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A inauguração da Rádio Guaíba
2006
Luiz Artur Ferraretto

Arlindo Pasqualini discursa na inauguração da Rádio Guaíba (30 de abril de 1957)
Fonte: Correio do Povo, Porto Alegre, 1º maio 1957. p. 30.

Faltando poucos minutos para o meio-dia, a edição de sábado da Folha da Tarde, o principal vespertino do Rio Grande do Sul, acaba de rodar e um grupo de repórteres e redatores do jornal, junto com alguns colegas do Correio do Povo, comprime-se do outro lado do vidro que separa o estúdio do operador de áudio. Ouve-se, então, um arranjo especialmente preparado na Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, para o tradicional Boi Barroso, a melodia das trovas tradicionais do cancioneiro gaudério. Com a voz embargada pela emoção, o locutor Aden Rossi anuncia, na sequência, impondo silêncio entre os colegas apinhados no corredor do segundo andar da rua Caldas Júnior, número 219:

– Senhoras e senhores, boa tarde. A partir deste momento, passa a operar regularmente através das suas emissoras de ondas médias, ZYU-58, em 720 quilociclos, e em ondas curtas de 25 e 49 metros, 11.785 e 9.865 quilociclos, a Rádio Guaíba, de Porto Alegre, Brasil. A Rádio Guaíba encetará, a partir deste momento, a sua programação musical de hoje, sábado, 20 de abril de 1957. Como primeiro número, ouviremos, por Frank Pourcell e sua orquestra, Three Coins in the Fountain...

Three Coins in the Fountain, de Frank Pourcell, com Franck Pourcell e sua orquestra

Não é ainda a inauguração oficial, como já sabem desde o início da manhã os leitores do Correio do Povo:
Acontece que, nos dez dias que distam entre uma data e outra, a Guaíba não colocará publicidade alguma em seus programas, transmitindo exclusivamente música para os sintonizadores dos 720 quilociclos. Posteriormente, seguindo religiosamente a linha que se traçou, jamais a publicidade ultrapassará de 1/3 do período de transmissões. Assim, valoriza ao máximo as mensagens comerciais e propicia aos sintonizadores espaços que, realmente, possam ser ouvidos.

Como registra o mesmo jornal no dia seguinte, aos primeiros ouvintes da Guaíba já chama a atenção a qualidade do som da nova emissora, cuja parte técnica está sob a responsabilidade de Homero Carlos Simon, contratado quatro anos antes. Desde 1953, o engenheiro vinha planejando e orientando a instalação dos transmissores colocados na ilha da Pintada de forma a aproveitar a conformação geográfica do local – o espelho d’água formado pelo lago Guaíba – para melhorar as irradiações. Nacionalista militante, o diretor técnico da emissora adquire equipamentos e componentes eletrônicos em sua grande maioria fabricados no Brasil, que são alterados, ajustados e remontados sob a sua supervisão, obrigando, por vezes, um trabalho redobrado, como ele mesmo lembraria anos depois:

Foi uma das lutas, das mais ingratas, mas ao final vencedora, de quatro anos seguidos, pelos problemas técnicos que tivemos de enfrentar para a instalação de transmissores e torres.

A entrada no ar da rádio segue um cronograma planejado pelo diretor da emissora, Arlindo Pasqualini, e aprovado por Breno Caldas, o proprietário do Correio do Povo e da Folha da Tarde, jornais aos quais, então, se junta a Guaíba. Assim, às 6h da quinta-feira, 25 de abril, a ZYU-58 começa a transmitir inclusive com a sua síntese noticiosa, o Correspondente Renner, lido, na época, por Ronald Pinto. A aproximação com os ouvintes vai se dando sem sobressaltos, de modo que, na semana seguinte, nem a chuva ou o frio daquela terça-feira, dia 30, impediriam que, uma hora e meia antes da inauguração oficial, marcada para as 20h30, o Theatro São Pedro – palco cuidadosamente escolhido – já estivesse lotado. Contrastando com a emoção do diretor de broadcasting, Jorge Alberto Mendes Ribeiro, e da locutora Jalma de Arroxelas, que o apresentam ao público, Arlindo Pasqualini transmite serenidade ao discursar:

