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Flávio, Maurício e a chegada do Papai Noel
2008
Luiz Artur Ferraretto

O Papai Noel chega a Porto Alegre, com toda a pompa e circunstância devidas, em uma tarde de sábado, dia 17 de dezembro de 1955. Vem descendo das nuvens em plena Redenção, o mais emblemático e democrático dos parques da capital gaúcha. Tão democrático que ladeia a avenida Osvaldo Aranha, nos lados do Bonfim, o bairro dos judeus e, em um ângulo reto, pela José Bonifácio, os espaços deixados pelas copas das árvores permitem entrever as torres de duas igrejas católicas. O bom velhinho acena, sorriso aberto – Ho! Ho! Ho! – e traje impecável, escolhido a dedo por Vicente Rao, o eterno Rei Momo da cidade, que, neste final de semana, empresta corpo e performance a este símbolo natalino. O trenó paira no céu, por instantes, algo estatal: um helicóptero do governo do Rio Grande do Sul. As renas são hélices a girar numa brisa crescendo em vento, em ventania. Crianças há em grande número, sejam elas de famílias cristãs, judaicas, agnósticas, descrentes... seja lá o que pensam ou acreditam. Chegam a 50 mil na estimativa da Folha da Tarde, parceira da promoção. E, graças aos microfones da Rádio Difusora Porto-alegrense, a festa espraia-se, horizonte hertziano ao longe. Satisfeitos, um católico e um judeu esfregam as mãos. São dois dos mais inventivos – e espertos – profissionais de comunicação do estado: Flávio Alcaraz Gomes e Maurício Sirotsky Sobrinho.

Aquela festa em que Vicente Rao desponta em meio à gurizada envolve, de fato, um dos mais lucrativos negócios em termos de promoção da época. A ideia de Flávio, como ele mesmo lembra em suas memórias, tinha sido, rapidamente, encampada por Maurício, que sugeriu um patrocinador, a Walgás, o novo gás de cozinha há pouco lançado no mercado para concorrer com outras marcas já tradicionais. O total dos custos estimado pela dupla: 20 mil cruzeiros.

– Vendemos por 30 mil e ganhamos 5 mil cada um – Pensaram de início os dois.

Com tal disposição, foram ao diretor da Walgás:

– Imagine, doutor Hercílio. Papai Noel descendo dos céus e materializando o sonho da criança que vive em cada um de nós, enquanto em coro os meninos cantam Noite Feliz...

– Que maravilha, que maravilha! E quanto custa? – Pergunta o empresário quase em êxtase para Flávio, numa inspiração monetariamente divina, responder:

– Cem mil cruzeiros, doutor.

Maurício, em choque, chega a empalidecer – “Porra, mais de três vezes o combinado!” –, mas os prós em relação aos contras contam mais e o doutor Hercílio põe fim àqueles segundos de aflição, dando um murro na mesa:

– Negócio fechado!

Resultado final: 40 mil cruzeiros no bolso de Flávio e 40 mil cruzeiros no de Maurício. Para cada um, o dobro do gasto na brincadeira toda.

Flávio Alcaraz Gomes (7 de dezembro de 2004)
Trecho de entrevista não utilizado no documentário Itinerários de um repórter, realizado pelo Centro de Produção Audiovisual da Universidade Luterana do Brasil.
Fonte: Acervo particular.
A inauguração da Rádio Guaíba
2006
Luiz Artur Ferraretto

Arlindo Pasqualini discursa na inauguração da Rádio Guaíba (30 de abril de 1957)
Fonte: Correio do Povo, Porto Alegre, 1º maio 1957. p. 30.

Faltando poucos minutos para o meio-dia, a edição de sábado da Folha da Tarde, o principal vespertino do Rio Grande do Sul, acaba de rodar e um grupo de repórteres e redatores do jornal, junto com alguns colegas do Correio do Povo, comprime-se do outro lado do vidro que separa o estúdio do operador de áudio. Ouve-se, então, um arranjo especialmente preparado na Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, para o tradicional Boi Barroso, a melodia das trovas tradicionais do cancioneiro gaudério. Com a voz embargada pela emoção, o locutor Aden Rossi anuncia, na sequência, impondo silêncio entre os colegas apinhados no corredor do segundo andar da rua Caldas Júnior, número 219:

– Senhoras e senhores, boa tarde. A partir deste momento, passa a operar regularmente através das suas emissoras de ondas médias, ZYU-58, em 720 quilociclos, e em ondas curtas de 25 e 49 metros, 11.785 e 9.865 quilociclos, a Rádio Guaíba, de Porto Alegre, Brasil. A Rádio Guaíba encetará, a partir deste momento, a sua programação musical de hoje, sábado, 20 de abril de 1957. Como primeiro número, ouviremos, por Frank Pourcell e sua orquestra, Three Coins in the Fountain...

Three Coins in the Fountain, de Frank Pourcell, com Franck Pourcell e sua orquestra

Não é ainda a inauguração oficial, como já sabem desde o início da manhã os leitores do Correio do Povo:
Acontece que, nos dez dias que distam entre uma data e outra, a Guaíba não colocará publicidade alguma em seus programas, transmitindo exclusivamente música para os sintonizadores dos 720 quilociclos. Posteriormente, seguindo religiosamente a linha que se traçou, jamais a publicidade ultrapassará de 1/3 do período de transmissões. Assim, valoriza ao máximo as mensagens comerciais e propicia aos sintonizadores espaços que, realmente, possam ser ouvidos.

Como registra o mesmo jornal no dia seguinte, aos primeiros ouvintes da Guaíba já chama a atenção a qualidade do som da nova emissora, cuja parte técnica está sob a responsabilidade de Homero Carlos Simon, contratado quatro anos antes. Desde 1953, o engenheiro vinha planejando e orientando a instalação dos transmissores colocados na ilha da Pintada de forma a aproveitar a conformação geográfica do local – o espelho d’água formado pelo lago Guaíba – para melhorar as irradiações. Nacionalista militante, o diretor técnico da emissora adquire equipamentos e componentes eletrônicos em sua grande maioria fabricados no Brasil, que são alterados, ajustados e remontados sob a sua supervisão, obrigando, por vezes, um trabalho redobrado, como ele mesmo lembraria anos depois:

Foi uma das lutas, das mais ingratas, mas ao final vencedora, de quatro anos seguidos, pelos problemas técnicos que tivemos de enfrentar para a instalação de transmissores e torres.

A entrada no ar da rádio segue um cronograma planejado pelo diretor da emissora, Arlindo Pasqualini, e aprovado por Breno Caldas, o proprietário do Correio do Povo e da Folha da Tarde, jornais aos quais, então, se junta a Guaíba. Assim, às 6h da quinta-feira, 25 de abril, a ZYU-58 começa a transmitir inclusive com a sua síntese noticiosa, o Correspondente Renner, lido, na época, por Ronald Pinto. A aproximação com os ouvintes vai se dando sem sobressaltos, de modo que, na semana seguinte, nem a chuva ou o frio daquela terça-feira, dia 30, impediriam que, uma hora e meia antes da inauguração oficial, marcada para as 20h30, o Theatro São Pedro – palco cuidadosamente escolhido – já estivesse lotado. Contrastando com a emoção do diretor de broadcasting, Jorge Alberto Mendes Ribeiro, e da locutora Jalma de Arroxelas, que o apresentam ao público, Arlindo Pasqualini transmite serenidade ao discursar:

– Senhoras e senhores. A Rádio Guaíba, de Porto Alegre, que ora se inaugura aqui no Theatro São Pedro, com a presença para nós tão grata e tão honrosa de todos vós, constitui um empreendimento novo, mas que, embora novo, nasce sob o signo de uma tradição. É que sua vinculação a dois grandes jornais, o Correio do Povo e a Folha da Tarde, lhe traça implicitamente os rumos e a orientação. Tal orientação, como sabeis, é de absoluta independência, a qual tem para nós seus limites naturais e intransponíveis nos princípios da moral e nos imperativos do bem comum. Acerca de nossa programação normal, que deverá ter início amanhã, o que vos posso adiantar, em poucas palavras, é que ela não terá o luxo das grandes montagens. Mas, mesmo quando singela, jamais cairá na vulgaridade.

Mendes Ribeiro e Arlindo Pasqualini na inauguração da Rádio Guaíba (30 de abril de 1957)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.

Proferido nas dependências do mais sofisticado teatro da cidade, o pronunciamento de Pasqualini não poderia mesmo deixar de ser um tanto solene. Solenidade que ultrapassa os limites do discurso em si e do estudado uso da segunda pessoa do plural. Mais do que tudo, o Major, apelido do jornalista desde os tempos da Revolução de 1930, lança as bases de uma programação sóbria e, por vezes, sisuda, tradicionais marcas do Correio do Povo¸ conferindo, ainda que por uma relação quase gregária, uma boa dose de credibilidade ao novo empreendimento de Breno Caldas.

