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A ESPM, de São Paulo, e a Rádio Sociedade do Rio Grande têm alguém em comum
2013
Willy Cesar
Fundador e ex-diretor (2001-2005) do Museu da Comunicação Rodolfo Martensen, de Rio Grande

O ano é 1931, mês de setembro. De repente, uma emissora de rádio entra no ar, na cidade de Rio Grande, na Zona Sul do estado. Um jovem de 16 anos, com voz grave de trombone, diz assim:

– Esta é a EAX-4, rádio surpresa, transmitindo da rua Andradas, em Rio Grande. Nesta noite, teremos a apresentação do Choro Liberal, poesias e propagandas da Casa Martensen.

Estava inaugurada a primeira emissora (pirata) de rádio da cidade mais antiga do Rio Grande do Sul. O vozeirão pertence a Rodolfo Lima Martensen. Com a ajuda de Antonio Joaquim Barreto, também de 16 anos, a emissora em sua retaguarda técnica incluía rudimentar equipamento de transmissão instalado no quarto de dormir de Rodolfo. No dia seguinte, o jornal Echo do Sul, um dos diários da cidade, dá pequena nota anunciando que, na noite daquele mesmo dia, haveria outra transmissão pela “emissora de rádio”, sem dar seu nome ou prefixo (que era apenas fictício, não era oficial).
Dias depois destas transmissões clandestinas, o agente da Estação Junção Rádio, vinculada aos Correios e Telégrafos, bate à porta dos Martensen. O pai de Rodolfo atende e diz ao homem:

– O senhor pode ficar sossegado que de hoje em diante não vai sair mais nenhuma transmissão de rádio daqui!

– Não, seu Martensen! Nós estamos precisando de uma emissora e o pessoal leva jeito para a coisa. Nós queremos apoiá-los!

Assim surgiu a emissora de rádio de Rodolfo, que viria a ser um dos publicitários mais importantes do Brasil, no século 20.

A rádio pirata transformou-se na Rádio Sociedade do Rio Grande que passou a transmitir oficialmente em 1932, com autorização do Ministério da Viação, onde estavam as comunicações durante o governo Vargas. Rodolfo não pode continuar residindo em Rio Grande porque caiu doente com tuberculose. Transferido para São José dos Campos, curou-se num sanatório. Dois anos depois, fixa residência em São Paulo. E foi fazer a vida, primeiro como vendedor de livros e, depois, como radialista na Rádio São Paulo.
Poucos anos depois, entra na Lintas, do grupo Unilever, para dirigir o departamento de rádio da agência de publicidade. Dali sua carreira só evolui, sendo mais adiante o diretor da Lintas para o Brasil e América do Sul. Em 1952, Rodolfo funda a primeira escola superior de propaganda do Brasil – a ESPM, de São Paulo, contando com o apoio de Assis Chateaubriand, dos Diários e Emissoras Associados, e Pietro Bardi, do Museu de Arte de São Paulo.

Rodolfo Lima Martensen (setembro de 1991)
O fundador da Rádio Sociedade do Rio Grande discursa após ser homenageado com o troféu Rio-grandino Ilustre pela Câmara de Comércio do município.
Fotografia de João Paulo Ceglinski
Acervo particular de Willy Cesar

Rodolfo Martensen veio muitas vezes à cidade natal, passar férias, pescar, velejar pela lagoa dos Patos, ir à praia do Cassino, sorver o vinho na ilha dos Marinheiros e rever recantos de sua juventude. A última vez que esteve em Rio Grande foi em setembro de 1991, para receber o troféu Rio-grandino Ilustre da Câmara de Comércio, quando falou da experiência de rádio pirata e sobre sua carreira.

– Eu ganhei tudo na vida de mão beijada – disse com humildade.

Rodolfo Lima Martensen faleceu em março de 1992, em São Paulo. Em sua homenagem, a Universidade do Rio Grande possui um Museu de Comunicação que leva seu nome.
O rádio no interior do Rio Grande do Sul até o final dos anos 1940
2013
Luiz Artur Ferraretto

Até o início dos anos 1950, o rádio gaúcho sofre os efeitos da Portaria n. 269, assinada em 31 de março de 1936 pelo ministro dos Negócios da Viação e Obras Públicas, João Marques dos Reis, limitando, em seu artigo 59, a uma concessão a quantidade de estações em municípios do interior do país. Neste período, ficam de fora apenas algumas capitais e aquelas localidades onde já existe mais de uma emissora em operação. Ao longo da década, de 1950, revogada esta resolução, em torno de 50 são instaladas fora de Porto Alegre. Em 1960, apenas 10% das rádios do Rio Grande do Sul funcionam na capital, existindo vários polos em que se verifica alguma concorrência, mesmo que incipiente, como é o caso, entre outras cidades, de Bagé, Cachoeira do Sul, Ijuí, Passo Fundo, Pelotas, Rio Grande e Santa Maria. Será, no entanto, um longo percurso até a consolidação do rádio no interior gaúcho.

A inexistência de outorgas não significa a ausência total de manifestações radiofônicas. Já na década de 1920, há registros do interesse despertado pelo rádio, quando, por exemplo, representantes de casas comerciais de Porto Alegre como os da Barreto Vianna e Cia. promovem demonstrações em cidades do interior. Ocorrem, também, experiências efêmeras como a da Rádio Sociedade Cruzaltense (1930-1931), de Cruz Alta, presidida por Jovino dos Santos; da Rádio Sociedade (1930-1938), de Rio Grande, fundada por Raul Werneck, dando continuidade a uma iniciativa de Rodolfo Martensen e Antônio Barreto; ou da Rádio Experimental (final dos anos 1930), de Erechim, instalada por Acylino Rigo.