– Senhoras e senhores. A Rádio Guaíba, de Porto Alegre, que ora se inaugura aqui no Theatro São Pedro, com a presença para nós tão grata e tão honrosa de todos vós, constitui um empreendimento novo, mas que, embora novo, nasce sob o signo de uma tradição. É que sua vinculação a dois grandes jornais, o Correio do Povo e a Folha da Tarde, lhe traça implicitamente os rumos e a orientação. Tal orientação, como sabeis, é de absoluta independência, a qual tem para nós seus limites naturais e intransponíveis nos princípios da moral e nos imperativos do bem comum. Acerca de nossa programação normal, que deverá ter início amanhã, o que vos posso adiantar, em poucas palavras, é que ela não terá o luxo das grandes montagens. Mas, mesmo quando singela, jamais cairá na vulgaridade.

Mendes Ribeiro e Arlindo Pasqualini na inauguração da Rádio Guaíba (30 de abril de 1957)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.

Proferido nas dependências do mais sofisticado teatro da cidade, o pronunciamento de Pasqualini não poderia mesmo deixar de ser um tanto solene. Solenidade que ultrapassa os limites do discurso em si e do estudado uso da segunda pessoa do plural. Mais do que tudo, o Major, apelido do jornalista desde os tempos da Revolução de 1930, lança as bases de uma programação sóbria e, por vezes, sisuda, tradicionais marcas do Correio do Povo¸ conferindo, ainda que por uma relação quase gregária, uma boa dose de credibilidade ao novo empreendimento de Breno Caldas.

A escolha do Theatro São Pedro como palco do programa desta noite de gala obedece, portanto, a uma lógica. Sugerida pelo radialista e publicitário Ruy Figueira e acatada pelo diretor comercial Flávio Alcaraz Gomes, a ideia é utilizar a casa de espetáculos da elite porto-alegrense para indicar que uma emissora diferente está surgindo. Armindo Antônio Ranzolin, assistente da direção de 1976 a 1984, dá uma boa definição desta nova forma de fazer rádio, conhecida, no mercado do Rio Grande do Sul, como estilo ou padrão Guaíba:

Numa época em que as suas concorrentes ainda queriam fazer de tudo um pouco, a Rádio Guaíba surgiu com uma proposta nova, transmitindo notícias, esportes, música e programas culturais de muito bom gosto. Impondo um rádio ao vivo, até mesmo nos intervalos comerciais, a Guaíba teve a vantagem de gerar sempre um som limpo. Cuidando dos conteúdos e com uma técnica avançada, a Rádio Guaíba fez com que a voz de seus locutores e repórteres chegasse forte aos ouvintes, mesmo quando transmitida de bem longe. Foi assim que se construiu o padrão Guaíba, resultado do trabalho de anos e anos e realizado por muitos e muitos profissionais. Por tudo isso, a Rádio Guaíba fez escola e se transformou num marco na radiofonia brasileira.

De certa forma, este novo parâmetro introduzido pela Guaíba recupera um pouco das pretensões culturais da elite porto-alegrense comuns às sociedades radiofônicas da década de 1920. Deste modo, logo após o discurso de Pasqualini, encerrado com a garantia de que a emissora será “uma voz a serviço do Rio Grande”, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, sob a regência do maestro Pablo Komlos, apresenta um cuidadoso repertório com trechos mais conhecidos de peças eruditas. Na sequência, Yara Bernette, uma das mais importantes pianistas do país em todos os tempos, interpreta trechos de obras de Wolfgang Amadeus Mozart, Johann Sebastian Bach, Ferruccio Busoni, Camargo Guarnieri, Claude Debussy, Franz Liszt e Frédéric Chopin. Encerrando esta “noitada de arte”, como define o Correio do Povo no dia seguinte, o Coro Orfeônico Júlio Kunz, da Sociedade Aliança de Novo Hamburgo, faz a vocalização do Boi Barroso, trilha musical que começa a ser conhecida como a assinatura sonora da Rádio Guaíba.