A escolha do Theatro São Pedro como palco do programa desta noite de gala obedece, portanto, a uma lógica. Sugerida pelo radialista e publicitário Ruy Figueira e acatada pelo diretor comercial Flávio Alcaraz Gomes, a ideia é utilizar a casa de espetáculos da elite porto-alegrense para indicar que uma emissora diferente está surgindo. Armindo Antônio Ranzolin, assistente da direção de 1976 a 1984, dá uma boa definição desta nova forma de fazer rádio, conhecida, no mercado do Rio Grande do Sul, como estilo ou padrão Guaíba:

Numa época em que as suas concorrentes ainda queriam fazer de tudo um pouco, a Rádio Guaíba surgiu com uma proposta nova, transmitindo notícias, esportes, música e programas culturais de muito bom gosto. Impondo um rádio ao vivo, até mesmo nos intervalos comerciais, a Guaíba teve a vantagem de gerar sempre um som limpo. Cuidando dos conteúdos e com uma técnica avançada, a Rádio Guaíba fez com que a voz de seus locutores e repórteres chegasse forte aos ouvintes, mesmo quando transmitida de bem longe. Foi assim que se construiu o padrão Guaíba, resultado do trabalho de anos e anos e realizado por muitos e muitos profissionais. Por tudo isso, a Rádio Guaíba fez escola e se transformou num marco na radiofonia brasileira.

De certa forma, este novo parâmetro introduzido pela Guaíba recupera um pouco das pretensões culturais da elite porto-alegrense comuns às sociedades radiofônicas da década de 1920. Deste modo, logo após o discurso de Pasqualini, encerrado com a garantia de que a emissora será “uma voz a serviço do Rio Grande”, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, sob a regência do maestro Pablo Komlos, apresenta um cuidadoso repertório com trechos mais conhecidos de peças eruditas. Na sequência, Yara Bernette, uma das mais importantes pianistas do país em todos os tempos, interpreta trechos de obras de Wolfgang Amadeus Mozart, Johann Sebastian Bach, Ferruccio Busoni, Camargo Guarnieri, Claude Debussy, Franz Liszt e Frédéric Chopin. Encerrando esta “noitada de arte”, como define o Correio do Povo no dia seguinte, o Coro Orfeônico Júlio Kunz, da Sociedade Aliança de Novo Hamburgo, faz a vocalização do Boi Barroso, trilha musical que começa a ser conhecida como a assinatura sonora da Rádio Guaíba.

Apresentação da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre na inauguração da Rádio Guaíba (30 de abril de 1957)
Fonte: Correio do Povo, Porto Alegre, 1º maio 1957. p. 14.

Yara Bernette e o Coro Orfeônico Júlio Kunz, da Sociedade Aliança de Novo Hamburgo (30 de abril de 1957)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.


O Guarani, com a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, sob a regência do maestro Pablo Komlos (30 de abril de 1957)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.

A pianista Yara Bernette (30 de abril de 1957)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.


Boi Barroso, com o Coro Orfeônico Júlio Kunz, da Sociedade Aliança de Novo Hamburgo (30 de abril de 1957)
Primeira apresentação da trilha musical que identifica a Rádio Guaíba.
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.

Primeira rádio do Rio Grande do Sul gestada dentro de uma empresa dedicada ao jornalismo, a estação da família Caldas tem a sua personalidade definida com cuidado, gerando o chamado estilo Guaíba. Tudo consequência de um trabalho em que interferem diversos profissionais. O diretor técnico, Homero Carlos Simon, garante uma qualidade de som cristalino que, já nas transmissões iniciais, diferencia a emissora das demais. Esta particularidade é ressaltada pelo padrão de voz, algo impostado, mas de extrema correção e clareza na pronúncia, definido por Jorge Alberto Mendes Ribeiro, o responsável pela área artística da rádio. O assistente da direção de broadcasting, Osmar Meletti, junto com o seu auxiliar Fernando Veronezi, aproveita também esta vantagem competitiva na programação musical, baseada em comedidas orquestrações, bem ao gosto de Breno Caldas. Outro fator, ainda, serve para reforçar a sobriedade das irradiações: todos os comerciais são lidos ao vivo, com a Guaíba negando-se a aceitar spots e jingles. Assim, na tabela de preços da ZYU-58 vai constar, além do valor dos reclames, a frase “A Rádio Guaíba não aceita anúncios gravados”, o que causa um impacto nas agências da época, como registra o então diretor comercial, Flávio Alcaraz Gomes, no 15° aniversário da emissora:

A Rádio Guaíba automaticamente ficou afastada das grandes verbas de propaganda e inúmeros experts de Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo não nos deram mais de dois meses de existência. Apesar de tudo, o bom gosto de nossa programação, a alta qualidade de nosso som, que logo se consagraria como o famoso som local da Guaíba, e o impecável padrão de nossos locutores fizeram com que, quebrando todos os tabus, a Guaíba fosse conquistando o seu lugar ao sol e galgando, um a um e a duras penas, os degraus de uma liderança nacional hoje inconteste.

Quando de sua inauguração, não podendo fugir ao espetáculo radiofônico ainda em voga, a Guaíba organiza, mesmo assim, uma programação diferenciada. Baseando-se em conceitos ouvidos de Jesuíno Antônio D’Ávila, anos antes diretor da Farroupilha, e influenciado pelo rádio europeu e norte-americano, Flávio Alcaraz Gomes cria atrações como Trabalhando com Música, inspirado no Travaillant en Musique, da Radiodifusion Française, e Dê Asas à sua Inteligência, um quiz show réplica do The $64,000 Question, atração televisiva da Columbia Broadcasting System, dos Estados Unidos. Na dramaturgia, o destaque fica para o Grande Teatro Orniex, dirigido por Jorge Muccilo, nos domingos, às 21h, encenando, por vezes, clássicos da literatura, como Moby Dick, de Herman Melville. O final de tarde, de segunda a sexta, é, no entanto, das crianças, com os programas Histórias do Mestre Estrela, às 17h30, com Antônio Gabriel de Moura Coelho interpretando o personagem-título, e o Teatrinho Infantil Cacique, às 18h05, uma parceria com a revista Cacique, então publicada pela Secretaria Estadual da Educação. Como resultado, segundo Flávio Alcaraz Gomes, a rádio atinge a fatia de público pretendida:

O veredito popular consagrou, de imediato, a Guaíba como uma emissora sóbria, noticiosa, musical e herdeira das tradições de sua empresa-mãe, respeitável. O fato de emendar permanentemente duas músicas e de não veicular os estridentes jingles e spots atribuiu-lhe audiência cativa entre as elites.

Em 4 de outubro de 1957, a Guaíba, em um feito tecnológico para a época, capta o sinal do Sputnik, o primeiro satélite artificial da história, lançado horas antes pela União Soviética. A transmissão daquele bip-bip marca, fora a audácia técnica do engenheiro Homero Carlos Simon, o início de uma série de pioneirismos da rádio neste campo. No ano seguinte, chave para compreender o sucesso da emissora em termos de notícias e programação esportiva, ocorre a irradiação do Campeonato Mundial de Futebol, realizado na Suécia, e, um pouco depois, a cobertura das eleições estaduais. Na transmissão do título conquistado pela seleção do Brasil, Flávio Alcaraz Gomes, com o apoio do diretor técnico da Guaíba, introduz o uso de transmissores em single side-band (SSB), contando com a estrutura da Postes Télégraphes et Téléphones, de Berna, na Suíça. Por sua vez, anunciando com precisão e de forma antecipada o resultado do pleito para o governo do Rio Grande do Sul, a equipe comandada por Amir Domingues faz a primeira apuração paralela da história do rádio brasileiro. Com o fim do radioteatro da Guaíba no início dos anos 1960, a ZYU-58 adota o formato música-esporte-notícia em sua programação, no que também é uma das pioneiras no país.


Correspondente Renner anuncia o lançamento do Sputnik, primeiro satélite artificial da Terra (outubro de 1957)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.
Flávio Alcaraz Gomes e as conquistas da Guaíba
2007
Luiz Artur Ferraretto

Flávio Alcaraz Gomes, em entrevista a Joabel Pereira, relembra os principais momentos de sua carreira (20 de maio de 2007)
Fonte: TV GUAÍBA. Fórum. Porto Alegre, 20 maio 2007. Programa de televisão.

Lá pelas tantas em sua longa e algo atribulada vida, o jornalista – ele prefere a palavra “repórter” – Flávio Alcaraz Gomes cismou em andar pelos campos dos antepassados. Era a volta às origens. Dizem que todo ibérico tem um lado Quijote e outro Sancho. Talvez, do primeiro, tenham vindo algumas aventuras perseguidas nos horizontes do Flávio. A maior delas, sem dúvida, a da Guaíba, aquela das grandes conquistas, das coberturas internacionais, do som privilegiado e de um profundo bom gosto. Esta é a rádio do Flávio, diretor comercial lá pelos primeiros anos da emissora ligada, então, aos jornais Correio do Povo e Folha da Tarde e, tempos depois, à Folha da Manhã. Diretor comercial, diga-se de passagem, algo metido para os assépticos padrões administrativos de hoje. Diretor comercial que pensa e interfere muito com várias bem-sucedidas ideias no dia a dia da rádio e criações na programação.

