofônico. Prática comum, portanto, é aprender a solfejar, ou seja, a entoar um trecho de uma música, pronunciando o nome das notas e procurando dar a cada uma delas o seu valor e acentuação corretos conforme o compasso e o ritmo exigidos. Os atores desenvolvem, deste modo, a capacidade de interpretação.

A voz indica, ainda, o papel que pode ser dado ao ator ou atriz, definindo tipos específicos para homens e mulheres. A do galã deve ser aveludada e romântica, situada entre o grave e o agudo. Sua contraparte feminina, a mocinha, poderá soar doce, suave e ingênua, ao interpretar a sofredora, vítima de vilões, inocente ante as maldades do mundo, ou insinuante, a sugerir possibilidades amorosas, em personagens agraciados pela sorte ou perseguidos por desventuras. A voz madura caracteriza o centro: dramático, quando transmite confiança e seriedade, e cômico, ao, pelo contrário, indicar descontração em tom de galhofa. Do vilão ou vilã, exige-se uma voz cortante, por vezes sibilante, indicando maldade na frase pronunciada entre os dentes ou na gargalhada soturna. Os caricatos capricham na voz esganiçada e de pronúncia deficiente, numa fala, por vezes, arrevesada em que predominam cacoetes e redundâncias. Há, ainda, os excêntricos, cuja voz, mais neutra, adapta-se aos sotaques estrangeiros ou aos tipos exóticos.

Tanto apuro técnico contrasta com algumas tentativas – sem dúvida bem-intencionadas – verificadas, vez por outra, nos últimos anos, em emissoras do Sul do país. A utilização de recursos radioteatrais aparece em pequenos documentários de cunho histórico, reconstruindo momentos considerados chave nesse ou naquele período. Os produtores, em sua maioria, oriundos dos departamentos de jornalismo, mesclam profissionais da própria emissora – seus colegas de redação ou de estúdio – com atores de teatro. Resultado: as vozes soam ora excessivamente juvenis para os papéis a elas confiados, ora gritadas em demasia como se diante do improvisado radioator ou radioatriz não estivesse um microfone, mas a plateia de uma grande sala a ser atingida em toda sua extensão pela projeção da fala. Em ambas as situações, aparece o mesmo artificialismo verificado nos primórdios da ficção radiofônica. É claro, fora a arte esquecida do tempo dos galãs, mocinhas, centros, caricatos etc., falta o punho forte do diretor a corrigir sutilezas de tons e exageros de impostação.
70 anos do Teatro Farroupilha
2007
Luiz Artur Ferraretto

Cartão distribuído aos fãs do Teatro Farroupilha (1942)
Além de Pery e Estelita, aparecem, entre outros, Ruy Figueira, locutor da versão gaúcha do Repórter Esso; Josué Guimarães, mais tarde, consagrado escritor; Walter Ferreira, futuro galã de radioteatro; e Renée Bell, mãe de Estelita.
Fonte: Acervo particular de Estelita Bell

O locutor Mario Pinto identifica a emissora:

– PRH-2 – Rádio Farroupilha, de Porto Alegre, 50 kW. Mensagens que vão mais longe!

Ao seu lado, Zênite Amaral começa uma espécie de jogral a marcar a abertura do programa, para, na sequência e após a trilha musical, Mario Pinto complementar, com sua voz forte e, a exemplo dela, também escandindo os erres na pronúncia bem típica do rádio de então:

– Num oferecimento exclusivo das Lojas Imcosul, a Rádio Farroupilha anuncia e apresenta…

– …o Grande Teatro Farroupilha…

– …sempre com um original de categoria para o desempenho de um elenco também de categoria!