Apresentação da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre na inauguração da Rádio Guaíba (30 de abril de 1957)
Fonte: Correio do Povo, Porto Alegre, 1º maio 1957. p. 14.

Yara Bernette e o Coro Orfeônico Júlio Kunz, da Sociedade Aliança de Novo Hamburgo (30 de abril de 1957)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.


O Guarani, com a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, sob a regência do maestro Pablo Komlos (30 de abril de 1957)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.

A pianista Yara Bernette (30 de abril de 1957)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.


Boi Barroso, com o Coro Orfeônico Júlio Kunz, da Sociedade Aliança de Novo Hamburgo (30 de abril de 1957)
Primeira apresentação da trilha musical que identifica a Rádio Guaíba.
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.

Primeira rádio do Rio Grande do Sul gestada dentro de uma empresa dedicada ao jornalismo, a estação da família Caldas tem a sua personalidade definida com cuidado, gerando o chamado estilo Guaíba. Tudo consequência de um trabalho em que interferem diversos profissionais. O diretor técnico, Homero Carlos Simon, garante uma qualidade de som cristalino que, já nas transmissões iniciais, diferencia a emissora das demais. Esta particularidade é ressaltada pelo padrão de voz, algo impostado, mas de extrema correção e clareza na pronúncia, definido por Jorge Alberto Mendes Ribeiro, o responsável pela área artística da rádio. O assistente da direção de broadcasting, Osmar Meletti, junto com o seu auxiliar Fernando Veronezi, aproveita também esta vantagem competitiva na programação musical, baseada em comedidas orquestrações, bem ao gosto de Breno Caldas. Outro fator, ainda, serve para reforçar a sobriedade das irradiações: todos os comerciais são lidos ao vivo, com a Guaíba negando-se a aceitar spots e jingles. Assim, na tabela de preços da ZYU-58 vai constar, além do valor dos reclames, a frase “A Rádio Guaíba não aceita anúncios gravados”, o que causa um impacto nas agências da época, como registra o então diretor comercial, Flávio Alcaraz Gomes, no 15° aniversário da emissora:

A Rádio Guaíba automaticamente ficou afastada das grandes verbas de propaganda e inúmeros experts de Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo não nos deram mais de dois meses de existência. Apesar de tudo, o bom gosto de nossa programação, a alta qualidade de nosso som, que logo se consagraria como o famoso som local da Guaíba, e o impecável padrão de nossos locutores fizeram com que, quebrando todos os tabus, a Guaíba fosse conquistando o seu lugar ao sol e galgando, um a um e a duras penas, os degraus de uma liderança nacional hoje inconteste.

Quando de sua inauguração, não podendo fugir ao espetáculo radiofônico ainda em voga, a Guaíba organiza, mesmo assim, uma programação diferenciada. Baseando-se em conceitos ouvidos de Jesuíno Antônio D’Ávila, anos antes diretor da Farroupilha, e influenciado pelo rádio europeu e norte-americano, Flávio Alcaraz Gomes cria atrações como Trabalhando com Música, inspirado no Travaillant en Musique, da Radiodifusion Française, e Dê Asas à sua Inteligência, um quiz show réplica do The $64,000 Question, atração televisiva da Columbia Broadcasting System, dos Estados Unidos. Na dramaturgia, o destaque fica para o Grande Teatro Orniex, dirigido por Jorge Muccilo, nos domingos, às 21h, encenando, por vezes, clássicos da literatura, como Moby Dick, de Herman Melville. O final de tarde, de segunda a sexta, é, no entanto, das crianças, com os programas Histórias do Mestre Estrela, às 17h30, com Antônio Gabriel de Moura Coelho interpretando o personagem-título, e o Teatrinho Infantil Cacique, às 18h05, uma parceria com a revista Cacique, então publicada pela Secretaria Estadual da Educação. Como resultado, segundo Flávio Alcaraz Gomes, a rádio atinge a fatia de público pretendida:

O veredito popular consagrou, de imediato, a Guaíba como uma emissora sóbria, noticiosa, musical e herdeira das tradições de sua empresa-mãe, respeitável. O fato de emendar permanentemente duas músicas e de não veicular os estridentes jingles e spots atribuiu-lhe audiência cativa entre as elites.