Neste período, o principal polo de radiodifusão do interior é mesmo Pelotas, o maior município da Zona Sul. Ali, atuam duas estações: a PRC-3 – Sociedade Anônima Rádio Pelotense, de Carlos Sica, a mais antiga em atividade no estado; e a PRH-4 – Sociedade Difusora Rádio Cultura de Pelotas Ltda, de Atahualpa Dias, base de um grupo que vai se expandir por outras cidades da região. Nesta última, instalada em 1933, surge Manoel Barcelos, um dos maiores apresentadores do Brasil, que, no futuro, vai despontar na Rádio Nacional, do Rio de Janeiro. Nela também, José Salimen Júnior – depois ator e animador de destaque na Farroupilha e na Gaúcha – e Carmen Silva – mais tarde, atriz da Rede Globo de Televisão – vão começar as suas carreiras.
Atahualpa Dias e a Organização Rádio Cultura
2013
Luiz Artur Ferraretto

Instalada em 1933, a Sociedade Difusora Rádio Cultura de Pelotas Ltda., de Atahualpa Dias, vai usar laços políticos e muita habilidade empresarial para dar origem ao primeiro grupo de comunicação voltado à radiodifusão no Rio Grande do Sul. De novembro de 1937 a dezembro de 1945, a presença de um pelotense, o general João de Mendonça Lima, no Ministério da Viação e Obras Públicas facilita as concessões para o que, gradativamente, se conforma como a Rede Rádio Cultura do Sul do Rio Grande.

A instalação da segunda estação do grupo exemplifica bem as relações que se estabelecem com o ministro.  Em 1936, Bolivar Frazão, do Centro de Cultura Rio-grandino, entra com um pedido para que Rio Grande tenha também a sua emissora. A Comissão Técnica de Rádio, no entanto, indefere a solicitação, alegando a proximidade com Pelotas, onde operam duas estações; a inexistência de canal previsto para a cidade; e a população inferior a 100 mil habitantes. No dia 14 de março de 1942, no entanto, já com vários parentes de Mendonça Lima na direção do centro, entra no ar oficialmente a ZYC-3 – Rádio Cultura Rio-grandina. Na sequência, são instaladas emissoras em Bagé, Sant’Ana do Livramento e Jaguarão.

Anúncio da Rede Rádio Cultura do Sul do Rio Grande (1951)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, ano 23, n, 549, p. 91, 8 dez. 1951.

Na primeira metade dos anos 1950, conforme registra o Anuário de Rádio, publicado no Rio de Janeiro, a Cultura de Pelotas, transmitindo em 1.340 kHz e com potência de 1 kW, possui três estúdios, auditório próprio, um pequeno elenco de radioteatro e uma orquestra com oito músicos. Do seu acervo, fazem parte 10 mil discos, acrescidos de mais 350 a cada mês. Em meados de 1956, adotando a denominação genérica Organização Rádio Cultura, e dirigido por Atahualpa Dias, Martial Dias e Cândido Monti, o grupo prepara-se para instalar estações em Santa Vitória do Palmar e Canguçu. Com apresentações de Dóris Monteiro e Cauby Peixoto, é inaugurado, na mesma época, o Palácio do Rádio, novo prédio da Cultura de Pelotas, emissora que já transmite com 5 kW.

O Palácio do Rádio, da Cultura de Pelotas (1956)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, ano 27, n. 672, p. 59, 8-21 set. 1956.


Na segunda metade dos anos 1960, após a morte de Atahualpa Dias, a Organização Rádio Cultura chega a ser oferecida para empresários como Breno Caldas, Maurício Sirotsky Sobrinho e Frederico Arnaldo Ballvé. As dívidas com ex-funcionários e com a Previdência Social inviabilizam estas negociações e as emissoras acabam sendo negociadas, gradativamente, uma a uma, desestruturando aquele que foi o primeiro grupo a possuir várias estações no Rio Grande do Sul.
Os 60 anos das Emissoras Reunidas, de Arnaldo Ballvé
2006
Luiz Artur Ferraretto

Arnaldo Ballvé (1944)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre: Livraria do Globo, ano 16, n. 361, p. 26, 22 abr. 1944.

Até a década de 1950, em várias cidades do interior, são comuns, na praça principal, os serviços de alto-falantes que, entre reclames do comércio, transmitem músicas e, não raro, dedicatórias a acompanhar os flertes do início de noite, em alguns dias da semana, ou os das tardes de sábado e domingo. Precedendo a instalação formal de estações, a “voz do poste”, na denominação popular, fornece, com frequência, profissionais para as novas rádios. É, em meados dos anos 1940, o caso do Serviço Alto-falante Santa Cruz Estúdio, também conhecido como Som Azul. Quando Santa Cruz do Sul coloca no ar sua primeira emissora, a maioria dos funcionários – inclusive o proprietário Elemar Gruendling – transfere-se para o novo prefixo. Situação semelhante acontece com o jornalista Luiz Napolitano, responsável pelos alto-falantes que irradiam nas proximidades da então Praça Ruy Barbosa, no centro de Caxias do Sul. Não é diferente o que ocorre com a Propaganda Sonora Guarany, de Eleodoro Antunes Fernandes, em Passo Fundo, na qual aparecem Maurício Sirotsky Sobrinho e Lamaison Porto, transformados, respectivamente, em gerente e diretor comercial da primeira rádio do município.

Nestes casos, todos envolvendo Arnaldo Ballvé, identifica-se uma estratégia comum adotada pelo empresário que, em meados dos anos 1940, começa a organizar as Emissoras Reunidas, aproveitando o pessoal dos alto-falantes ou, na ausência destes, fornecendo algum treinamento ou orientação a inexperientes candidatos a radialista. Para a administração geral deste empreendimento, o ex-diretor da Farroupilha (1935-1944) e da Gaúcha (1944) cria um staff próprio, utilizando o pessoal que havia trabalhado com ele anteriormente: Adeodato Rodrigues Araújo, Celso Fernandes, Hugo Victor Ferlauto e Paulo Amaro Salgado.

Com a denominação de Emissoras Reunidas Rádio Cultura Ltda., a empresa é registrada em 4 de dezembro de 1944. A expressão “Rádio Cultura”, utilizada na Zona Sul do estado por outro grupo, acaba sendo suprimida. Uma das nove concessões obtidas, de início, pelas Reunidas, a da ZYE-8 – Rádio Santa Cruz, de Santa Cruz do Sul, começa a sair do papel na madrugada de 11 de março de 1946, quando iniciam as transmissões experimentais. No jornal Gazeta de Santa Cruz, o empreendimento de Ballvé é saudado por sua abrangência:

É ela a primeira das estações mandadas construir pelas Emissoras Reunidas Rádio Cultura Limitada a entrar em funcionamento, sendo que a segunda será a estação de Caxias, que tem o prefixo de ZYF-3. 
Os prefixos das outras sete estações serão, para a de Alegrete, ZYE-9; Cachoeira do Sul, ZYF-4; Carazinho, ZYE-8; Cruz Alta, ZYF-9; Erechim, ZYF-7, Passo Fundo, ZYF-5; e Santo Ângelo, ZYF-6.