É a noite de 29 de julho de 1962. Nos próximos 60 minutos, vão se alternar ao microfone da PRH-2 algumas das vozes mais significativas da dramaturgia radiofônica do Rio Grande do Sul. Ali, estão Pery Borges e Estelita Bell, os pioneiros desta atividade no estado, eles próprios criadores, quase 25 anos antes, do Teatro Farroupilha, mais tarde rebatizado com o adjetivo “grande” a anteceder a sua denominação original. Como fizeram até 1945, ano de sua transferência para a Rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro, os dois interpretam e Estelita dirige. Só o texto – ao contrário daquele período anterior de nove anos –, nesta apresentação especial, não é de Pery. O roteiro de Uma mulher singular vem da máquina de datilografia de Erico Cramer, que, em carreira paralela à de Pery e Estelita, escrevera e ensaiara a primeira radionovela do Rio Grande do Sul, O solar dos Alvarengas, assim mesmo com este “s” a mais e levada ao ar a partir de 28 de março de 1943, quando ele ainda assinava com o nome artístico de Roberto Lis. Em um dos papéis principais, aparece Ernani Behs, um dos maiores galãs do rádio gaúcho. Fora isto, há a sonoplastia e a sonotécnica de Victor Stoebe, complementada pelos efeitos de estúdio de Abel Gonçalves.

Para quem sintoniza a emissora nessa noite de domingo, fica a homenagem da Rádio Farroupilha a Luiz Pery Borges e Esther Daniotti, conhecidos como Pery e Estelita, “marcos da era radioteatral no Sul”, como registra o Diário de Notícias, dias antes, ao anunciar a presença dos dois – “a dupla de ouro” dos anos 1930 e 1940 – nas comemorações do 27º aniversário da PRH-2. Quarenta e cinco anos após a sua transmissão, esta edição do Grande Teatro Farroupilha constitui-se no único registro sonoro do programa que mobilizou audiências nas noites de domingo, de 1937 até o final dos anos 1960.

A gravação é uma prova do valor de Pery e Estelita e merece ser lembrada neste dia 5 de setembro de 2007, quando se completam sete décadas da estreia do Teatro Farroupilha, terceira atração deste tipo a entrar no ar no rádio brasileiro. Merece ser lembrada porque comprova o descaso infinito deste país para com a sua memória. Quando Esther Daniotti Borges, a Estelita, faleceu há alguns anos, foi a consciência de um brasileiro anônimo como tantos que fazem deste país uma pátria a ser reivindicada. Não um político. Não um doutor a excretar arrogância em confortáveis gabinetes acarpetados. Ao longo dos anos, Renato Rezende Cordeiro apreendeu a respeitar aquela senhora que se dividia entre papéis na televisão e no teatro. Uma cordial troca de palavras na entrada do edifício no centro do Rio de Janeiro. Ela passando, ele atrás do pequeno balcão de madeira da portaria. Renato salvou do lixo uma fita com a gravação lá de 1962. Salvou muitos outros materiais que iriam para o lixo ou seriam até incinerados. Aos 94 anos, Dona Estelita sofreu uma queda e fraturou o fêmur, vindo, tempos depois, a falecer. Pois foi o Renato que ajudou a socorrê-la junto com a empregada, Dona Maria, uma espécie de anjo da guarda da velha atriz. Numa carta, ele me diria:

– Uma atriz nota 10 como a Dona Estelita não poderia cair no esquecimento. Consegui resgatar a história desta mulher, que tive o prazer de conhecer e, quando ajudei no seu socorro, o privilégio de ter em meus braços a maior atriz do rádio do Rio Grande do Sul, porque não dizer do Brasil.

E nisto, para quem duvidar, o Renato concorda com Chico Anysio, grande admirador de Estelita Bell. Entrevistado pela Revista do Rádio, nos anos 1960, o humorista seria taxativo apontando-a como a melhor atriz do rádio brasileiro. Só para ter uma ideia, na mesma reportagem, Chico colocava, em posição idêntica, mas na TV, Fernanda Montenegro.

Neste dia 5 de setembro de 2007, há que se lembrar do Renato mesmo. A ele, o Rio Grande do Sul deve parte de sua memória: roteiros e mais roteiros, fotografias, gravações e outros documentos.
E assim Pery e Estelita seguem vivos.