É dele o Trabalhando com Música, inspirado no Travaillant en Musique, da Radiodifusion Française, que o Flávio conheceu nos anos passados às margens do Sena, quando foi descobrir se o tradutor brasileiro de Ernest Hemingway estava certo ou não. Afinal, tanto faz! A moveable feast, no original em inglês, ou Paris é uma Festa, em português. Ah, e o Dê Asas à sua Inteligência, um quiz show réplica do The $64,000 Question, da CBS, dos Estados Unidos. Como a Guaíba não possuía auditório, o programa de perguntas e respostas ocupava o intervalo entre a primeira e a segunda sessões das noites de terça-feira no Cinema Imperial. E lá está a Cidade Luz de novo. Não havendo verba para prêmios milionários, o Flávio negociou passagens aéreas com a Panair do Brasil. A cada etapa ultrapassada, o patrocinador oferecia viagens para capitais de estados cada vez mais distantes até chegar ao prêmio máximo – e internacional –, Paris, com as despesas de transporte aéreo e de estada pagas. Apresentado por Jorge Alberto Mendes Ribeiro, o Dê Asas é, na época, como o Flávio lembraria, na sua coluna do Correio do Povo, “um sucesso de arrasa-quarteirão”.

São só dois exemplos. Óbvio que tem mais. Há a cobertura da Copa do Mundo de 1958, o som da torcida sueca na final, ecoando no estádio – “Eia Eia Svenska! Eia Eia Sverige!”– e chegando ao Brasil pela novata Guaíba, que mal completara um ano. E, depois, gol a gol, a primeira conquista, quatro anos de Taça Jules Rimet em terras tupiniquins. E vieram outras copas, outros conflitos, menos alegres, menos festivos... Sangue nas areias do Oriente Médio. Guerra do Seis Dias. Sangue nas selvas asiáticas. Guerra do Vietnã. Pedras e gás lacrimogênio nas ruas de Paris. Paris, maio de 1968. Uma fantástica conquista, o ser humano na Lua, visto por um pequeno monitor no centro de imprensa montado pela Nasa:

– Nós divisamos apenas a sua silhueta, mas não há dúvida nenhuma: é uma silhueta de um bípede, de um homem, de um homem como nós, de um representante da espécie humana tomando posse, em nome da humanidade, da Lua!

E mais guerras, como a do Yom Kipur. Tensão em Montevidéu com o sequestro do cônsul Aluísio Dias Gomide. Ah, e os programas. Quem viveu no final dos anos 1960, primeira metade dos 1970, lembra, com certeza, do 2001. O Flávio, esperto como só ele, aproveita o sucesso do filme 2001: uma Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick, para dar nome a um quase documentário de teor didático. Explora recursos radiofônicos e, por vezes, recorre à entrevista como único instrumento. Marca época a abertura do 2001 com uma espécie de bordão do programa, em texto e sonoplastia, fechando a breve introdução do assunto do dia:

– ...para os que nos ouvem hoje e para os que nos ouvirão mesmo depois de...

E, após uma pausa, para que se escute o mesmo trecho de Also Sprach Zarathustra, de Richard Strauss, usado nas cenas iniciais da produção cinematográfica de Kubrick:

– ... 2001.

Tem também o Agora, uma revolução no rádio do Rio Grande do Sul, com o Flávio dividindo microfone com Adroaldo Streck e introduzindo, no cotidiano das emissoras do Rio Grande do Sul, a participação – ao vivo ou gravada – de entrevistados, repórteres e correspondentes, por telefone ou no estúdio.

Pois é, quando a Guaíba surgiu o Flávio estava lá no Theatro São Pedro, assistindo à inauguração com seus quase 30 anos de idade. Hoje, cinco décadas depois, segue, com a mesma vitalidade, de ficar nervoso em casa nos feriados e finais de semana, quando não comanda o seu Guerrilheiros da Notícia. Segue acordando cedo, descendo o morro Santa Tereza, onde está sua casa, e, de segunda a sexta, fazendo a história dos protagonistas dos fatos, dos ouvintes e de si próprio. Com a mesma vitalidade de sua coluna no Correio do Povo e da outra versão dos Guerrilheiros, a da televisão. Prova de que, naquela viagem de volta às raízes ibéricas, seu primo Constantino tinha mesmo razão. Como ele dizia, os Alcaraz são mesmo de buena madera. E sem o Flávio não haveria um porquê de ser a Guaíba, a dos 720 Khz com aquele som que só a Guaíba tem, uma tradição do Rio Grande do Sul.
1958: o Rio Grande do Sul vai à Copa com a Guaíba
2006
Luiz Artur Ferraretto

Anúncio da Rádio Guaíba (junho de 1958)
Fonte: Folha da Tarde, Porto Alegre, 28 jun. 1958. p. 15.

Oito de junho de 1958, direto do Estádio Rimervallen, em Uddevalla, a voz grave de Mendes Ribeiro anuncia, com uma qualidade de áudio muito superior aos parâmetros da época e ultrapassando a distância de 17.000 km a separar o Norte da Europa do Sul da América Latina:

– Alô, Brasil. Neste momento, está formada a Rede Ipiranga dos Esportes, comandada pelas emissoras brasileiras da Rádio Guaíba, de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, falando diretamente de Uddevalla, na Suécia, local do primeiro encontro do Brasil na Copa do Mundo, frente à Áustria. Emissoras brasileiras da Rádio Guaíba, de Porto Alegre: ondas médias de 720 quilociclos, ZYU-58; ondas curtas de 25 metros, 11.785 quilociclos, ZYU-61; ondas curtas de 49 metros, 5.965 quilociclos, ZYU-60; e, ainda, a emissora da PTT, GXX–22; Rádio Guarujá, de Santa Catarina; e mais de 20 emissoras do Rio Grande do Sul.

Jorge Alberto Mendes Ribeiro e Flávio Alcaraz Gomes na cobertura da Copa do Mundo de 1958 (junho de 1958)
Fonte: Folha da Tarde Esportiva, Porto Alegre, 29 jun. 1958. p. 20.

Nos anos 1950, quando mal se conseguia falar por telefone da capital do Rio Grande do Sul com o Rio de Janeiro ou com São Paulo, ganha relevo o trabalho realizado pela ZYU-58 – Rádio Guaíba, de Porto Alegre, por iniciativa de Flávio Alcaraz Gomes e sob o patrocínio da Ipiranga S.A. Companhia Brasileira de Petróleos, na VI Copa Jules Rimet, o campeonato mundial de futebol realizado em 1958 na Suécia. Como observa Octavio Augusto Vampré, em Raízes e Evolução do Rádio e da TV, até então nenhuma emissora do Rio Grande do Sul tivera “o atrevimento de concorrer, abertamente, com o rádio do centro do país”. É a Postes Télégraphes et Téléphones (PTT), companhia estatal da Suíça, a responsável por tornar possível a irradiação intercontinental, utilizando uma tecnologia até então desconhecida no Brasil: o single side-band (SSB), ou banda lateral única, que seleciona a faixa lateral com menor interferência no ponto de irradiação, suprimindo as demais e gerando, desta maneira, um sinal de melhor qualidade. Da Suécia, na Região Norte da Europa, à sede da PTT, em Berna, no Centro-Oeste do continente, o sinal vai por via telefônica e, de lá até o Brasil, por ondas eletromagnéticas de SSB. Além disto, o sistema montado permite à equipe da Suécia ter retorno do estúdio da Guaíba em Porto Alegre, interligando os profissionais daqui com os que estão lá.

Para que Mendes Ribeiro fale com a clareza do som local, expressão que a Guaíba passa a utilizar tempos depois, valorizando a qualidade das transmissões que coloca no ar, contribui também a atuação do engenheiro Homero Carlos Simon. É ele quem, com o apoio da equipe técnica sob sua direção, retifica ao longo das irradiações a chamada frequência ótima de trabalho, uma exigência do sistema de transmissão em single side-band, que, devido à distância a ser vencida, não é passível de cálculo preciso. A influência da luz solar sobre as ondas eletromagnéticas constitui-se em outro complicador, uma vez que existe uma diferença de fuso horário: é noite na Suécia e meio da tarde no Brasil. Para garantir a qualidade sonora optando sempre pela melhor frequência de operação, a Guaíba tem de utilizar dois canais, como o próprio Simon esclarece então nas páginas do jornal Folha da Tarde:
Enquanto a transmissão se estiver efetuando através de um canal, o outro canal estará sendo ajustado para acompanhar as alterações da ionosfera, visto que a determinação das frequências ótimas de trabalho, no nosso caso, não é passível de cálculo. E, quando o canal em uso começar a apresentar algum defeito, automaticamente a transmissão passará a ser feita através de outro canal; e o canal defeituoso será imediatamente ajustado.
Sob a supervisão do engenheiro são construídas as antenas rômbicas, cuidadosamente apontadas para Berna, necessárias à recepção das emissões da PTT e à geração do sinal de retorno. Há que observar, ainda, o ineditismo da utilização deste tipo de tecnologia à época no Brasil, que dificulta, por inexperiência, as operações e exige apurados conhecimentos eletrônicos.