Em 4 de outubro de 1957, a Guaíba, em um feito tecnológico para a época, capta o sinal do Sputnik, o primeiro satélite artificial da história, lançado horas antes pela União Soviética. A transmissão daquele bip-bip marca, fora a audácia técnica do engenheiro Homero Carlos Simon, o início de uma série de pioneirismos da rádio neste campo. No ano seguinte, chave para compreender o sucesso da emissora em termos de notícias e programação esportiva, ocorre a irradiação do Campeonato Mundial de Futebol, realizado na Suécia, e, um pouco depois, a cobertura das eleições estaduais. Na transmissão do título conquistado pela seleção do Brasil, Flávio Alcaraz Gomes, com o apoio do diretor técnico da Guaíba, introduz o uso de transmissores em single side-band (SSB), contando com a estrutura da Postes Télégraphes et Téléphones, de Berna, na Suíça. Por sua vez, anunciando com precisão e de forma antecipada o resultado do pleito para o governo do Rio Grande do Sul, a equipe comandada por Amir Domingues faz a primeira apuração paralela da história do rádio brasileiro. Com o fim do radioteatro da Guaíba no início dos anos 1960, a ZYU-58 adota o formato música-esporte-notícia em sua programação, no que também é uma das pioneiras no país.


Correspondente Renner anuncia o lançamento do Sputnik, primeiro satélite artificial da Terra (outubro de 1957)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.
Flávio Alcaraz Gomes e as conquistas da Guaíba
2007
Luiz Artur Ferraretto

Flávio Alcaraz Gomes, em entrevista a Joabel Pereira, relembra os principais momentos de sua carreira (20 de maio de 2007)
Fonte: TV GUAÍBA. Fórum. Porto Alegre, 20 maio 2007. Programa de televisão.

Lá pelas tantas em sua longa e algo atribulada vida, o jornalista – ele prefere a palavra “repórter” – Flávio Alcaraz Gomes cismou em andar pelos campos dos antepassados. Era a volta às origens. Dizem que todo ibérico tem um lado Quijote e outro Sancho. Talvez, do primeiro, tenham vindo algumas aventuras perseguidas nos horizontes do Flávio. A maior delas, sem dúvida, a da Guaíba, aquela das grandes conquistas, das coberturas internacionais, do som privilegiado e de um profundo bom gosto. Esta é a rádio do Flávio, diretor comercial lá pelos primeiros anos da emissora ligada, então, aos jornais Correio do Povo e Folha da Tarde e, tempos depois, à Folha da Manhã. Diretor comercial, diga-se de passagem, algo metido para os assépticos padrões administrativos de hoje. Diretor comercial que pensa e interfere muito com várias bem-sucedidas ideias no dia a dia da rádio e criações na programação.

É dele o Trabalhando com Música, inspirado no Travaillant en Musique, da Radiodifusion Française, que o Flávio conheceu nos anos passados às margens do Sena, quando foi descobrir se o tradutor brasileiro de Ernest Hemingway estava certo ou não. Afinal, tanto faz! A moveable feast, no original em inglês, ou Paris é uma Festa, em português. Ah, e o Dê Asas à sua Inteligência, um quiz show réplica do The $64,000 Question, da CBS, dos Estados Unidos. Como a Guaíba não possuía auditório, o programa de perguntas e respostas ocupava o intervalo entre a primeira e a segunda sessões das noites de terça-feira no Cinema Imperial. E lá está a Cidade Luz de novo. Não havendo verba para prêmios milionários, o Flávio negociou passagens aéreas com a Panair do Brasil. A cada etapa ultrapassada, o patrocinador oferecia viagens para capitais de estados cada vez mais distantes até chegar ao prêmio máximo – e internacional –, Paris, com as despesas de transporte aéreo e de estada pagas. Apresentado por Jorge Alberto Mendes Ribeiro, o Dê Asas é, na época, como o Flávio lembraria, na sua coluna do Correio do Povo, “um sucesso de arrasa-quarteirão”.