Grande Teatro Farroupilha (29 de julho de 1962)
Fonte: Acervo particular de Estelita Bell.
Um pouco de sorte e muitas intenções positivas
2013
Luiz Artur Ferraretto 

Em setembro de 2011, por coincidência o mês de aniversário do Teatro Farroupilha, tocou o interfone do meu prédio no Bonfim, tradicional bairro de Porto Alegre. Um cidadão queria saber se morava ali algum parente ou conhecido de certa Esther ou Estelita. Muito desconfiado nestes tempos de insegurança total, resolvi descer até a frente do prédio, onde um cidadão me esperava também com cara apreensiva. Meia hora depois, conversávamos já convencidos das boas intenções de ambos. O nome dele: Ricardo da Silva Fernandes. Pois não é que ele cruzara por acaso no Rio de Janeiro com o Renato, no prédio onde Estelita Bell morara. E não é que trouxera para o Rio Grande do Sul a parte restante do acervo da atriz. E não é que ele, portanto, tinha em seu poder, dezenas e dezenas de fotos e documentos. Deem uma olhada só em algumas pérolas e curiosidades desse tesouro:

Lamartine Babo, com a bandeira do seu clube do coração, o América, ao fundo (1946)
Fonte: Acervo particular de Estelita Bell.

Pedro Vargas, cantor e ator mexicano (anos 1940)
Fonte: Acervo particular de Estelita Bell.

Virginia Vargas, mais tarde esposa do humorista Carlos Nobre (anos 1930)
Fonte: Acervo particular de Estelita Bell.


Ione Pacheco, atração infantil do rádio porto-alegrense e, mais tarde,
esposa de Maurício Sirtosky Sobrinho (anos 1930)
Fonte: Acervo particular de Estelita Bell.

A respeito do Ricardo, vale o mesmo dito sobre o Renato. Soube ver valor no que muita gente – muitas vezes, as chamadas autoridades – descartam. Vai demorar ainda para eu ter uma ideia completa do acervo. E nem sei se terei tempo ou conseguirei fazê-lo. Sei que, dias depois de termos conversado, fui até a casa dele junto com o Luciano Klöckner, professor da PUC-RS, e recolhemos, maravilhados, o material. Valeu foto e tudo a registrar confluências de boas intenções.

Luiz Artur Ferraretto, Ricardo da Silva Fernandes e Luciano Klöckner (2011)
Fonte: Acervo pessoal.
Roberto Lis e os Serões da Dona Generosa
2007
 Luiz Artur Ferraretto

A desaprovação familiar rebatizou Erico de Carvalho Cramer, mas não mudou a sua firme decisão de enveredar pelo caminho da vida artística, muito malvista pela sociedade dos anos 1930. Com alguma experiência como amador em Rio Grande, município onde nasceu, o futuro escritor, ator e diretor, então segundo secretário do Tribunal de Contas do Estado em Porto Alegre, recebeu com alegria a notícia de que havia sido aceito para integrar a Companhia Teatral Dulcina-Odilon, uma das principais do país.

Roberto Lis (1942)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre: Livraria do Globo, ano 14, n. 325, p. 18, 22 ago. 1942.

A reação dos Carvalho Cramer veio de hidroavião, meio mais rápido na época para cobrir os 330 km que separam Porto Alegre da cidade da Zona Sul do estado. A bordo, o pai Gustavo Torres Cramer trazia duas cartas.

– Minha mãe me mandava pedir para que não lhe desse o primeiro desgosto e minha avó, para que eu esperasse o seu desaparecimento antes de misturar o nome ilustre da sua família ao da família do teatro – relembraria Erico Cramer nos anos 1970, em depoimento ao Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.

A preocupação com a reputação familiar faz nascer Roberto Lis, nome com o qual Erico assina seus trabalhos até se transferir para a televisão – no caso, a TV Piratini, canal 5, de Porto Alegre – no final dos anos 1950. A estreia ao microfone, ainda como Erico Cramer, ocorre em outubro de 1935, na Rádio Sociedade Gaúcha. Dois anos depois, recebe um convite do diretor artístico da Difusora, Nelson Lanza, para organizar o radioteatro da emissora. Assim, já com o pseudônimo Roberto Lis, começa a trabalhar em 22 de outubro de 1937, dividindo sketches com Carmen de Alencar. Cinco dias depois, nas comemorações do aniversário da PRF-9, estreavam as cômicas situações vividas por um grupo de moradores do bairro Cidade Baixa, no qual despontava a “agressiva e fiasquenta Dona Generosa”, como o próprio Cramer definia sua criação mais conhecida.