A inauguração da ZYE-8, semanas depois, no dia 7 de abril, confere um ar de modernidade a Santa Cruz do Sul, então com sua atividade econômica já voltada à produção de fumo. A exemplo do que ocorre no município – onde a Gazeta de Santa Cruz chega a qualificar o início das irradiações regulares como o “último laquê de civilização” ou uma “inovação há tanto tempo almejada” –, as estações do grupo, por seu pioneirismo e atuação, vão se integrar às comunidades locais, operando, em alguns casos, sem nenhuma concorrência nas três décadas seguintes.

Elemar Gruendling no estúdio da Rádio Santa Cruz (1946)
Fonte: Acervo particular da família Gruendling.

No mesmo mês de abril de 1946, no dia 27, irradiada do clube Recreio Guarany, o público da Serra gaúcha ouve pela primeira vez a identificação que, durante anos, vai abrir as transmissões da ZYF-3 – Rádio Caxias do Sul:

– Cobre agora os céus do Nordeste com sua onda alegre e amiga a ZYF-3, Rádio Caxias do Sul, que transmite na frequência de 1.460 quilociclos, onda de 205,48 metros. ZYF-3 tem seu estúdio e administração à avenida Júlio de Castilhos, 987, e suas torres e transmissor na Rua Pinheiro Machado, 815. Tudo na cidade de Caxias do Sul, Brasil.

Primeiro estúdio da Rádio Caxias, no Recreio Guarany (anos 1940)
O locutor Wilson Marchioro, tendo ao lado o gongo manual, utilizado para indicar a hora certa. Pela janela em frente, mantinha contato com o público e, pela do seu lado direito, com o operador.
Fonte: SISTEMA TRÍDIO DE COMUNICAÇÃO. Rádio Caxias 50 anos. Caxias do Sul: Editora da UCS, 1996. p. 39.


Arnaldo Ballvé discursa na inauguração da Rádio Caxias (1946)
Fonte: Acervo da Rádio Caxias.

Na Rádio Caxias, Arnaldo Ballvé começa um processo que vai se tornar comum em outras estações das Reunidas. Dá participação no negócio a empresários e ao pessoal da imprensa local, no caso Joaquim Pedro Lisboa e Luiz Napolitano. Com o tempo, esta prática envolve também gerentes das rádios. Em cada município onde instala suas estações, o diretor-gerente das Emissoras Reunidas procura, antes, informações sobre quem pode ser aproveitado no novo empreendimento. Em Passo Fundo, ouve do amigo Túlio Fontoura, liderança local do Partido Social Democrático e diretor do Diário da Manhã, elogios a um jovem locutor do serviço de alto-falantes. Contratado, em seguida, para administrar a Rádio Passo Fundo, Maurício Sirotsky Sobrinho vai estar ligado aos negócios da família Ballvé até a virada para a década de 1970. Sob a sua direção, a terceira das Reunidas entra no ar no dia 19 de agosto de 1946.

Nos anos seguintes, o grupo cresce, chegando a contar com duas dezenas de emissoras. Para auxiliar na administração de tantas rádios, Arnaldo Ballvé cria a função de inspetor-chefe, atribuída a Paulo Amaro Salgado, que, junto com outros três funcionários, faz uma espécie de auditoria em cada uma das estações. Também ocorrem reuniões periódicas com todos os gerentes das emissoras. A situação, no entanto, altera-se com a morte do empresário em 12 de junho de 1958. Um pouco antes, ele participa, como sócio majoritário, da compra da Rádio Gaúcha, que não chega a funcionar de modo coordenado com as Reunidas. Em 1962, Frederico Arnaldo Ballvé ainda vai lançar a TV Gaúcha, mas, em seguida, repassa as duas para a Rede Excelsior, de São Paulo. O crescimento da concorrência e a falta de modernização técnica e gerencial fazem com que, a partir daí, as Emissoras Reunidas comecem a se desmembrar. No início dos anos 1990, Nelson Proença assume o grupo, rebatizado, então, como Rede Comunidade, para, em junho de 2003, adotar a denominação de Rede Tchê.

Frederico Arnaldo Ballvé (1986)
O proprietário das Emissoras Reunidas discursa no aniversário de 40 anos da Rádio Passo Fundo, lembrando a importância de Arnaldo Ballvé para a comunicação do Rio Grande do Sul.
Fonte: Acervo particular de Gildo Flores e Waldir Sudbrack.

Anúncio das Emissoras Reunidas (dezembro de 1951)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, ano 23, n, 549, p. VI, 8 dez. 1951.
Nestor José Gollo, pioneiro do rádio caxiense
2013
Marcell Bocchese
Professor do Centro de Comunicação da Universidade de Caxias do Sul

O protagonismo empresarial da comunicação pelas ondas do rádio em Caxias do Sul é dividido entre grandes personagens. Pessoas que, na segunda metade dos anos 1940, já vislumbravam, em terras serranas, um futuro para o veículo de comunicação mais importante das primeiras décadas do século 20. O rádio, à época, já era um meio de comunicação consolidado nos grandes centros do país. Graças aos esforços de empreendedores como Arnaldo Ballvé (pioneiro também da radiodifusão em outras cidades do interior do estado), Joaquim Pedro Lisboa e Luiz Napolitano, Caxias do Sul já possuía, aos primeiros meses de 1946, uma emissora de rádio, a Rádio Caxias do Sul. Ballvé, Lisboa e Napolitano proporcionavam, assim, condições para que, com muito talento e dedicação, diversos personagens emergentes do rádio pudessem ser ouvidos. Vozeirões que eram irradiados pelo transmissor da pioneira ZYF-3, instalado aos fundos do prédio do Recreio Guarany, na avenida Júlio de Castilhos, 987. Um desses talentos era Nestor José Gollo.