São só dois exemplos. Óbvio que tem mais. Há a cobertura da Copa do Mundo de 1958, o som da torcida sueca na final, ecoando no estádio – “Eia Eia Svenska! Eia Eia Sverige!”– e chegando ao Brasil pela novata Guaíba, que mal completara um ano. E, depois, gol a gol, a primeira conquista, quatro anos de Taça Jules Rimet em terras tupiniquins. E vieram outras copas, outros conflitos, menos alegres, menos festivos... Sangue nas areias do Oriente Médio. Guerra do Seis Dias. Sangue nas selvas asiáticas. Guerra do Vietnã. Pedras e gás lacrimogênio nas ruas de Paris. Paris, maio de 1968. Uma fantástica conquista, o ser humano na Lua, visto por um pequeno monitor no centro de imprensa montado pela Nasa:

– Nós divisamos apenas a sua silhueta, mas não há dúvida nenhuma: é uma silhueta de um bípede, de um homem, de um homem como nós, de um representante da espécie humana tomando posse, em nome da humanidade, da Lua!

E mais guerras, como a do Yom Kipur. Tensão em Montevidéu com o sequestro do cônsul Aluísio Dias Gomide. Ah, e os programas. Quem viveu no final dos anos 1960, primeira metade dos 1970, lembra, com certeza, do 2001. O Flávio, esperto como só ele, aproveita o sucesso do filme 2001: uma Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick, para dar nome a um quase documentário de teor didático. Explora recursos radiofônicos e, por vezes, recorre à entrevista como único instrumento. Marca época a abertura do 2001 com uma espécie de bordão do programa, em texto e sonoplastia, fechando a breve introdução do assunto do dia:

– ...para os que nos ouvem hoje e para os que nos ouvirão mesmo depois de...

E, após uma pausa, para que se escute o mesmo trecho de Also Sprach Zarathustra, de Richard Strauss, usado nas cenas iniciais da produção cinematográfica de Kubrick:

– ... 2001.

Tem também o Agora, uma revolução no rádio do Rio Grande do Sul, com o Flávio dividindo microfone com Adroaldo Streck e introduzindo, no cotidiano das emissoras do Rio Grande do Sul, a participação – ao vivo ou gravada – de entrevistados, repórteres e correspondentes, por telefone ou no estúdio.

Pois é, quando a Guaíba surgiu o Flávio estava lá no Theatro São Pedro, assistindo à inauguração com seus quase 30 anos de idade. Hoje, cinco décadas depois, segue, com a mesma vitalidade, de ficar nervoso em casa nos feriados e finais de semana, quando não comanda o seu Guerrilheiros da Notícia. Segue acordando cedo, descendo o morro Santa Tereza, onde está sua casa, e, de segunda a sexta, fazendo a história dos protagonistas dos fatos, dos ouvintes e de si próprio. Com a mesma vitalidade de sua coluna no Correio do Povo e da outra versão dos Guerrilheiros, a da televisão. Prova de que, naquela viagem de volta às raízes ibéricas, seu primo Constantino tinha mesmo razão. Como ele dizia, os Alcaraz são mesmo de buena madera. E sem o Flávio não haveria um porquê de ser a Guaíba, a dos 720 Khz com aquele som que só a Guaíba tem, uma tradição do Rio Grande do Sul.
Homero Carlos Simon e o som perfeito da Guaíba
2007
Luiz Artur Ferraretto


Homero Carlos Simon (junho de 1958)
Fonte: Correio do Povo, Porto Alegre, 29 jun. 1958. p. 34.

Era a velha Guaíba, aquela dos primeiros anos de um rádio mais sóbrio no Rio Grande do Sul, de um rádio dosando notícias, esporte, música e algumas atrações de auditório e de radioteatro. Era a emissora com um som diferenciado, mais claro, mais nítido, a do engenheiro Homero Carlos Simon. Desde 1953, quatro anos antes, portanto, da inauguração da estação ligada aos jornais Correio do Povo e Folha da Tarde, ele vinha planejando e orientando a instalação dos transmissores colocados na ilha da Pintada de forma a aproveitar, para melhorar as irradiações, a conformação geográfica do local, o espelho d’água formado pelo lago Guaíba, na época chamado de rio.