Erico Cramer (1976)
8 de julho de 1976
Fonte: Acervo do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa

Entre os scripts do acervo particular de Cramer doados ao Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, existe um, sem data, que pode ser do primeiro ou de um dos primeiros programas. Na abertura do texto, encimada pela denominação Um Serão na Dona Generosa seguida da expressão “um programa de Roberto Lis”, há uma extensa descrição do ambiente em que os personagens interagem, como se lá estivesse a título de introdução:

AMBIENTE: A sala de visitas da casa de Dona Generosa numa acanhada rua da Cidade Baixa. Sofá e cadeiras antigas, forradas de veludo e cobertas com capas de brim branco engomado. Um antigo piano Gaveau cor de castanha escura ocupa a parede principal da sala, ostentando os seus castiçais de ferro, escuros e desconjuntados. Das paredes de cor indefinida, onde de longe em longe uma mancha azulada nos deixa perceber que foi o azul a cor de sua última caiação, pendem os retratos gigantescos dos pais de Dona Generosa feitos a crayon e circundados de espalhafatosas molduras. Nas duas janelas da frente, cortinas de crochet feitas com fio de pavio, e nas portas que dão acesso para o corredor e o quarto de Dona Generosa, reposteiros de pedacinhos de taquara da Índia, tintos de verde e amarelo. Cobrindo o soalho, um velho tapete de veludo vermelho onde mal se adivinha, sobre os cantos, o seu primitivo desenho. Lustre de antigas mangas de vidro incolor, com ligeiros vestígios de pingentes. Colunas com guardanapos bordados e sobre elas solitários de vidro verde com lírios e rosas de papel crepom. Sobre o chão e as cadeiras, surradíssimas almofadas de crochet e cetineta pintada a óleo.
No mesmo roteiro, aparece uma situação que se tornaria quase um bordão do programa: os insistentes pedidos pelo cafezinho que Dona Generosa – muito mão de vaca, como se dizia na época – evitava sempre servir aos convidados.

Tudinha
Mamãe, o café está servido. Tratem de passar duma vez pra sala de jantar antes que ele esfrie ou caia alguma mosca (uma pausa grande de absoluto silêncio)
Generosa
Vamos passar para a sala de jantar? O café está servido.
Licurgo
(após uma pausa) Podemos passar mesmo, Dona Generosa?
Generosa
Claro que sim. Vamos, passem. O que é que estão esperando?
Licurgo
Mas o café está mesmo servido, Dona Generosa? Não será rebate falso?
Generosa
(rindo) Ora, Seu Licurgo, que ideia!… Esse seu Licurgo, sempre brincalhão. Sempre blaguer. (risos) Vamos, passem. (todos se afastam conversando)
Licurgo
Minha Nossa Senhora dos Recém-nascidos!… O que estará para acontecer!… Parece que desta vez o café vai sair mesmo!…
(Cortina Musical)
Como Erico Cramer gostava de relembrar, a sovinice da Dona Generosa convencia tanto que os ouvintes tentavam, à sua maneira, aliviar a situação de penúria dos amigos e vizinhos participantes dos serões radiofônicos transmitidos nas quartas-feiras à noite:

– Eu me lembro que nós recebíamos muitos presentes. Saíamos carregados nas quartas-feiras. Era café, porque faltava café na casa da Dona Generosa. Então o pessoal mandava café, bolos… Afinal, nos aniversários dela, para economizar, os bolos eram alugados.

Serões da Dona Generosa passou pelas três emissoras de Porto Alegre existentes na época – Difusora, Gaúcha e Farroupilha. No início, ia ao ar às 20h30, depois às 21h30, sempre às quartas. Com o tempo e graças ao sucesso obtido, de 30 minutos passou a uma hora de duração. No programa, o autor pretendia refletir “o próprio espírito da cidade”, mas conseguiu bem mais do que isto. Embora o enredo se esgotasse em cada episódio, havia uma continuidade na semana seguinte, constituindo-se na primeira narrativa seriada do rádio do Rio Grande do Sul. Roberto Lis lançava, assim, as bases da novela, gênero em que seria, anos mais tarde, também o pioneiro no estado.