Passados os primeiros meses de atividades no ar, a Rádio Caxias do Sul já necessitava de mais profissionais. Assim, no princípio de agosto de 1946, Nestor Domingos Rizzo, um dos gerentes da emissora, realiza um concurso para angariar novos talentos do microfone. Aprovado por unanimidade entre uns 90 candidatos do Concurso Novas Vozes, o jovem Nestor Gollo, que já atuara nos serviços de alto-falantes da então praça Ruy Barbosa (origem da pioneira ZYF-3), dá início oficialmente a sua carreira que, no futuro, muito contribuirá para o jornalismo caxiense.

Entre ruídos e interferências, baixa qualidade típica das primeiras transmissões de pequenas emissoras de rádio da época, muitos lares de Caxias do Sul passam a sintonizar uma das mais importantes vozes do rádio do interior do Rio Grande do Sul. Gollo, aos 19 anos, dá o pontapé inicial do rádio esportivo na Serra gaúcha, ao criar o Esportes na Onda, no ar desde o final de 1946 e, portanto, o programa mais antigo do gênero no Rio Grande do Sul. Um gol de placa. Formador de opinião e agitador do esporte local, Gollo permaneceu por cerca de uma década à frente do programa, onde dividia o microfone com outra lenda do radiojornalismo caxiense, Dante Baptista Andreis. Foram emblemáticas para o rádio de Caxias do Sul as narrações ao vivo feitas por Gollo do estádio dos Eucaliptos, na capital Porto Alegre, de partidas da Copa do Mundo de 1950. Era o mundo esportivo da cidade, do estado e do país – com grande destaque ao futebol profissional e amador caxiense –, que estava no ar pelas ondas da Rádio Caxias.

Gollo era audiência certa, tanto nas jornadas esportivas, quanto nos momentos de reflexão proporcionados pelo programa Ave Maria, pontualmente irradiado às seis da tarde. Caxias do Sul, cidade de imigração italiana e de presença forte da Igreja Católica, parava em frente do aparelho de rádio que reinava, então, absoluto na maioria das casas e estabelecimentos da cidade.

Nestor Gollo (1952)
Fonte: RODRIGUES, Jimmy. A voz e a palavra: o fluir da vida sob o olhar do cronista. Caxias do Sul: Belas Letras, 2008. p. 228.


Nestor José Gollo lê anúncio para dedicatórias (anos 1940)
Fonte: Acervo da Rádio Caxias.
Dante Andreis e o Esportes na Onda da Rádio Caxias
2013
Marcell Bocchese
Professor do Centro de Comunicação da Universidade de Caxias do Sul

Dante Andreis (1951)
Fonte: SISTEMA TRÍDIO DE COMUNICAÇÃO. Rádio Caxias 50 anos. Caxias do Sul: Editora da UCS, 1996. p. 53.

Sem dúvida, a segunda metade da década de 1940 foi pródiga para Caxias do Sul. As boas notícias não se resumiam às provenientes do final da Segunda Guerra Mundial, que terminara um ano antes. Elas se referiam, também, ao surgimento da primeira emissora da região, a Rádio Caxias; à entrada no ar, em 1946, do Esportes na Onda, que chegaria ao século 21, firmando-se como o mais antigo programa do rádio esportivo do estado; e ao início de carreira daquele que se tornou o mais popular radialista da cidade, Dante Baptista Andreis. Três manchetes para a história da radiofonia caxiense.

Tinha 15 anos o então menino esguio que amava esportes, sobretudo o futebol, e que, como todo apaixonado pelo que faz, era o garoto mais informado sobre esporte amador da cidade, época em que o profissionalismo – principalmente, no futebol – ainda engatinhava, sonhava ser grande. Justamente a sua paixão pelo esporte fez com que Andreis pudesse ouvir, pelos então 250 watts da Rádio Caxias, textos seus lidos pelo jornalista Nestor José Gollo, criador do programa Esportes na Onda, palco de atuação de Dante. É de se imaginar o orgulho do jovem em ouvir o resultado de sua labuta na coleta dos placares dos jogos amadores da cidade e, principalmente, saber que seu trabalho estava indo ao ar juntamente com o de expoentes do radiojornalismo da cidade, como Jimmy Rodrigues, Osvaldo de Assis, Ernani Falcão, Nestor Rizzo, Mário Ramos e Vilson Marchioro, apenas para citar alguns nomes.

O Esportes na Onda foi o grande incentivador do esporte da região, não dedicando sua atenção apenas ao futebol, mas a todos os esportes praticados na época. O programa, a partir do Departamento de Esportes da emissora, ajudava o esporte local, organizando e promovendo, por exemplo, campeonatos de futebol, corridas de automóveis e até mesmo olimpíadas na cidade. Prova da importância do programa é que seu aniversário era marcado com eventos como a Parada dos Esportes, que agitava o esporte na cidade.
As opiniões finais do cronista e comentarista Dante Andreis no Esportes na Onda ficaram marcadas como o ponto alto do programa. A sua linguagem, simples, coloquial e direta – características típicas da linguagem do rádio e do estilo da crônica, portanto –, atingia os mais diversos públicos, expondo sua opinião por vezes contundente, falando sempre o que pensava no espaço Bola na Rede, título do comentário radiofônico, que aludia à frase do mais famoso bordão do radiojornalismo caxiense: "futebol é bola na rede", genial criação de Dante.

Sua vida foi dedicada ao radiojornalismo esportivo, onde defendia, de forma tenaz, o esporte local. Apesar de torcedor declarado do Esporte Clube Juventude, Dante também defendeu os interesses da Sociedade Recreativa e Esportiva Caixas do Sul. Era adorado, portanto, adorado por torcedores de um e de outro clube. Foi o último, e talvez o único, a unir duas torcidas em um momento ímpar de reverência logo após a sua morte. Em um estádio lotado, em plena disputa do clássico Ca-Ju, teve seu nome gritado por um coro composto por milhares de vozes de paixões opostas, mas com um mesmo intuito: homenagear o Bolão, como era conhecido Dante Baptista Andreis, até hoje o cronista esportivo mais autêntico da cidade.
Hoje, por força do destino, Dante já não mais é ouvido pelas ondas da Rádio Caxias, mas o Esportes na Onda, desde 1946, segue sendo palco de atuação de diversos jornalistas esportivos da cidade, valorizando e divulgando o esporte local, principalmente o futebol, que segue vivo e atuante na Caxias do Sul do século 21.