Como apoio a Jorge Alberto Mendes Ribeiro e Flávio Alcaraz Gomes, a direção da empresa destaca Francisco Antônio Caldas – filho de Breno Caldas – e Manuel Dias, enviado especial do jornal Folha da Tarde. Na Europa, é acertada, ainda, a participação de Otávio Muniz, cronista esportivo paulista com passagens, entre outras, pelas rádios América, Difusora, Panamericana e Tupi. Um exemplo do trabalho realizado por esta equipe aparece descrito na Folha da Tarde de 25 de junho de 1958, dia seguinte à semifinal entre Brasil e França, jogo no qual Mendes Ribeiro cunha uma expressão marcante no restante de sua carreira como narrador esportivo:
Como, no primeiro tempo, o juiz da contenda estivesse envidando esforços para desclassificar a seleção canarinho, Otávio Muniz, ao ocupar o microfone da U-58 para os comentários de meio-tempo, não poupou palavras para condenar a atuação do árbitro. Mendes Ribeiro também condenou tal atuação, com palavras causticantes, expressando seu pensamento numa feliz tirada: “Deus não joga, mas fiscaliza”. E esse comentário veio a propósito da sensacional reação da equipe brasileira, que encerrou o jogo com o marcador em cinco a seu favor, enquanto os franceses conseguiram marcar apenas dois tentos. 
[...] Informando os ouvintes da Guaíba sobre o jogo, pelas semifinais, que se desenvolvia em Gotemburgo, atuou Flávio Gomes, com informações precisas sobre os tentos conquistados por ambos os lados na contenda Suécia x Alemanha, da qual a seleção de casa saiu-se vitoriosa. Além de fornecer informes técnicos sobre o desenrolar da partida, Flávio Gomes narrou, ainda, para os ouvintes da grande Rede Ipiranga dos Esportes, comandada pela Rádio Guaíba, de Porto Alegre, as reações dos franceses que assistiam ao jogo Suécia x Alemanha, para não sofrer em Estocolmo. A voz de Flávio foi vibrante quando informou: “Os franceses choram em Gotemburgo”.
Do estúdio da Guaíba em Porto Alegre, Amir Domingues e Antônio Carlos Porto reproduzem as gravações dos gols e descrevem a repercussão do jogo na capital gaúcha, aproveitando, ainda, o recurso, até então inédito, da transmissão em duas vias para trocar impressões com Mendes Ribeiro sobre o desempenho da Seleção Brasileira. Graças a um sistema de alto-falantes instalado pela equipe técnica da rádio, a população aglomera-se em frente ao prédio da emissora e no Largo dos Medeiros para acompanhar a partida, fato que vinha se repetindo nas demais irradiações, mas que atinge proporções multitudinárias na decisão contra a Suécia no dia 29 de junho, em especial no último minuto da partida, quando Pelé – sabe-se lá por que chamado de Pelê por Mendes – marca o quinto gol brasileiro na vitória por 5 a 2 contra a Suécia.

À transmissão da Guaíba, envolvendo ainda 23 emissoras do interior do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, integrantes da chamada Rede Ipiranga dos Esportes, soma-se o interesse do público pelo futebol, crescente desde a Copa disputada, oito anos antes, em território brasileiro, mas frustrado pela derrota do selecionado nacional. Interesse que chega ao nível, até então, máximo com a conquista do primeiro título mundial, a coincidir com o sucesso da estrutura de irradiação montada pela ZYU-58. Até porque a Gaúcha, concorrente direta em matéria de cobertura esportiva, apenas reproduz o sinal gerado pela Nacional, do Rio de Janeiro, embora a estação carioca tenha aceito integrar Guilherme Sibemberg à sua equipe. A partir daí, e até a melhoria da rede de telecomunicações, equipamentos de single side-band incorporam-se às transmissões de longa distância realizadas pela Guaíba, que, na Europa, passa a contar sempre com o apoio da PTT. Para o público, após a Copa, em 1958, fica a impressão sintetizada numa frase de Flávio Alcaraz Gomes, o artífice da ida de um microfone gaúcho à Suécia:
Foi a vitória do Brasil e a vitória da Guaíba!



Flávio Alcaraz Gomes entrevista Amir Domingues e Jorge Alberto Mendes Ribeiro (4 de maio de 1997)
Trecho do programa Fórum alusivo aos 40 anos da Rádio Guaíba.
Fonte: TV2 GUAÍBA. Fórum. Porto Alegre, 4 maio 1997. Programa de televisão.

Flávio Alcaraz Gomes (8 de dezembro de 2004)
Trecho de entrevista não utilizado no documentário Itinerários de um repórter, realizado pelo Centro de Produção Audiovisual da Universidade Luterana do Brasil.

Fonte: Acervo particular.

Flávio Alcaraz Gomes (6 de janeiro de 2005)
Trecho de entrevista não utilizado no documentário Itinerários de um repórter, realizado pelo Centro de Produção Audiovisual da Universidade Luterana do Brasil.
Fonte: Acervo particular.
1962, a copa do radinho de pilha
2014
Luiz Artur Ferraretto

Cartaz da Copa do Mundo de 1962 (1962)

As transmissões radiofônicas da Copa do Mundo de 1962 popularizam no país ainda mais a utilização dos aparelhos transistorizados, tornando comum a imagem do torcedor com o radinho a pilha colado no ouvido. De fato, quando quatro anos antes o Brasil sagrou-se campeão na Suécia, muita gente já escutara as transmissões neste tipo de receptor. Na copa do Chile, no entanto, os aparelhinhos iriam se disseminar. No estado, apesar de já existir alguma produção nacional, os receptores – em sua maioria, da marca Spica – chegam, então, não raro, contrabandeados pelo porto de Rio Grande.

A mania pelos radinhos de pilha toma conta do Brasil desde o início da década, rendendo uma reportagem, em janeiro de 1960, na revista Visão, a demonstrar certa estupefação de algum jornalista mais conservador a respeito daquela “avassaladora epidemia desses aparelhinhos”:

Nas filas de ônibus, nas lotações, bondes e ônibus, nas praias e estádios, nas repartições e nas ruas, em toda parte, até nos cinemas, os rádios portáteis se fazem presentes. Uma conversa na condução é, não raro, perturbada pela intromissão do instrumento sintonizado em altos brados. Como se isso não bastasse, surgem as situações mais esdrúxulas: num jogo de futebol há sempre espectadores que parecem não acreditar naquilo que enxergam no campo e mantêm os seus ouvidos colados aos radiozinhos; na Bienal de São Paulo se podiam surpreender vários visitantes observando as obras de arte, enquanto ouviam os seus aparelhos; na praia, o rádio incorporou-se à bagagem dos banhistas, tornando-se elemento tão importante ou mais que a barraca, o pé de pato, a bola de vôlei ou o cachorrinho que a grã-fina leva às areias de Copacabana; e nos cinemas, em meio aos filmes de maior suspense, espectadores veem-se obrigados a reclamar contra vizinhos que ligam o respectivo rádio, que muitos já denominam de “maquininha infernal”.

É a mobilidade proporcionada pela transistorização um dos fatores que vai salvar o rádio abalado pelo gradativo e cada vez mais acelerado crescimento das emissoras de televisão. O que, antes, era estático e exigia atenção constante – o aparelho valvulado de grandes proporções em destacada posição na sala de estar – torna-se, com os radinhos de pilha, dinâmico, posicionando-se junto ao ouvinte, em toda parte e a qualquer momento, como um ágil companheiro do dia a dia.

Com radinhos transistorizados ou em grandes aparelhos valvulados, os ouvintes de Porto Alegre puderam optar, em 1962, entre duas equipes de profissionais do Rio Grande do Sul enviadas para o Chile, a da Gaúcha – com Antonio Carlos Resende, Willy Gonzer, Samuel Madureira Coelho e Holmes Aquino – e a da Guaíba, com Mendes Ribeiro, Pedro Carneiro Pereira, Amir Domingues, Lauro Quadros, Ataíde Ferreira, Adroaldo Streck, Bruno Steiger e Alcides Krebs. Na coordenação da equipe da Gaúcha, estava um dos grandes nomes da cobertura esportiva do estado, Ari dos Santos, assim descrito por Octávio Augusto Vampré em seu livro Raízes e Evolução do Rádio e da Televisão:

O segundo destaque entendemos dever ser para Ari dos Santos, um homem de retaguarda, um comandante de equipe, avesso ao microfone, mas que sabia chefiar, como ninguém, seu quadro de auxiliares no departamento esportivo da Rádio Gaúcha, mais tarde também, na TV Gaúcha, e com rápida passagem pela Rádio Difusora Porto-alegrense. Chamavam-no, carinhosamente, Chinês por semelhança física, e de Coronel, pelas ordens que determinava ao seu grupo.