Carmen de Alencar, a Dona Generosa (1942)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre: Livraria do Globo, ano 14, n. 325, p. 18, 22 ago. 1942.

Ao longo dos 11 anos em que Serões da Dona Generosa permanece no ar, o rumo da narrativa altera-se, muitas vezes, como consequência do afastamento de atores e atrizes do elenco. No entanto, o principal papel é sempre interpretado por Carmen de Alencar, pseudônimo de Odete Carmen Becker, que pegou o sobrenome artístico emprestado de Iracema de Alencar, sua tia, atriz conhecida então nacionalmente. De sua interpretação dependia tanto o sucesso do programa que, quando ela decide se casar, em 1948, deixando o rádio, Roberto Lis põe um fim à trajetória da Dona Generosa e de seus vizinhos e amigos.





Reconstituição de Serões da Dona Generosa (1977)
Fonte: RÁDIO DIFUSORA PORTO-ALEGRENSE. Opinião Pública. Porto Alegre, 26 set. 1977. Programa de rádio.
Duque de Antena, o nobre defensor do rádio
2013
 Luiz Artur Ferraretto


Bolivar Carneiro da Fontoura, o Duque de Antena
Fonte: Acervo particular da família Fontoura.

Na década de 1930, o diretor da Academia Remington de Estenografia e Datilografia, Bolivar Carneiro da Fontoura, transforma-se no Duque de Antena. Anos antes, em um arroubo juvenil, este radialista de nobreza auto-outorgada já havia sido o primeiro a falar ao microfone da Rádio Gaúcha.


Bolivar Carneiro da Fontoura, o Duque de Antena (1972)
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. 2001. Porto Alegre, 23 out. 1972. Programa de rádio.

Entusiasta dedicado e responsável por várias publicações de curta duração especializadas em rádio, Fontoura lança, na mesma emissora, em setembro de 1936, o Programa da Boa Vontade, em que apresenta charadas, anedotas e crônicas. Inclui, ainda, como relata a Folha da Tarde, um “concurso de composições humorísticas”, patrocinado pela própria Academia Remington. Um ano depois, o sucesso já vai permitir que a duração inicial de 30 minutos tivesse sido dobrada, alterando-se, como consequência, a denominação para Hora da Boa Vontade. As transmissões ocorrem, então, das 21 às 22h, nas quintas-feiras.


Bolivar Carneiro da Fontoura, o Duque de Antena (1972)
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. 2001. Porto Alegre, 23 out. 1972. Programa de rádio.

Mais do que um homem de rádio, Bolívar Fontoura era um entusiasta. Em 1928, como sócio da Rádio Sociedade Gaúcha, tenta criar, junto com Laudares Carvalho, uma publicação com pretensões científicas, especializada em radiotelefonia e radiotelegrafia, para ser o órgão oficial da entidade. Pelos poucos indícios existentes, o projeto da revista Rádio Gaúcha dá lugar ao da Rádio para Todos, sem vínculo direto com a emissora. Além disto, Basílio Fontes Filho substitui Carvalho na direção compartilhada com Fontoura. Pelas informações que sobraram desta empreitada, dois números chegam a circular: um em 18 de agosto e o outro no dia 20 de setembro daquele ano. Inovador pela introdução de suplementos dedicados ao esporte, à moda e à sociedade, o Jornal da Manhã lança, no dia 8 de julho de 1934, uma página dominical especializada em radiodifusão. Nela, o Duque de Antena começa a assinar a seção Broadcasting Jornal da Manhã, que dura poucos meses. Em setembro de 1937, Bolivar Fontoura volta à carga, desta vez, com o PR…Jornal, uma publicação de curta duração.