Em 1942, ainda estudante, Homero Carlos Simon começa a trabalhar como um dos técnicos da Rádio Sociedade Gaúcha. Mesma emissora para qual idealizaria o melhor auditório que Porto Alegre já viu, o do 11º andar do Edifício União, inaugurado no início dos anos 1950. Tanta qualidade só podia fazer com que Simon fosse com frequência consultado por seus colegas nas audácias dos primeiros tempos daquela velha Guaíba. É a ele que Amir Domingues recorre para identificar os circuitos de radiocomunicação a serem usados na transmissão de dados de todo o estado na cobertura das eleições de 1958, parceria repetida quatro anos depois em nível nacional. É nele que Flávio Alcaraz Gomes busca amparo técnico para esquematizar a recepção dos sinais enviados da Suécia na Copa do Mundo. Tudo naqueles tempos em que falar de Porto Alegre a São Paulo era uma dificuldade quase instransponível em termos de telefonia, que dirá usando ondas eletromagnéticas.

No plano político, o mais importante engenheiro da história do rádio no Rio Grande do Sul simpatiza com o Partido Trabalhista Brasileiro. No governo Brizola, integra, assim, a Comissão Estadual de Energia Elétrica, responsável pela estatização da subsidiária gaúcha da The Electric Bond and Share Company, levada a cabo em 13 de maio de 1959. No início da década seguinte, preside o Conselho Estadual de Comunicações, órgão por onde passa a encampação, em 16 de fevereiro de 1962, das instalações da Companhia Telefônica Nacional, controlada pela International Telegraph and Telephone Company. É este engenheiro competente afinado ideologicamente com o trabalhismo o responsável técnico pela formação da Rede da Legalidade, em agosto e setembro de 1961, porta-voz radiofônico da mobilização popular que garante a posse de João Goulart.

Sinal do Sputnik, satélite artificial lançado pela União Soviética (outubro de 1957)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.

De Homero Carlos Simon, pode-se ainda destacar o caráter visionário, de alguém que sabia como poucos identificar o potencial de novas tecnologias. Em 4 de outubro de 1957, por exemplo, a Guaíba, em um feito tecnológico para a época, capta o sinal do Sputnik, o primeiro satélite artificial da história, lançado horas antes pela União Soviética. A transmissão daquele bip-bip marcava uma audácia técnica do engenheiro. Vinte anos depois, como registra depoimento de Simon existente no acervo do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, ele integrou um grupo de pesquisa com uma proposta muito à frente de sua época. Queria conectar a capital à cidade de Venâncio Aires, em um projeto pioneiro de TV a cabo, os sinais chegando até lá por microondas:

  Levaríamos todos os canais de Porto Alegre, de televisão, de entretenimento, os convencionais, e lá distribuiríamos à população. E, ao mesmo tempo, também implementaríamos três canais destinados à educação: um canal que operaria permanentemente com material de nível primário; de nível secundário em outro canal; e de nível superior e de educação continuada no terceiro canal.

Como se sabe, a TV a cabo só entraria com força no mercado quase 20 anos depois. Daí, a gente ficar imaginado quantos teriam usufruído em termos de lazer e de educação daquele projeto, mais uma audácia do engenheiro Homero Carlos Simon, aquele, o da velha Guaíba.

Homero Carlos Simon (12 de junho de 1977)
Fonte: Acervo do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.
Osmar Meletti, Fernando Veronezi e a música da Guaíba
2007
Luiz Artur Ferraretto

Osmar Meletti (1958)
Fonte: Revista TV, Porto Alegre, ano 5, p. 3, dez. 1958.

O gosto musical era mesmo o de Breno Caldas, mas a precisa escolha de intérpretes e orquestrações passava por Osmar Meletti e Fernando Veronezi. Desta combinação, em cinco décadas, a música da Guaíba transforma-se em um estilo próprio de veiculação, um segmento à parte, corporificado nos últimos anos na programação da emissora em frequência modulada inaugurada em 1980.