Pelo lado da Guaíba, a emissora da família Caldas Júnior recorre, novamente a Flávio Alcaraz Gomes. Vale a pena ler o seu relato a respeito das dificuldades e das peripécias dos radialistas gaúchos em terra chilenas, registrado, décadas depois, em seu livro Diário de um Repórter:

Assim sendo, a organização da cobertura do novo campeonato mundial de futebol ficou a cargo do engenheiro Homero Simon. Homero viajou para Santiago com um ano de antecedência, ali permanecendo durante quase um mês e voltando com tudo conseguido, tendo inclusive alugado um apartamento para alojar a equipe. Fiquei tranquilo e prossegui na minha rotina de diretor comercial e comentarista, criando e vendendo programas. Assim foi até a manhã de 31 de dezembro de 1961. Estávamos reunidos no hall da rádio, um grupo de colegas, quando Homero assomou lívido, com um ofício na mão. Era do Comitê Organizador do Mundial do Chile, firmado por Carlos Dittborn, seu diretor. Dizia que desgraciadamente a Rádio Guaíba não poderia transmitir porque todas as linhas e canais haviam sido prioritariamente contratados pelas emissoras do Rio e de São Paulo. “E agora?” – perguntaram todos, mais ou menos em coro. E se voltaram para mim. Eu, modestamente, baixei os olhos. Na primeira semana de janeiro, embarquei para o Chile. Em contraste com a Suécia e a Suíça, onde quatro anos antes só tinha lidado com gente séria e cumpridora, passei a defrontar-me com a situação extremamente fácil-extremamente difícil. Extremamente fácil obter a palavra de um técnico comprometendo-se a fornecer equipamento e/ ou prestar assistência. Extremamente difícil fazer com que cumprisse a mesma palavra. A princípio tentei por todos os meios obter licença do governo para autorizar-nos linhas e frequência de transmissão. Graças à minha amizade com o embaixador do Brasil, Fernando Ramos de Alencar, aproximei-me de Carlos Dittborn, encarregado da organização do certame, que morreu antes de sua realização e que, como homenagem, teve seu nome dado ao estádio de Sausalito de Viña del Mar, onde o Brasil, de calças na mão, passou pelas oitavas de final. Dittborn me disse que o homem-chave do circuito era um certo Jayme Schatz Prilutsky, chefe do Serviço de Eletricidade e Gás, que fazia as vezes de ministro de Comunicações. Schatz, marxista convicto, recebeu-me com uma frieza dura como seus olhos azuis. Isso a princípio. Mais tarde, ao sabê-lo apreciador literal da música Bebida, mulheres e orgia, fiz os três ingredientes chegarem ao seu colo. Resultado: consegui a autorização. Faltava o transmissor, e acabei descobrindo um antigo agente secreto, informante de submarinos alemães, mas técnico eletrônico de renome: don Pedro del Campo Benavente. Ele possuía um transmissor de single side band, cuja banda de cima (o transmissor opera em três bandas, a superior, uma neutra e uma inferior) estava cedida à Rádio Record de São Paulo. Ele poderia, se pagássemos bem, alugar-nos a banda de baixo. recheei o contrato e voltei a Porto Alegre. ‘É uma temeridade. As três bandas são para trocar o som de uma única emissora, caso haja interferência na de cima ou na de baixo. Em todo o caso, como não há outra maneira...’ - comentou Homero.[...] Vendido o patrocínio e com a reiteração da palavra de Schatz de que não concederia mais nenhum canal, redigi – e nossos jornais publicaram em manchete – que a Rádio Guaíba seria a única emissora do sul do Brasil a transmitir com exclusividade o campeonato mundial do Chile, graças a dois conceituados técnicos chilenos etc. Duas semanas depois, vindo com a minha família de Belém Novo, e corujando a Gaúcha no rádio do automóvel, quase morro de susto: a Guaíba estava sendo gozada em prosa e verso no programa esportivo da concorrente: “o que eles conseguiram em três meses, nós conseguimos em três dias”. E oficialmente anunciava-se sua presença na transmissão, utilizando o moderno transmissor do eminente engenheiro don Pedro del Campo Benavente. Bufei de raiva: “Aquele traidor!”. Mas, pensando melhor, vi que a traição tinha sido dupla, já que havia sido necessária também a autorização de Schatz. Mais tarde fiquei sabendo que Frederico Arnaldo Ballvé, que dirigia a Gaúcha com Maurício, tão logo soubera o caminho que eu havia trilhado (e que ingenuamente revelara na reportagem em que me gabolei da façanha), viajou para o Chile, onde deu aos dois pilantras o dobro do que eu dera, conseguindo exatamente o mesmo que me fora autorizado. Sem ter como reagir, viajei em maio para Santiago, onde permaneci quase dois meses, lutando palmo a palmo com a concorrência. Nosso som foi parelho até as quartas de final, quando então nos salientamos com vantagem, pois comprei e passei a utilizar um moderno transmissor Collins livrando-me das bandas do SSB de Del Campo. Em Porto Alegre, a exemplo do que acontecera nas transmissões de 1958, a recepção era feita na minha casa, no morro de Santa Tereza, em cujo quintal foi construída uma antena rômbica em direção ao Chile. Duas horas antes de cada jogo, os técnicos da Guaíba percorriam as casas da vizinhança, implorando para que não usassem liquidificadores e aparelhos assemelhados, a fim de não interferir em nossa transmissão, que, no jogo final e com o Brasil bicampeão, consagrou mais uma vez o som local da Guaíba.

Foi, portanto, a copa das dificuldades técnicas para os profissionais do Rio Grande do Sul e a do radinho de pilha para os ouvintes. No campo, apesar de alguns percalços, o Brasil não decepcionou o torcedor, uma vitória que você pode relembrar em um Reportagem Especial, da Rádio Guaíba, programa que lembrou o feito da seleção, 40 anos depois, dentro de uma série de programas sobre o tetracampeonato.


Programa Reportagem Especial relembra o bicampeonato brasileiro no Chile (8 de junho de 2002)
 


Produção: Márcio Beyer, Ramiro Ruschel e Eduardo Cutti.
Gravações: Rogério Petry, Valdinei Lima e Carlos Roberto Pereira.
Locução: Vladimir Oliveira, Paulo Amauri da Cunha, Mario Mazeron e Rui Strelow.
Seleção musical: Fernando Veronezi.
Coordenação e apresentação: Rodrigo Koch.
Chefia de esportes: Luiz Carlos Reche.
Fonte: Acervo particular de Rodrigo Koch.
A organização institucional do rádio gaúcho
2014
Luiz Artur Ferraretto

É em meio aos antagonismos de classe, opondo patrões e empregados, que o rádio do Rio Grande do Sul institucionaliza-se em paralelo à efervescência política reinante no país durante o governo de João Goulart. Antes de Jango chegar ao poder, dois fatos vão criar as condições necessárias para o surgimento de entidades que, em seu conjunto, mesmo defendendo interesses opostos, levam a radiodifusão sonora a ser tratada como um setor produtivo, mais ou menos coeso, dentro da sociedade brasileira. Em 24 de junho de 1961, o Decreto n. 50.840, assinado pelo presidente Jânio Quadros, reduz de 15 para três anos o período para renovação de concessão, causando protestos por parte do empresariado, mas, como, logo, sobrevém a renúncia, a medida na prática nem chega a vigorar. Dois meses depois, o movimento da Legalidade demonstra o poder de mobilização dos radialistas, estando, na opinião de Lauro Hagemann, na origem da estruturação do sindicato da categoria no estado. No plano mais amplo, opõem-se duas correntes: uma, a do grande capital, defendendo a internacionalização, e a outra, dos trabalhadores associada às forças reunidas em torno do presidente João Goulart, com uma perspectiva mais nacionalista e independente.

No primeiro semestre de 1962, em termos nacionais, surgem articulações que vão levar à criação do Comando Geral dos Trabalhadores durante o IV Congresso Sindical Nacional, de 17 a 19 de agosto, em São Paulo. No CGT, há, então, forte presença de elementos ligados ao Partido Trabalhista Brasileiro, o mesmo do presidente, e ao Partido Comunista Brasileiro, na ilegalidade desde maio de 1947. Em paralelo, no Rio Grande do Sul, os radialistas lutam pela criação de uma entidade sindical que os represente. Pelo lado empresarial, em resposta às tendências estatizantes do governo Goulart e à própria mobilização dos trabalhadores, surgem também associações classistas, comungando dos mesmos interesses de fóruns como o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad) e o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipês).