De fato, nem estas nem outras tentativas de publicar jornais ou revistas especializados em rádio vingaria. Desta vertente da imprensa gaúcha daquela época, sobraram pouquíssimos exemplares. Do material restante, pelo menos, fica a certeza da nobreza das intenções do Duque de Antena.
70 anos da Hora do Bicho, o primeiro programa de calouros do Rio Grande do Sul
2007
 Luiz Artur Ferraretto

A grafia adotada na época e em uso até hoje para o seu nome nem sequer fazia jus à correta pronúncia do apelido artístico adotado por Antonio Amabile, o Pi-ra-TI-ni, dito assim mesmo como paroxítona e não oxítona. Pois quando a Rádio Difusora Porto-alegrense inaugurou o primeiro auditório da capital gaúcha, em 25 de setembro de 1937, lá estava o Piratini, escrito errado, mas quem ligava. Ele já era conhecido dos ouvintes como músico e humorista, tendo começado se apresentando na Rádio Sociedade Gaúcha. É, no entanto, na Difusora que ele vai chamar a atenção com o programa de calouros Hora do Bicho, lotando as novas instalações da PRF-9.

Na década de 1930, os cabarets e cassinos já apresentavam números musicais ou de dança, além de sketches. Contando anedotas e brincando com o público, o cabaretier, espécie de mestre de cerimônia destas casas noturnas, fazia a passagem entre uma e outra atração, o que pode ter servido de inspiração para profissionais como Piratini.

Programa Hora do Bicho (1937)
Em primeiro plano, aparece o conjunto regional de Piratini e, em segundo, os candidatos. O animador está atrás do garoto que segura a maceta do bombo.
Fonte: Folha da tarde, Porto Alegre, 4 out. 1937. p. 14.

Assim, no domingo, dia 3 de outubro de 1937, das 11 às 12h, vai ao ar pela primeira vez o “programa de principiantes”, na definição do jornal Correio do Povo, a Hora do Bicho, com 16 pessoas submetendo-se ao concurso em que “Piratini, o humorista da cidade, lá estava no bombo, como um verdadeiro fantasma para os candidatos à constelação radiofônica”. Explica-se: quando o calouro não correspondia ao esperado, o apresentador utilizava o enorme instrumento musical para indicar a desclassificação.

Nas semanas seguintes à estreia, conforme indicam os jornais, o auditório da Difusora fica lotado. “Aos domingos, não havia rádio, em casa de pobre ou de rico, que não sintonizasse o programa máximo de Porto Alegre”, lembraria, saudoso, Ney Fonseca, em abril de 1961, na Revista do Globo. A afluência de público obrigou, inclusive, à transferência do programa, em 1944, para o Cinema Rex. A Hora do Bicho já ocupava então maior parte da manhã de domingo, das 10 às 12h. Nesta época, os melhores candidatos recebiam uma coroa e tinham direito a uma espécie de trono no auditório até que fossem superados por outros pretendentes ou obtivessem o prêmio final. A Hora do Bicho, com Piratini à frente, consolida-se, deste modo, como a primeira grande atração dos auditórios das rádios de Porto Alegre.

Piratini e os candidatos coroados da Hora do Bicho (1944)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre: Livraria do Globo, ano 16, n. 316, p. 24, 22 abr. 1944.
Alto da Bronze: imaginário sonoro de uma praça querida
2013
Marcello Campos
Jornalista e pesquisador

Não bastasse a mitologia em torno de seu nome, inspirado no apelido de uma suposta prostituta (e em seus predicados anatômicos), o recanto conhecido como Alto da Bronze – primeira praça estilo parquinho em Porto Alegre – foi eternizado em uma composição musical de quase oito décadas atrás. Trata-se de uma página meio desbotada na memória coletiva da cidade, mas que volta e meia ressurge no repertório boêmio da cidade.

Lançado pelos cantores Alcides Gonçalves e Horacina Correa em diferentes horários da programação de 19 de novembro de 1937, na Rádio Farroupilha, o samba estilizado Alto da Bronze foi o mais conhecido fruto da parceria entre duas figuras simbólicas da capital gaúcha daqueles tempos. Assinando a letra, o polivalente Plauto de Azambuja Soares, acadêmico de Direito, cronista de rádio e jornal, repórter da Folha da Tarde e dublê de compositor. Na melodia e arranjo, o pianista Paulo Coelho, o Gordo, um dos mais talentosos artistas de sua época e que seria lembrado também pela vocação endiabrada para pegadinhas, cujo alvo preferencial eram os colegas de profissão. Ele próprio, aliás, crescera naquele pedaço de maroteza encravado entre as ruas Duque de Caxias e Fernando Machado, quase na ponta do Gasômetro.