Dante Andreis explica como começou a trabalhar no Esportes na Onda

Dante Andreis conta como foi criado o mais famoso bordão do jornalismo esportivo caxiense
Trechos do documentário Futebol é bola na rede – A história de Dante Andreis (2008)
Produção dos alunos de Radiojornalismo 3 do curso de Jornalismo da Universidade de Caxias do Sul.
Locução: Marcelo Andrighetti e Naihobi Steinmetz
Produção: Camila Boff, Daniel Rodrigues, Marcelo Andrighetti, Marcelo Passarella e Naihobi Steinmetz.
Gravações originais do acervo da Rádio Caxias.
Pós-produção e edição final: Marcell Bocchese.
Professor responsável: Luiz Artur Ferraretto.
Gravado no Centro de Teledifusão Educativa da Universidade de Caxias do Sul, Rio Grande do Sul.
Fonte: Acervo particular.

Dante Andreis (1986)
O radialista relembra, no Esportes na Onda, vários momentos do rádio esportivo caixense, apresentando transmissões da Caxias das décadas de 1950 e 1960. O trecho de Nestor José Gollo narrando o jogo México e Suíça pela Copa do Mundo de 1950 é um dos únicos registros radiofônicos de emissoras do Rio Grande do Sul existentes daquele campeonato mundial de futebol.
Fonte: Acervo da Rádio Caxias.
O comentário de Jimmy Rodrigues
2013
Marcell Bocchese
Professor do Centro de Comunicação da Universidade de Caxias do Sul

Jimmy Rodrigues
Fonte: RODRIGUES, Jimmy. A voz e a palavra: o fluir da vida sob o olhar do cronista.
Caxias do Sul: Belas Letras, 2008. p. 121.


Jimmy Rodrigues homenageia Joaquim Pedro Lisboa (1948)
Fonte: Acervo da Rádio Caxias.

Era adolescente o jovem que trabalhava em um cartório da cidade, mas já se imaginava longe das burocracias que envolviam a profissão. Pensava se fazer presente no cenário mágico do rádio, um veículo que reinava soberano em todo o país, mas ainda um rebento na Caxias do Sul da década de 1940. Antes mesmo da inauguração da primeira emissora de rádio da cidade, a ZYF-3 – Rádio Caxias do Sul, Jimmy Rodrigues já flertava com a então novidade da cidade: um serviço de emissão de informação e entretenimento via alto-falantes, – embrião do que seria a futura primeira emissora da cidade e região –, instalado na Praça Dante Alighieri (na época, chamada Praça Rui Barbosa).

A época era a dos vozeirões do rádio: só falava ao microfone quem possuía, por capricho da natureza, aquela voz impostada, grave e timbrada, que competia com as péssimas condições técnicas de emissão das ondas hertzianas dos primórdios do rádio. Mas o jovem Jimmy Rodrigues não possuía tal dom. Sua autocrítica, inclusive, era cruel, direta. Anos depois, profissional consagrado, lembraria no livro A Voz e a Palavra: "a minha era uma legítima ‘voz de taquara rachada'". Nada, porém, impediria que o então jovem desistisse de seu sonho. Depois de ser reprovado em um teste para speaker do serviço de alto-falantes existente na praça, Jimmy veio a ter sua primeira experiência como locutor nos clubes e nas festas de igreja da cidade.

A porta de entrada no cenário do radiojornalismo caxiense não seria mesmo a voz, mas sim o texto. Hábil e eficaz no uso das palavras, Jimmy – a convite de Ernani Falcão, um dos primeiros locutores da Rádio Caxias –começa a atuar como redator já no início das atividades da emissora, no ano de 1946.

Desde que entrou para o cenário do rádio caxiense, Jimmy sempre foi um dos principais protagonistas. Na emissora, o jornalista e radialista é responsável, por exemplo, pela redação dos primeiros textos da emissora, lidos pelo mesmo Ernani Falcão, e pela redação das notícias do radiojornal pioneiro na história da cidade, o Grande Jornal Falado F-3, hoje Jornal Formolo.

Comentarista nato, como excelente formador de opinião, seus textos puderam ser ouvidos pelas ondas do rádio desde as primeiras transmissões de partidas de futebol. Também atuou como uma espécie de faz tudo: repórter, apresentador, animador de programas, redator de textos publicitários, comediante, redator de radionovelas e ator.

Em meados de 1970, acometido de um câncer na garganta, foi forçado a deixar de realizar locuções. Mesmo assim, não se calou. Sua opinião seguiu sendo veiculada, tanto na Rádio Caxias, como na Rádio São Francisco, a partir da voz de outros importantes jornalistas da cidade, como o filho Paulo Rodrigues.
Ao longo de sua carreira, Jimmy teve importante atuação também no cenário do jornalismo impresso de Caxias do Sul. Trabalhou em jornais da região como Correio Riograndense, Pioneiro, Jornal de Caxias e Folha de Hoje, além de escrever para a Jornal do Comércio e a Última Hora, de Porto Alegre.

Cronista de Caxias do Sul, o estilo satírico-humorístico do texto de Jimmy Rodrigues marcou época, tanto nas ondas do rádio, quanto nas letras dos jornais. Estilo que o Rio Grande do Sul perdeu no dia 9 de junho de 2013, quando faleceu vítima de insuficiência respiratória aguda. Cala-se a voz que, por décadas, ecoou pelas ondas do rádio nos lares caxienses. Foram quase 70 anos de serviço ao jornalismo, que agora perde uma de suas figuras mais expressivas. Aos 87 anos, Jimmy parte, e já deixa saudade.