Deste modo, a partir de uma associação desativada, mas registrada na Delegacia Regional do Trabalho, os radialistas gaúchos começam a se organizar em prol da criação de um sindicato para a categoria. Com a carta sindical concedida em 14 de julho de 1962, é realizada uma assembleia nos primeiros dias de agosto, reunindo 300 trabalhadores no salão nobre do Instituto de Assistência dos Industriários (IAPI). Votam uma pauta de reivindicações e definem a primeira diretoria do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Radiodifusão e Televisão do Rio Grande do Sul, tendo Lauro Hagemann como presidente desta nova entidade representativa.

Assembleia de dissídio dos radialistas (5 de agosto de 1962)
Da esquerda para a direita, Fábio Silveira, Victor Nuñez (assessor jurídico do sindicato), Lauro Hagemann, Graça Guimarães, Adroaldo Guerra, Raul Ulguin (ativista sindical) e Ivan Castro.
Fonte: Acervo particular de Lauro Hagemann.

Há, no entanto, um problema para o encaminhamento das negociações com a classe patronal, ainda não organizada em uma entidade representativa. Embora o dissídio seja unificado, as tratativas seguem sendo realizadas emissora a emissora. Algumas, no entanto, cedem, concordando com as reivindicações dos trabalhadores. Pretendendo forçar o fechamento de um acordo, a categoria declara-se em iminência de greve, mas os Diários e Emissoras Associados e a Rádio Princesa não aceitam a proposta. Como consequência, em 21 de setembro, Dia do Radialista, nova assembleia deflagra a paralisação nas duas empresas. Piquetes são montados na Galeria do Rosário, onde estão os estúdios das rádios Princesa, no 21° andar, e, por coincidência, os da Farroupilha, no 22°. O governador interino, Ajadil de Lemos, então secretário estadual do Interior e Justiça, dá garantias a Lauro Hagemann de que não vai haver repressão policial ao movimento. A greve, no entanto, não ocorre sem uma dose de violência. Com certa conivência das autoridades estaduais ligadas ao PTB, os radialistas chegam a cortar a energia elétrica dos transmissores da Princesa, mas o foco principal da mobilização incide mesmo sobre os Associados, onde as condições de trabalho já vinham se deteriorando há bastante tempo. No Morro Santa Teresa, um poste de energia elétrica chegou a ser atravessado em frente à entrada da TV Piratini. Depois de 15 horas de greve, as reivindicações são atendidas pela classe patronal. Para se ter uma ideia, escudadas nesta paralisação, as lideranças dos trabalhadores obtêm, nas tratativas do dissídio do ano seguinte, um reajuste de 100%.

Já o empresariado mobiliza-se em torno da aprovação do Código Brasileiro de Telecomunicações. Recuperando o espírito dos decretos n. 29.783, de julho de 1951, de Getúlio Vargas, e n. 50.840, assinado dez anos depois por Jânio Quadros, ambos reduzindo o período de validade das concessões, o presidente João Goulart veta 52 pontos da Lei n. 4.117, aprovada em 27 de agosto de 1962, instituindo o código. Assim, pretendendo aumentar o controle do Estado sobre a radiodifusão comercial, Jango rejeita, por exemplo, o parágrafo 3° do artigo 33, que estabelece a concessão por 10 anos para estações de rádio e por 15 para as de TV. O prazo de funcionamento das emissoras, portanto, ficaria a critério do Poder Executivo. O veto ao artigo 54, por sua vez, atinge garantias à livre expressão de críticas e de conceitos desfavoráveis aos atos de qualquer um dos poderes da Nação.

A partir daí, os proprietários de empresas do setor articulam-se para manter o que consideram conquistas. Nos dias anteriores à análise dos vetos presidenciais, em novembro de 1962, os empresários realizam uma ação lobista junto aos parlamentares, organizada pelo diretor geral dos Diários e Emissoras Associados, João de Medeiros Calmon. No domingo, dia 25, começam a chegar à capital federal os representantes das emissoras de todo o país. Do Rio Grande do Sul, viajam, entre outros, Antônio Abelin, da Rádio Imembuí, de Santa Maria; Flávio Alcaraz Gomes, da Rádio Guaíba; Frederico Arnaldo Ballvé, da Rádio e TV Gaúcha; Nelson Dimas de Oliveira e Franklin Peres, dos Associados; e Victor Hugo Ferlauto, das Emissoras Reunidas. Nas noites de 26 e 27 de novembro, apesar da posição contrária da bancada do PTB, os vetos vão sendo derrubados um a um.
Fundação da Abert (27 de novembro de 1962)
Da esquerda para a direita, Flávio Alcaraz Gomes (Rádio Guaíba), João Calmon (Diários e Emissoras Associados), Victor Hugo Ferlauto (Emissoras Reunidas) e outros dirigentes de rádio e televisão.
Fonte: GOMES, Flávio Alcaraz. Diário de um Repórter. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1995. p. 116.

Coincidindo com o último dia da votação, representantes de 172 estações – entre as quais as de maior potência na época e a totalidade das de TV – fundam, no Hotel Nacional, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão. Pouco mais de duas semanas depois da criação da Abert, a exemplo do que acontecera em Brasília, os dirigentes de estações do Rio Grande do Sul organizam uma entidade representativa de âmbito estadual, a Associação Gaúcha de Emissoras de Rádio e Televisão (Agert). Da reunião inicial, no dia 13 de dezembro, realizada na sede da Associação Rio-grandense de Imprensa, participam 62 lideranças empresariais, que escolhem a primeira diretoria da entidade, tendo como presidente Nelson Dimas de Oliveira, dos Diários e Emissoras Associados.

Um ano depois, em resposta à nova mobilização dos trabalhadores do setor, surge o Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Rio Grande do Sul, tendo como primeiro presidente Franklin Peres, dos Diários e Emissoras Associados. No âmbito da consciência e das identidades de classe, completa-se, deste modo, o delineamento institucional básico, no território do estado, da indústria de radiodifusão sonora contemporânea. Vão auxiliar na maior definição deste processo a instalação, em 1963, de um escritório regional do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística e o crescimento do mercado publicitário gaúcho ao longo das décadas de 1960 e 1970.
Nos "anos de chumbo": as calcinhas subversivas
2008

De outros tempos, os da repressão, uma história de Flávio Alcaraz Gomes contada por ele próprio.
Fonte: O Sul, Porto Alegre, 31 out. 2008, p. 6.


1966: Flávio Alcaraz Gomes e o off tube na Copa da Inglaterra
2006
Luiz Artur Ferraretto

Cartaz da Copa do Mundo de 1966 (1966)

O narrador Jorge Alberto Mendes Ribeiro, há quase quatro anos na Rádio Gaúcha, esganiça-se ao microfone no Estádio de Wembley, neste dia 11 de julho de 1966, onde, em poucos instantes, vai começar a Copa do Mundo da Inglaterra:

– A Gaúcha é a única! É a única emissora do Rio Grande do Sul a transmitir aqui do estádio!

De Porto Alegre, o pessoal de retaguarda não entende o que está acontecendo. Na concorrente, Antônio Carlos Rezende relata, com precisão, o que ocorre em um dos maiores templos do futebol mundial. Descreve, inclusive, a cor do gramado e das roupas de Sua Majestade, a rainha Elizabeth II. “God save the queen” à parte, o repórter da Guaíba, Adroaldo Streck, com um acesso que ninguém tem, está nos vestiários e entrevista os jogadores do Uruguai, tirando deles impressões e expectativas sobre o iminente confronto com a Seleção Inglesa. No posto da Gaúcha, Mendes olha para um lado, olha para o outro, não vê nenhum profissional da emissora ligada ao jornal Correio do Povo e volta a insistir:

– A Gaúcha é a única! É a única emissora do Rio Grande do Sul...

A presença da Guaíba no estádio é mesmo um blefe, uma articulação esperta do diretor comercial da emissora, Flávio Alcaraz Gomes, graças às novas tecnologias postas à disposição dos jornalistas, no caso um monitor de TV estrategicamente instalado nos estúdios da British Broadcasting Corporation. Claro que ganha muita credibilidade com outra esperteza, a de Streck, que, na véspera, contando com a boa vontade dos jogadores uruguaios, preparara gravações cuidadosamente colocadas no ar momentos antes da partida.

Qual a história, então, por trás da primeira transmissão off tube, isto é, via tubo de raios catódicos?