O sucesso local da novidade motivaria sua inclusão no repertório do instrumentista, cuja jazz band se preparava para um longa temporada pelos cafés e emissoras de Buenos Aires no semestre seguinte. Levado na bagagem, o número interpretado por Horacina Correa e o combo de onze músicos liderados por Paulo Coelho não apenas agradou aos hermanos, como acabou lascado na cera pela RCA-Victor argentina. O Rio Grande do Sul já não contava com nenhuma gravadora desde o fechamento da Casa A Elétrica. Então, não é difícil imaginar a festa com que aquele disco de 78 rotações foi recebido no retorno da trupe.

Plauto de Azambuja Soares não viveria a tempo de saborear a repercussão de Alto da Bronze. Na ensolarada tarde de 5 de abril de 1938, em meio à cobertura dos testes para um circuito automobilístico nas ruas do bairro Tristeza, o repórter participante decidiu entrar em uma das baratas concorrentes. O veículo acabou capotando em alta velocidade e a morte foi instantânea. Ele tinha apenas 23 anos. Seu colega Sadi Rafael Saadi (hoje nome de rua no Menino Deus) ficou gravemente ferido, mas sobreviveu para prosseguir sua trajetória no jornalismo policial.

Paulo Coelho, por sua vez, atuava em estações de rádio, boates, cafés e confeitarias. Atividade incansável que incluiu a sociedade em um bar nas imediações da Ladeira com a Rua da Praia. O “rival de si mesmo” (título informal que recebeu da imprensa, convicta da falta de concorrentes à altura) já era um dos nomes mais bem pagos do rádio porto-alegrense quando não resistiu às complicações de saúde agravadas pela tuberculose, na tarde de 21 de setembro de 1941. Sua certidão de óbito indicava inacreditáveis 31 anos de juventude.

Horacina Correa (1937)
No estúdio da Rádio Farroupilha, a cantora posa junto ao microfone, esta caixa de grandes proporções.
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre: Livraria do Globo, ano 9, n. 215, p. 15, 9 out. 1937.

Já a bela Horacina Correa, que em outubro de 1936 se casara com o ritmista Oscarino Correa em uma cerimônia transmitida ao vivo dos estúdios da Rádio Farroupilha, seguiria no final da década de 1940 para São Paulo e Rio de Janeiro, chegando a gravar discos e a atuar no cinema. Tempos depois, migrou para a Europa, sendo hoje desconhecido o seu destino. O jornalista Flávio Alcaraz Gomes afirmava tê-la visto como “artista cubana” em uma boate de Roma, nos anos 1950. Outros relatos sugerem que Horacina se radicou no Egito, como dona de um hotel no Cairo. Não falta nem mesmo uma versão de que a intérprete de Alto da Bronze teria morrido em um atentado terrorista.

Anos mais tarde, as gaúchas Elis Regina, Zilah Machado e Lourdes Rodrigues registrariam como samba-canção, cada qual à sua maneira, essa página saudosista, aqui reproduzida em seus versos:

Alto da Bronze,
Cabeça quebrada
Praça querida,
Sempre lembrada
A Praça Onze da garotada
Praça sem banco
Do rato branco
E do futebol
Da garotada
Endiabrada
Nas manhãs de sol
És a eterna lembrança
Do tempo feliz
Em que eu era criança
Do tempo em que a vida era
Da minha infância
A doce quimera
Hoje,eu pobre profano
Me lembro de ti
E dos meus desenganos
Oh meu Alto da Bronze
Dos meus oito anos…


Alto da bronze, de Paulo Coelho e Plauto Azambuja

Com Horacina Correa e a Jazz Band de Paulo Coelho (1938)
Do disco de 78 RPM gravado pela RCA Victor argentina.


Com Lourdes Rodrigues e Geraldo Flach (2001)
Da coletânea Um século de música no Rio Grande do Sul, organizada por Arthur de Faria e lançada em CD patrocinado pela Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE).