Trechos do documentário A voz que não se cala – A história de Jimmy Rodrigues (2009)
Produção dos alunos de Radiojornalismo 3 do curso de Jornalismo da Universidade de Caxias do Sul.
Locução: Jeferson Ageitos e Lilian Ferrari.
Produção: Bárbara Lipp, Jeferson Ageitos, Juliana Wilbert, Lilian Ferrari e Rafael Poletto.
Participação especial: Everton Pradella
Gravações originais do acervo da Rádio Caxias.
Edição: Rafael Poletto
Pós-produção: Marcell Bocchese
Professor Responsável: Luiz Artur Ferraretto
Gravado no Centro de Teledifusão Educativa da Universidade de Caxias do Sul, Rio Grande do Sul.
Fonte: Acervo particular.
Gildo Flores e as rádios Caxias e Passo Fundo
2013
Carlos Venhofen Flores
Filho de Gildo Flores

Gildo Flores (anos 1940)
Fonte: Acervo particular da família Flores.

Nascido em 1931, Gildo é um importante personagem do rádio em nosso estado em meados do século passado. Era adolescente quando, levado por seu irmão Abel, ingressou em 1947 na Rádio Passo Fundo, emissora inaugurada um ano antes e pertencente às Emissoras Reunidas, a maior rede do interior, um empreendimento ousado de Arnaldo Ballvé. Como atento aprendiz, passou por todas as funções da época: operador, organizador da caixinha de reclames, discotecário, vendedor de publicidade e locutor.

Em 1955, o cargo de gerente, que antes era ocupado por pessoas de fora da cidade, exceção do primeiro, Mauricio Sirotsky Sobrinho, ficou vago. O então superintendente das Reunidas, Paulo Amaro Salgado, disse a Gildo:

– O senhor Ballvé acha que tu tens condições de assumir, mas és muito novo. Faz o seguinte: deixa o bigode para demonstrar mais seriedade...

O bigode durou alguns meses, mas a gerência perdurou por décadas. Na ZYF-5, os acontecimentos foram intensos em várias esferas. Os programas de auditório, como o Clube do Titio, as radionovelas que balizavam os horários noturnos, shows com os grandes artistas nacionais e o surgimento do apresentador de programas que se tornou um ícone da música gaúcha: Teixeirinha. Na esfera política, episódios em que Passo Fundo foi importante cenário: a legalidade em 1961 e a ruptura institucional de 1964, em que a rádio foi encampada pelo governo.

Um novo desafio estava por vir. Em 1965, Gildo Flores transfere-se para Caxias. Vai gerenciar umas das maiores unidades das Emissoras Reunidas: a ZYH-72 – Rádio Caxias do Sul. E, numa sociedade mais fechada, formada por maioria de imigrantes italianos, conseguiu ser muito bem aceito. Sob seu comando, solidifica-se um dos maiores fenômenos publicitários e de audiência do rádio caxiense: o jornal do meio-dia, em que Gildo frequentemente fazia a locução, um misto de notícias, informações fúnebres, de festas e de classificados que envolviam toda a região. Está até hoje no ar como o Jornal Formolo.

Em 1972, inaugura a sede própria da emissora no 21º andar do Edifício Estrela com 400 m² de área, modernos estúdios e, em 1980, os 20 kW de potência, o que transforma a Rádio Caxias em uma das únicas emissoras do interior do Brasil com essa condição. Ainda no decorrer dos anos 1970, percebe a mudança do perfil do ouvinte, migrante de outras regiões do estado, dando maior espaço aos programas gauchescos, segmento fundamental até hoje no rádio AM.

Em 1988, com a venda da Rádio Caxias, finaliza um compromisso de aproximadamente 40 anos com o grupo da família Ballvé, mas permanece ligado ao rádio. Após algum tempo, passou a representar comercialmente emissoras da capital e interior na região da Serra, atividade em que permaneceu por uma década.

Ao completar 80 anos, já aposentado, resolveu homenagear a cidade que lhe projetou e a que lhe acolheu. Entregou a vários órgãos de imprensa de Passo Fundo, uma cópia de um conjunto de programas A Radiodifusão em Passo Fundo, realizado nos anos 1970. Trata-se de um áudio de vozes e acontecimentos dos pioneiros da comunicação do planalto gaúcho. Para Caxias, reservou contar como nasceram e se desenvolveram as emissoras de rádio e TV locais. Dirigido por seu filho, Juliano, o documentário em vídeo No Ar registra os nomes e órgãos que formataram a imprensa na cidade.

Atualmente, Gildo, com privilegiada memória repleta de fatos e de personagens com quem conviveu, continua sendo uma referência para pesquisadores e estudantes de jornalismo. Segue, nas ruas e instituições, recebendo o apreço dos antigos colegas, dos anunciantes e dos "prezados ouvintes".



Gildo Flores
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 9 de agosto de 1999.


Trechos do programa A Radiodifusão em Passo Fundo (1977)
Fonte: Acervo particular da família Flores.

A Rádio Caxias nos anos 1940
Fonte: FLORES, Gildo Alves; FLORES, Juliano Barasuol. No ar, o rádio e a televisão em Caxias. Caxias do Sul, 2011. DVD.
Ídolos do rádio e da música ganham o interior gaúcho
2006
Luiz Artur Ferraretto

Por um bocado de tempo, a cena vai ser lembrada e relembrada em Bagé, a 393 km de Porto Alegre. Estamos nos anos 1950 e, à saída da Rádio Difusora, os músicos do Trio Los Panchos, de sucesso internacional, recusam o carro colocado pela emissora à sua disposição e saem, instrumentos em punho, cantando e tocando até o hotel.

Vão a cada passo surpreendendo as pessoas. São boleros doídos de incontáveis noites latinas. Choram saudades, por exemplo, em La historia de un amor, de Carlos Almarán:

Ya no estas más a mi lado corazón
En el alma solo tengo soledad
Y si ya no puedo verte
Porque Diós mi hizo quererte
¿Para hacerme sufrir más?
Siempre fuiste la razón de mi existir
Adorarte para mi fué religion
En tus besos yo encontraba
El calor que me brindaba
El amor y la pasión
Es la historia de un amor
Como no habrá otro igual,
Que me hizo comprender
Todo el bien todo el mal
Que le dió luz a mi vida
Apagandola después
Ai que vida tan oscura
Sin tu amor no viveré

La historia de um amor, de Carlos Almarán, com o Trio Los Panchos

Variando ritmos e entonações, a versatilidade destes mexicanos e porto-riquenhos gera encantamento. Do bolero, vão à cumbia, ao tango, à ranchera, ao corrido… E se improvisando mariachis, transformam Bagé em terras mexicanas:

¡Ay, Jalisco, Jalisco, Jalisco!
tú tienes tu novia que es Guadalajara,
muchacha bonita, la perla más rara
de todo Jalisco es mi Guadalajara.