Em 1962 no Chile, Gaúcha e Guaíba já haviam acompanhado o bicampeonato da Seleção Brasileira, antecipando a dura disputa entre as duas na Copa do Mundo seguinte, a da Inglaterra. A concorrência entre as emissoras de Porto Alegre acirra-se tanto que a rádio dirigida por Maurício Sirotsky Sobrinho empenha-se ao ponto de ir para a Europa com Mendes Ribeiro na narração, Homero Carlos Simon na direção técnica e a Ipiranga S.A. Companhia Brasileira de Petróleos como anunciante exclusivo. Sabendo que possui três elementos fundamentais da cobertura realizada pela Guaíba, em 1958, na Suécia e, quatro anos depois, no Chile, Sirotsky apela para a memória dos ouvintes, com certa dose de ironia e sutileza, publicando no jornal Zero Hora anúncios com a chamada em destaque: “O mesmo locutor, o mesmo técnico e o mesmo patrocinador”. Nos bastidores do contrato publicitário da Ipiranga, uma coincidência facilita a negociação: Antonio Mafuz, um dos sócios da MPM Propaganda, agência detentora da conta da companhia petrolífera, mantém excelentes relações com a Rede Excelsior, então proprietária da Rádio e TV Gaúcha, empresa da qual o publicitário havia sido também diretor. A questão do anunciante coloca em risco a cobertura da Guaíba, uma vez que, no Rio Grande do Sul, não existe, na época, outra empresa com cacife econômico para bancar os custos das irradiações das ilhas britânicas para o Brasil. A única saída para Flávio Alcaraz Gomes, o diretor comercial da rádio ligada ao jornal Correio do Povo, é recorrer ao mercado publicitário de São Paulo:

– Ali, durante um mês inteiro, visitei os principais clientes e agências de publicidade, até que obtive uma vitória espetacular: o patrocínio da Philips e de seu barbeador Philishave. E melhor: com preço superior ao que havia sido proposto à Ipiranga.

Representando a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, o próprio Flávio conseguira, tempos antes, a promessa por parte da British Broadcasting Corporation de que 12 posições seriam colocadas nos estádios para as estações do país. A Abert, por sua vez, decide que as vagas devem ser preenchidas obedecendo a ordem de antiguidade na contratação dos serviços de radiotelefonia com o exterior oferecidos pela Radional e Radiobrás, as duas multinacionais que, à época, prestavam este tipo de apoio. Por este critério, a Guaíba coloca-se em 11º e a Gaúcha, em 12º. Um pouco antes da Copa, no entanto, a BBC informa que apenas 10 emissoras brasileiras vão poder transmitir. Maurício Sirotsky Sobrinho fecha, então, um acordo com a Itatiaia, de Belo Horizonte, ingressando assim na lista das habilitadas à irradiação. Além disto, para aumentar a sua penetração em Porto Alegre, distribui em torno de 200 receptores transistorizados a bares, restaurantes e pontos de aglomeração no centro da cidade, todos os aparelhos especialmente preparados para sintonia exclusiva na Gaúcha. Um amplificador de relativa potência garante que o som atinja, com qualidade razoável, o público reunido nestes locais. Em contrapartida, a Guaíba procura explorar o bairrismo rio-grandense, como explica Flávio Alcaraz Gomes em seu livro Diário de um Repórter:

– A Gaúcha apregoava as vantagens de sua aliança com uma emissora de Minas Gerais e gabolava-se de que seria a única a estar presente no jogo inaugural, junto com a equipe da Itatiaia. “Ah, é, misturados com os mineiros?” – pensei. E, tendo em mente a discriminação que sempre existiu veladamente no Rio Grande do Sul em relação aos baianos (como são denominados pelos gaúchos todos os que vivem de Santa Catarina para cima), criei um slogan imbatível: “Guaíba: som local e equipe local”. Entrementes, o nosso novo transmissor de 50 kW (a Gaúcha operava com 10 kW) tinha ficado pronto. Foi assim que publicamos em nossos três jornais um anúncio de página: “Som local e equipe local. A Guaíba vai transmitir a Copa do Mundo com seu novo transmissor de 50 kW”.

No entanto, sem presença garantida nos estádios, à Guaíba resta utilizar um recurso que, com o tempo, vai se tornar habitual, como forma de reduzir os custos das irradiações. A emissora recorre, com o apoio da BBC, à transmissão off tube, ou seja, os profissionais de rádio postam-se em frente a monitores de TV, neste caso providenciados pela estatal britânica, e narram, assim, a partida. À reduzida equipe da Gaúcha, formada por Mendes Ribeiro na função de locutor esportivo e Maurício Sirostky Sobrinho improvisado na análise dos jogos, a emissora da Caldas Júnior responde levando os narradores Antônio Carlos Resende e Pedro Carneiro Pereira, o comentarista Ruy Carlos Ostermann e o repórter Adroaldo Streck, todos sob a coordenação de Flávio Alcaraz Gomes. Segundo ele, com um grupo numeroso, a Guaíba surpreende os ouvintes na segunda rodada da Copa.

– Dois dias depois, no estúdio 3A da BBC, quatro tubos são colocados à nossa disposição. E a equipe local, sempre com som local e sempre diretamente da Inglaterra, transmite simultaneamente, numa façanha inédita na cobertura esportiva da Copa, os jogos Itália 2 x 1 Chile, Portugal 3 x l Hungria, Argentina 2 x 1 Espanha e México 1 x 1 França.

Flávio Alcaraz Gomes e o off tube na Copa de 1966
Fonte: FERRARETTO, Luiz Artur. Itinerários de um repórter. In: GOMES, Flávio Alcaraz. Eu Vi!. Porto Alegre. Publicato, 2006. DVD.

A utilização do off tube dissemina-se já durante a própria Copa do Mundo de 1966, após a eliminação do Brasil na primeira fase, ao ser derrotado pela seleção de Portugal por 3 a 1. Mesmo a equipe conjunta da Gaúcha e da Itatiaia, além de diversas rádios do Rio de Janeiro e de São Paulo, adere ao sistema. Apesar da campanha desastrada do selecionado nacional e das dificuldades que enfrenta, a Guaíba consegue superar a sua concorrente direta, como admitiria o próprio Mendes Ribeiro anos depois. De quebra, fica, ainda, com o pioneirismo no uso do off tube. Para os ouvintes da época, também será marcante o quase discurso de Pedro Carneiro Pereira no momento da desclassificação do Brasil.

Pedro Carneiro Pereira e a desclassificação do Brasil na Copa de 1966
Fonte: Pedrinho morreu na primavera. Canoas: Universidade Luterana do Brasil, 2004. DVD.
As várias guerras de Flávio Alcaraz Gomes
2010
Luiz Artur Ferraretto

Flávio Alcaraz Gomes na cobertura da Guerra dos Seis Dias (3 de junho de 1967)
O jornalista, à esquerda e de óculos, participa da entrevista coletiva do ministro israelense da Defesa, Moshe Dayan, à direita.
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.

O jornalista Flávio Alcaraz Gomes, principal repórter do rádio do Rio Grande do Sul, guarda em sua casa no morro Santa Tereza uma relíquia. É o uniforme do exército dos Estados Unidos com o seu nome bordado sobre o bolso esquerdo e a manga da camisa, lembrança da Guerra do Vietnã, dos tempos de enviado especial da Rádio Guaíba e do jornal Correio do Povo. Não foi, de certo, o único conflito que cobriu. É pelo embate entre o sul capitalista e o norte comunista naquele recanto do Oriente que se deve começar a contar as várias guerras de Flávio Alcaraz Gomes. De fato, o Vietnã deveria ser a primeira delas, mas, como vai se ver, os caminhos de um repórter são algo tortuosos e dependem muito do instinto e da ousadia.

O Brasil vivia o terceiro ano do Regime Militar instaurado em 1964. Em uma coluna no Correio do Povo, Flávio lembraria em 2003 aqueles tempos:

Em maio de 1967, saí de Porto Alegre para o Vietnã. A guerra estava no auge, com os americanos ali mantendo 500 mil homens em armas. Viajei a Roma, a fim de obter o visto para entrar no país. No aeroporto de Fiumicino, entretanto, as manchetes dos jornais fizeram com que eu decidisse mudar o rumo: Gamal Abdel Nasser, presidente do Egito, havia ordenado a retirada das forças da ONU, que, como algodão entre os cristais, encontravam-se em Gaza, evitando que árabes e judeus se atracassem. Entre os soldados, um contingente formado inteiramente por gaúchos: o 20º Batalhão Suez. Um dos seus oficiais era meu amigo de infância: o major Breno Vignoli. Voei para o Cairo e, já no dia seguinte, contatei com ele. Iniciava-se ali uma das minhas grandes aventuras.