Com Zilah Machado (2001)
Da coletânea Porto Alegre é demais, produzida pela Prefeitura de Porto Alegre e lançada em CD patrocinado pela Companhia Zaffari.

Fonte: Acervo particular de Marcello Campos.

A versão de Alto da Bronze com Elis Regina pode ser escutada aqui.
A ESPM, de São Paulo, e a Rádio Sociedade do Rio Grande têm alguém em comum
2013
Willy Cesar
Fundador e ex-diretor (2001-2005) do Museu da Comunicação Rodolfo Martensen, de Rio Grande

O ano é 1931, mês de setembro. De repente, uma emissora de rádio entra no ar, na cidade de Rio Grande, na Zona Sul do estado. Um jovem de 16 anos, com voz grave de trombone, diz assim:

– Esta é a EAX-4, rádio surpresa, transmitindo da rua Andradas, em Rio Grande. Nesta noite, teremos a apresentação do Choro Liberal, poesias e propagandas da Casa Martensen.

Estava inaugurada a primeira emissora (pirata) de rádio da cidade mais antiga do Rio Grande do Sul. O vozeirão pertence a Rodolfo Lima Martensen. Com a ajuda de Antonio Joaquim Barreto, também de 16 anos, a emissora em sua retaguarda técnica incluía rudimentar equipamento de transmissão instalado no quarto de dormir de Rodolfo. No dia seguinte, o jornal Echo do Sul, um dos diários da cidade, dá pequena nota anunciando que, na noite daquele mesmo dia, haveria outra transmissão pela “emissora de rádio”, sem dar seu nome ou prefixo (que era apenas fictício, não era oficial).
Dias depois destas transmissões clandestinas, o agente da Estação Junção Rádio, vinculada aos Correios e Telégrafos, bate à porta dos Martensen. O pai de Rodolfo atende e diz ao homem:

– O senhor pode ficar sossegado que de hoje em diante não vai sair mais nenhuma transmissão de rádio daqui!

– Não, seu Martensen! Nós estamos precisando de uma emissora e o pessoal leva jeito para a coisa. Nós queremos apoiá-los!

Assim surgiu a emissora de rádio de Rodolfo, que viria a ser um dos publicitários mais importantes do Brasil, no século 20.

A rádio pirata transformou-se na Rádio Sociedade do Rio Grande que passou a transmitir oficialmente em 1932, com autorização do Ministério da Viação, onde estavam as comunicações durante o governo Vargas. Rodolfo não pode continuar residindo em Rio Grande porque caiu doente com tuberculose. Transferido para São José dos Campos, curou-se num sanatório. Dois anos depois, fixa residência em São Paulo. E foi fazer a vida, primeiro como vendedor de livros e, depois, como radialista na Rádio São Paulo.
Poucos anos depois, entra na Lintas, do grupo Unilever, para dirigir o departamento de rádio da agência de publicidade. Dali sua carreira só evolui, sendo mais adiante o diretor da Lintas para o Brasil e América do Sul. Em 1952, Rodolfo funda a primeira escola superior de propaganda do Brasil – a ESPM, de São Paulo, contando com o apoio de Assis Chateaubriand, dos Diários e Emissoras Associados, e Pietro Bardi, do Museu de Arte de São Paulo.

Rodolfo Lima Martensen (setembro de 1991)
O fundador da Rádio Sociedade do Rio Grande discursa após ser homenageado com o troféu Rio-grandino Ilustre pela Câmara de Comércio do município.
Fotografia de João Paulo Ceglinski
Acervo particular de Willy Cesar

Rodolfo Martensen veio muitas vezes à cidade natal, passar férias, pescar, velejar pela lagoa dos Patos, ir à praia do Cassino, sorver o vinho na ilha dos Marinheiros e rever recantos de sua juventude. A última vez que esteve em Rio Grande foi em setembro de 1991, para receber o troféu Rio-grandino Ilustre da Câmara de Comércio, quando falou da experiência de rádio pirata e sobre sua carreira.

– Eu ganhei tudo na vida de mão beijada – disse com humildade.

Rodolfo Lima Martensen faleceu em março de 1992, em São Paulo. Em sua homenagem, a Universidade do Rio Grande possui um Museu de Comunicação que leva seu nome.