¡Ay Jalisco, no te rajes!, de Manuel Esperón e Ernesto Cortázar, com o Trio Los Panchos

O que os bageenses vivem então apenas exemplifica o poder do rádio. Numa época em que o transporte e as comunicações são, ainda, uma dificuldade, artistas de considerável grau de importância na cena musical apresentam-se não só na capital, mas também no interior do Rio Grande do Sul. Ganham os palcos das rádios, dos cinemas, dos teatros e, na ausência de alternativa melhor, dos clubes e associações recreativas.

Pelo auditório e pelos estúdios da Rádio Caxias, na Serra Gaúcha, passam, entre outros, Emilinha Borba, Ivon Curi, Linda Batista, Leni Eversong, Marlene e Nelson Gonçalves, todos patrocinados pelo crescimento econômico da região. No Planalto Médio, outra das Emissoras Reunidas – na época, o maior grupo de comunicação do interior –, a Passo Fundo, faz o mesmo, trazendo, além de alguns destes, Cauby Peixoto, Alvarenga e Ranchinho… No auditório da Rádio Pelotense, na Zona Sul, cantam Ângela Maria, Carlos Galhardo, Dóris Monteiro e Francisco Alves. Já a Cultura Rio-grandina contrata, em 1956, Nora Ney para apresentações na praça Tamandaré e na boate Veterana, em Rio Grande. Na mais antiga cidade do estado, no entanto, a passagem da cantora, como recorda Célio Soares do jornal local Bom Dia, não fica registrada apenas na memória dos que assistiram a suas apresentações. Nos estúdios da emissora, Nora Ney deixa gravado um acetato com a marchinha carnavalesca Brotinho, composta por um músico local, o saxofonista Oscar Geraldo, da orquestra do maestro Luiz Nelson Piragine.

Repete-se, assim, na virada da década de 1950 para a de 1960, o deslumbramento vivido pelos ouvintes de Porto Alegre nos anos 1930, quando da passagem de Carmen Miranda e Mário Reis pela capital para inaugurar a Farroupilha. Naquela noite fria de inverno, 24 de julho de 1935, a compacta multidão acompanhou a apresentação dos dois pelos alto-falantes colocados em frente ao prédio da rádio, na Duque de Caxias, altos do viaduto Otávio Rocha, no centro da capital. Multidão que, descendo em direção ao centro, com vivas e hurras, seguiria seus ídolos até o Grande Hotel, em um final de noite sem cantorias, mas de uma veneração quase religiosa. Aliás, como fariam, décadas depois, graças a emissoras locais de rádio, as pessoas em Bagé, Caxias do Sul, Passo Fundo, Pelotas, Rio Grande…
A estruturação do rádio no interior do estado
2013
Luiz Artur Ferraretto

Com a diminuição dos entraves legais e a disseminação da energia elétrica no Rio Grande do Sul, o rádio desenvolve-se ao longo da década de 1950. Surgem novas emissoras nas principais cidades do estado.

O mercado radiofônico, em algumas cidades, ganha características concorrenciais. Isto já ocorre desde o final dos anos 1930, em Pelotas, onde a Pelotense, com seus departamentos comercial e artístico então arrendados ao empresário Cyro Oliveira, e a Cultura, de Atahualpa Dias, disputam a audiência e os anunciantes. A elas, vão se juntar a Tupanci (1958) e a Universidade (1967). Ainda na Zona Sul, é inaugurada, no início da década de 1950, a Minuano, com estúdios em Rio Grande e utilizando a frequência modulada para levar o seu sinal até a planta transmissora na cidade de São José do Norte. Criação do radialista Dolar Tanus, o slogan da nova emissora – “Onde sopra o minuano, fala a voz do gaúcho” – vai marcar este novo momento do rádio na região.

A partir da Serra gaúcha, a Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, por sua vez, começa a adquirir ou instalar emissoras comerciais, que dividem a sua programação entre um decalque do que fazem as grandes rádios da capital e o apoio às iniciativas da Igreja Católica. Passa a operar, assim, estações em Garibaldi, Lagoa Vermelha, Soledade, Veranópolis, e, a partir de 1958, em Porto Alegre, onde adquire a Rádio Difusora, até então pertencente aos Diários e Emissoras Associados.

No Planalto Médio, ligada à Prefeitura de Passo Fundo, começa a operar a Rádio Municipal, no início dos anos 1950. A nova estação procura aproveitar o que de melhor existe na radiofonia local. Da Rádio Passo Fundo, contrata Ruben Zutter, que leva junto os principais funcionários da estação das Reunidas na cidade. Arnaldo Ballvé reage, enviando o ex-gerente da Rádio Cachoeira, de Cachoeira do Sul, Roberto Aveline, para administrar a emissora. A 278 quilômetros de Porto Alegre, a audiência não sofre as influências das rádios da capital, o que aumenta o interesse e a importância de qualquer atração do centro do país. Conforme Gildo Flores, à época trabalhando na Passo Fundo, é com base neste raciocínio que Aveline reestrutura a rádio:

A primeira coisa que Roberto Aveline faz é estabelecer uma ponte aérea com artistas do Rio de Janeiro e São Paulo. Passou a vir um deles por mês, apresentando-se no Cinema Real, arrendado com esta finalidade. Era o ano de 1953, 1954... Vêm a Passo Fundo artistas como Linda Batista, Ivon Curi, Cauby Peixoto, a dupla Alvarenga e Ranchinho... Apresentavam-se no cinema com transmissão ao vivo pela rádio.