Assim, de 22 de maio a 15 de junho de 1967, pela primeira vez na história da imprensa e do rádio do Rio Grande do Sul, um jornalista gaúcho movimenta-se com desenvoltura no cenário de um acontecimento que catalisa as atenções em nível mundial, no caso a Guerra dos Seis Dias. Já antes do início do conflito, Flávio Alcaraz Gomes participa das entrevistas coletivas concedidas pelo presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, em 28 de maio, no Cairo, e pelo ministro da Defesa de Israel, Moshe Dayan, no dia 3 de junho, em Tel Aviv, conseguindo, inclusive, fazer perguntas em meio a profissionais de todo o mundo. Fora isto, o enviado especial da Guaíba vai ao front, de onde transmite boletins em estilo particularmente literário, acrescentando um toque pessoal ao que horas antes presenciou e indo, assim, além do simples relato dos fatos:

– Estou voltando de meu primeiro contato epidérmico com a guerra. Estou chegando de uma viagem de dia e meio ao front de combate de Noroeste. Podem, porém, passar muitos anos que jamais hei de esquecer o que vi. Eu vi a guerra em toda a sua sujeira e imundície. Eu vi a maneira bestial com que os homens se matam no campo de batalha. Eu vi. Eu vi cadáveres mutilados dentro das trincheiras, nos campos, nas ruas....

Flávio Alcaraz Gomes na cobertura da Guerra do Vietnã (26 de junho de 1967)
O jornalista desembarca no porta-aviões Costellation, nau capitânia da VII Frota dos Estados Unidos.
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.

Do Oriente Médio, Flávio ruma, a convite do governo dos Estados Unidos, em direção ao seu destino inicial, o Vietnã do Sul, cobrindo, de 18 a 30 de junho, aquela que os anúncios publicados no Correio do Povo insinuam ser “a primeira batalha da terceira conflagração mundial”. Deste modo, pelo lado sul-vietnamita e norte-americano, o repórter sobrevoa a selva, acompanha patrulhas, desce o Song Long Than a bordo de um patrol boat river e visita o porta-aviões Costellation, o maior do mundo na época e nau capitânia da VII Frota dos EUA, em ação no mar da China. Fora isto, participa de uma entrevista coletiva com o general Nguyen Cao Ky Duyen, primeiro-ministro e comandante em chefe das forças armadas do Vietnã do Sul. Para a Guaíba e uma rede de emissoras formada pelas rádios Nacional, do Rio de Janeiro; Bandeirantes, de São Paulo; Itatiaia, de Belo Horizonte; e Carve, de Montevidéu, o jornalista traz diariamente informações, descrevendo o conflito, em um de seus últimos boletins, como uma hopeless war, “uma guerra sem esperança” para os Estados Unidos e seus aliados.


Anúncio da Rádio Guaíba (maio de 1968)
Fonte: Correio do Povo, Porto Alegre, 8 maio 1968. p. 9.

No ano seguinte, Flávio Alcaraz Gomes desloca-se a Paris para cobrir a conferência de paz entre os representantes dos Estados Unidos e do Vietnã do Norte, quando irrompe a rebelião estudantil de maio de 1968. Gravador ao ombro, em meio às bombas de gás lacrimogêneo lançadas pelas Compagnies Républicaines de Sécurité – os destacamentos da polícia nacional francesa – e as pedras arremessadas pelos énrages revoltosos, o enviado da Rádio Guaíba e da Companhia Jornalística Caldas Júnior movimenta-se, registrando as violentas manifestações que atingem a capital francesa.

Flávio Alcaraz Gomes na cobertura da Guerra do Yom Kipur (outubro de 1973)
O jornalista acompanha o avanço de blindados israelenses nas colinas de Golan, território da Síria ocupado por Israel durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967.
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.

Da série de coberturas internacionais realizadas por Flávio Alcaraz Gomes pela Rádio Guaíba, é preciso destacar ainda a da Guerra do Yom Kipur, em 1973, quando, novamente, o jornalista desloca-se ao Oriente Médio para descrever mais um conflito entre árabes e israelenses. Dela, resta uma gravação palpitante. Percorrendo o norte de Israel próximo à fronteira com a Síria, Flávio vai conversando com outros correspondentes de guerra em meio aos sons dos deslocamentos de tropas e veículos da guerra mecanizada. Em um abrigo, eles se protegem das bombas lançadas pela aviação árabe e a voz do repórter sobrepõe-se à dos demais e aos ruídos da forte artilharia:

– Bombardeio da aviação, é aqui. Estão nos bombardeando aqui perto. São duas horas da tarde e nós estamos dentro de um abrigo antiaéreo sob bombardeio... Estão bombardeando aqui em cima de nós. Vamos sair separados, porque se morrer um o outro conta a história. Vamos separados porque, se morrer um, sobram os outros...

Flávio Alcaraz Gomes e as coberturas de guerras.
Fonte: FERRARETTO, Luiz Artur. Itinerários de um repórter. In: GOMES, Flávio Alcaraz. Eu Vi!. Porto Alegre. Publicato, 2006. DVD.

Flávio safou-se desta e de outras. E segue contando histórias, dando testemunhos das guerras do dia a dia.

A Guaíba acompanha a Missão Apollo
2005
Luiz Artur Ferraretto

Flávio Alcaraz Gomes no Centro Espacial Kennedy, em Cabo Canaveral (1973)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.

O ônibus lotado de jornalistas para próximo de uma casamata. Dali, saem três homens: Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins. Horas depois, em um foguete Saturno V, eles vão partir em direção à Lua. O inesperado desvio de rota no transporte até o ponto em Cabo Kennedy, onde vão acompanhar o início da Missão Apollo XI, surpreende os representantes da imprensa, entre eles o enviado especial da Rádio Guaíba e da Companhia Jornalística Caldas Júnior, de Porto Alegre, Flávio Alcaraz Gomes. Como se vissem Cristóvão Colombo a embarcar nas caravelas para o Novo Mundo ou, se alguém preferir, Leif Erikson em seu drakkar viking rumo às terras geladas em que a América encontra o Ártico, cada um dos presentes deixa de lado câmeras cinematográficas, máquinas de fotografia, gravadores, blocos, canetas... Naquele momento, abandonam a simples condição de profissionais e se tornam, acima de tudo, seres humanos. E aplaudem os protagonistas de uma das maiores epopeias da história.

Neste mesmo dia 16 de julho de 1969, ainda carregando esta emoção, Flávio narra a decolagem da Apollo XI ao microfone da Guaíba, sentindo no peito a vibração do próprio foguete que conduz a cápsula:

– Faltam agora – Atenção, ouvintes! – um minuto e cinco segundos para a Apollo decolar. Muita gente, postada aqui na frente, agachada com medo da explosão. Eu me encontro, precisamente, a três milhas de distância em linha reta do foguete Saturno. É o lugar máximo permitido para a presença de homens de rádio, de televisão e de jornal. Há, na verdade, em volta da Apollo, câmeras de televisão embutidas em casamata que permitirão que os espectadores de todo o mundo acompanhem a decolagem da nave. Atenção, ouvintes! Faltam 25 segundos, faltam 24 segundos, faltam 23 segundos... Atenção! Começou a subir a Apollo XI. Chamas a envolvem... É o espetáculo mais emocionante jamais testemunhado por este repórter. Lá, começa a subir. Lentamente, muito lentamente, levemente inclinada para a direita. Ouçam o ruído, ouvintes da Rádio Guaíba...

Dias depois, em 20 de julho, acompanhando a alunissagem pelos televisores do Centro de Imprensa, ele volta à carga, descrevendo para os ouvintes da Guaíba, no Sul do Brasil, e da Carve, no Uruguai, o principal momento do Projeto Apollo:

– Vinte segundos, 19, 18, 17 segundos... Atenção, Brasil! Atenção, Uruguai! Atenção, Brasil, e atenção, Uruguai! A Apollo XI através da Águia acabou de pousar na superfície da Lua.

E em seguida:

– Agora sim... Ali o pé dele, o pé direito descendo, muito mais rapidamente do que na simulação, o pé esquerdo em seguida. Tocou o pé na Lua. Ali está, ali está a sombra do primeiro homem a desembarcar no solo lunar. Tomem nota, ouvintes do Brasil. São 23h57 aqui nos Estados Unidos. O comandante Neil Armstrong está desembarcando no solo da Lua. Outra perna, a esquerda. Ele, agora, parece que se firmou na superfície lunar. Nós divisamos apenas a sua silhueta, mas não há dúvida nenhuma: é uma silhueta de um bípede, de um homem, de um homem como nós, de um representante da espécie humana tomando posse, em nome da humanidade, da Lua.

Para os ouvintes do Sul, esta última frase vai rivalizar então com a do próprio Neil Armstrong: “Um pequeno passo para o homem, um grande passo para a humanidade”. A do astronauta, no entanto, é peça do bem montado marketing dos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria; a do Flávio, um arroubo, acabaria tornando ainda mais inesquecível aquela transmissão.


Flávio Alcaraz Gomes na cobertura da Apollo XI (outubro de 1973)
Fonte: FERRARETTO, Luiz Artur. Itinerários de um repórter. In: GOMES, Flávio Alcaraz. Eu Vi!. Porto Alegre. Publicato, 2006. DVD.