Na velha Guaíba, aquela dos primeiros anos, a seleção musical baseada em orquestrações conferia ainda mais credibilidade na associação da emissora ao tradicional e austero Correio do Povo. Daquela música da Guaíba, denominação genérica deste tipo de conteúdo na então ZYU-58, não fazia parte nem mesmo o sucesso do quarteto inglês The Beatles, uma novidade na primeira metade da década de 1960. De fato, as canções do grupo vão ser executadas somente após uma autorização do diretor da rádio, Arlindo Pasqualini, e, assim mesmo, incluídas apenas nos programas em que Meletti ou Veronezi, além de rodarem músicas, fazem comentários sobre o assunto e entrevistam artistas locais ou de passagem pela cidade, inclusive do cinema, do teatro, da literatura e das artes em geral.

A mais importante destas atrações estreia em março de 1963. É o Discorama, apresentado por Osmar Meletti. Na abertura, serve de característica ao programa O Barquinho, com a música de Roberto Boscoli sem a letra de Roberto Menescal transformada em sucesso por João Gilberto. Discorama vai marcar as tardes de segunda a sexta-feira, trazendo para o estúdio gente como o maestro francês Paul Mauriat, que chega a dedilhar músicas, ao vivo, no piano da rádio, ou o cantor italiano Sergio Endrigo, a responder em português às questões propostas por Meletti.

Com frequência, o radialista, abrindo espaço sempre à cultura brasileira, convida, também, intérpretes e compositores nacionais – Agostinho dos Santos, Beth Carvalho, Carlos Lyra, Clara Nunes, Dalva de Oliveira, Dick Farney, Elis Regina, Elizete Cardoso, Lupicínio Rodrigues, Tito Madi... –, além de ser o responsável pela transmissão do primeiro grande festival de música regionalista, a Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul, de Uruguaiana. O Discorama, fato raro para um programa dedicado à música, conquista ainda o primeiro lugar do Prêmio ARI de Jornalismo no ano de 1977 com a homenagem ao escritor gaúcho Erico Verissimo.

Programa Discorama em homenagem a Osmar Meletti (abril de 1979)
Fonte: Acervo do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.

Fernando Veronezi (1997)
Fonte: Correio do Povo, Porto Alegre, 21 abr. 2002, p. 20.

Colega de Meletti durante anos, inclusive na Gaúcha, de onde ambos se transferiram para a Guaíba, Fernando Veronezi, como registrou o Correio do Povo nos 45 anos da emissora, transformou-se em uma espécie de guardião da memória musical da rádio. Em várias ocasiões, como em 1961, 1962 e 1963, recebeu o prêmio de Melhor Sonoplasta. No ano de 1994, foi condecorado pelo prefeito da capital gaúcha, Tarso Genro, com a medalha Cidade de Porto Alegre, em função do seu trabalho de pesquisa musical.
Responsável pela programação da Guaíba FM, para onde a música se transferiu com o crescimento do jornalismo nos 720 kHz da estação em amplitude modulada, Veronezi parece fazer jus a uma frase sua:

Nasci dentro de uma vitrola.

É claro que não se tratava de uma vitrola qualquer, a julgar pela Música da Guaíba, que se escreva assim mesmo, com maiúscula a indicar o denominativo de um estilo próprio, aquele de Osmar Meletti e de Fernando Veronezi, apresentador neste ano de 2007 do seu Noturno Guaíba.

Encerramento do Noturno Guaíba (julho de 1985)
Fonte: Acervo particular.
1958: o Rio Grande do Sul vai à Copa com a Guaíba
2006
Luiz Artur Ferraretto

Anúncio da Rádio Guaíba (junho de 1958)
Fonte: Folha da Tarde, Porto Alegre, 28 jun. 1958. p. 15.