Na Região Central do estado, multiplicam-se as emissoras. Em Santa Maria, às rádios Imembuí (1942) e Santa-mariense (1954) juntam-se a Guarathan (1960) e a Medianeira (1960). Na cidade de Cachoeira do Sul, onde há dez anos já opera uma das Emissoras Reunidas, a família Pertilli instala, em abril de 1956, a Princesa do Jacuí, primeira de um conjunto de três estações, as outras duas em Candelária e Porto Alegre. Na Campanha, Bagé ganha, em fevereiro do mesmo ano, a Difusora, sua segunda rádio. Em Ijuí, no Noroeste, a Progresso (1959) passa a concorrer com a Repórter (1950).

Em outros municípios, uma única rádio segue operando, criando, por vezes, facilitados pela exclusividade das transmissões, fortes laços com a comunidade local. Um exemplo é a Independente, em Lajeado, inaugurada em 1° de abril de 1951, que, com frequência, vai para a zona rural do Vale do Taquari, participando das festividades típicas dos descendentes dos colonos alemães. Já em Uruguaiana, integrando a população dos dois lados da fronteira, opera, desde 1936, a Rádio Charrua, instalada pelo argentino Juan Izidro Cobelli, que só conhece concorrência com o surgimento da Rádio São Miguel, em 1963. A partir de 1957, a Rádio Osório, de Osório, faz o mesmo em relação ao Litoral Norte do estado.

A necessidade de buscar verbas publicitárias de maior monta leva à instalação de empresas de representação comercial em Porto Alegre. Assim, Arnaldo Ballvé e Maurício Sobrinho criam, em junho de 1950, a Rádio Publicidade Ltda., primeiro empreendimento deste tipo no Rio Grande do Sul. Na época, passam a buscar patrocinadores, em especial, para as Emissoras Reunidas, em um mercado no qual 40% dos anunciantes são absorvidos pelas rádios Difusora, Farroupilha e Gaúcha. Em pouco tempo, já representam estações de 44 municípios do Rio Grande do Sul, 23 de Santa Catarina e 15 do Paraná. Um anúncio publicado, então, dá uma ideia da presença da radiodifusão sonora no interior do estado.

Anúncio da Rádio Publicidade (abril de 1953)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, ano 24, n. 583, p. 54, 4 abr. 1953.
O gravador de Rui Grillo na Rio-grandina
2013
Willy Cesar
Jornalista e pesquisador

O governador Walter Jobin inaugura o terminal oceânico da Esso, na vila Santa Tereza, próximo ao Porto Novo e vizinho da Refinaria de Petróleo Ipiranga, em Rio Grande. São sete tanques de armazenagem para 39 mil litros de derivados de petróleo. É janeiro de 1950.

Durante a cerimônia, o folclórico radialista Rui Grillo, da Rádio Cultura Rio-grandina, carrega pesada maleta. Quando lhe perguntam o que tem ali, ele mostra orgulhoso um equipamento portátil recém-chegado dos Estados Unidos: o gravador magnético de arame, ou fio, da marca Webster, fabricado em Chicago. Depois, na emissora, para assombro dos ouvintes, Rui vai colocar as gravações no ar.

Essa é uma pequena amostra da revolução provocada pela tecnologia no radiojornalismo: o gravador de sons e vozes. Até então, nenhuma das emissoras locais – a Cultura Rio-grandina e a Minuano – dispunha de um gravador. O seu uso significa arejar a programação jornalística. Quem ganha é o ouvinte, que fica cada vez mais próximo dos acontecimentos municipais.

A ZYC-3 - Rádio Cultura Rio-grandina fora inaugurada em 13 de março de 1942, mas já transmitia em caráter experimental desde o final do ano anterior. Em 20 de setembro de 1950, muda-se do endereço original, na Major Carlos Pinto para a Silva Paes, quando inaugura seu auditório. Num pequeno espaço onde cabem menos de 50 pessoas sentadas, Rui Grillo brilha com seu famoso Quem tem no bolso ou na bolsa?. As coisas mais incríveis são levadas em sacolas pelos assistentes do curioso programa: ratoeira, bolo sem fermento, banana verde etc. Quem apresenta o produto ganha um dos prêmios dos inúmeros patrocinadores.
A Minuano, de Rio Grande, e o primeiro transmissor em FM do estado
2013
Willy Cesar
Jornalista e pesquisador

A ZYU-23 – Rádio Minuano vai ao ar em 22 de dezembro de 1950, de São José do Norte, onde se localizam os estúdios e o transmissor. Um pouco depois, em 28 de junho de 1951, entra em funcionamento o auditório para fazer frente à concorrência da Cultura Rio-grandina, na rua Marechal Floriano, em frente à praça Xavier Ferreira, em Rio Grande. Um transmissor de frequência modulada – é a ZYU-29 –  faz enlace com o equipamento de irradiação do outro lado do canal. Dali, o som da Minuano vai para as demais cidades da Zona Sul. As duas emissoras – a Cultura Rio-grandina e a Minuano – transmitindo em ondas médias disputam audiência na base do trinômio música, esporte e notícia.
Jayme Copstein, que trabalhou nas duas emissoras, relembra:
Minhas primeiras participações em rádio começam na Rio-grandina, nos tempos do canalete [referência à estrutura de saneamento ainda existente na avenida Major Carlos Pinto], no programa A Hora do Estudante. Mas eu já escrevia na Gazeta da Tarde, em Rio Grande. Depois fui para Porto Alegre estudar odontologia. A comunicação sempre me chamou mais atenção e eu integrei a equipe da PRH-2– Rádio Farroupilha., que na ocasião arrebentava a audiência. Ali, fiz produção de programas, escrevi textos, criei personagens. Depois de formado, voltei para trabalhar como dentista, na minha cidade natal, Rio Grande, e de novo fui trabalhar em rádio. O Lindalvo Monteiro me deu dois dias para montar a programação da Minuano. A emissora ia inaugurar, mas não tinha nada pronto. Dei uma listagem de discos para serem comprados em Porto Alegre, montei a programação e abrimos a rádio em São José do Norte.
Dólar Tânus, na época, é um dos mais destacados locutores da Minuano, em seu início. Alguns anos mais tarde, ele se transfere para o centro do país. No Rio de Janeiro, atua na Rádio Tupi, onde se destaca como noticiarista e diretor de programação. Em Brasília, é um dos locutores de A Voz do Brasil, na década de 1970.