Oito de junho de 1958, direto do Estádio Rimervallen, em Uddevalla, a voz grave de Mendes Ribeiro anuncia, com uma qualidade de áudio muito superior aos parâmetros da época e ultrapassando a distância de 17.000 km a separar o Norte da Europa do Sul da América Latina:

– Alô, Brasil. Neste momento, está formada a Rede Ipiranga dos Esportes, comandada pelas emissoras brasileiras da Rádio Guaíba, de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, falando diretamente de Uddevalla, na Suécia, local do primeiro encontro do Brasil na Copa do Mundo, frente à Áustria. Emissoras brasileiras da Rádio Guaíba, de Porto Alegre: ondas médias de 720 quilociclos, ZYU-58; ondas curtas de 25 metros, 11.785 quilociclos, ZYU-61; ondas curtas de 49 metros, 5.965 quilociclos, ZYU-60; e, ainda, a emissora da PTT, GXX–22; Rádio Guarujá, de Santa Catarina; e mais de 20 emissoras do Rio Grande do Sul.

Jorge Alberto Mendes Ribeiro e Flávio Alcaraz Gomes na cobertura da Copa do Mundo de 1958 (junho de 1958)
Fonte: Folha da Tarde Esportiva, Porto Alegre, 29 jun. 1958. p. 20.

Nos anos 1950, quando mal se conseguia falar por telefone da capital do Rio Grande do Sul com o Rio de Janeiro ou com São Paulo, ganha relevo o trabalho realizado pela ZYU-58 – Rádio Guaíba, de Porto Alegre, por iniciativa de Flávio Alcaraz Gomes e sob o patrocínio da Ipiranga S.A. Companhia Brasileira de Petróleos, na VI Copa Jules Rimet, o campeonato mundial de futebol realizado em 1958 na Suécia. Como observa Octavio Augusto Vampré, em Raízes e Evolução do Rádio e da TV, até então nenhuma emissora do Rio Grande do Sul tivera “o atrevimento de concorrer, abertamente, com o rádio do centro do país”. É a Postes Télégraphes et Téléphones (PTT), companhia estatal da Suíça, a responsável por tornar possível a irradiação intercontinental, utilizando uma tecnologia até então desconhecida no Brasil: o single side-band (SSB), ou banda lateral única, que seleciona a faixa lateral com menor interferência no ponto de irradiação, suprimindo as demais e gerando, desta maneira, um sinal de melhor qualidade. Da Suécia, na Região Norte da Europa, à sede da PTT, em Berna, no Centro-Oeste do continente, o sinal vai por via telefônica e, de lá até o Brasil, por ondas eletromagnéticas de SSB. Além disto, o sistema montado permite à equipe da Suécia ter retorno do estúdio da Guaíba em Porto Alegre, interligando os profissionais daqui com os que estão lá.

Para que Mendes Ribeiro fale com a clareza do som local, expressão que a Guaíba passa a utilizar tempos depois, valorizando a qualidade das transmissões que coloca no ar, contribui também a atuação do engenheiro Homero Carlos Simon. É ele quem, com o apoio da equipe técnica sob sua direção, retifica ao longo das irradiações a chamada frequência ótima de trabalho, uma exigência do sistema de transmissão em single side-band, que, devido à distância a ser vencida, não é passível de cálculo preciso. A influência da luz solar sobre as ondas eletromagnéticas constitui-se em outro complicador, uma vez que existe uma diferença de fuso horário: é noite na Suécia e meio da tarde no Brasil. Para garantir a qualidade sonora optando sempre pela melhor frequência de operação, a Guaíba tem de utilizar dois canais, como o próprio Simon esclarece então nas páginas do jornal Folha da Tarde:
Enquanto a transmissão se estiver efetuando através de um canal, o outro canal estará sendo ajustado para acompanhar as alterações da ionosfera, visto que a determinação das frequências ótimas de trabalho, no nosso caso, não é passível de cálculo. E, quando o canal em uso começar a apresentar algum defeito, automaticamente a transmissão passará a ser feita através de outro canal; e o canal defeituoso será imediatamente ajustado.
Sob a supervisão do engenheiro são construídas as antenas rômbicas, cuidadosamente apontadas para Berna, necessárias à recepção das emissões da PTT e à geração do sinal de retorno. Há que observar, ainda, o ineditismo da utilização deste tipo de tecnologia à época no Brasil, que dificulta, por inexperiência, as operações e exige apurados conhecimentos eletrônicos.

Como apoio a Jorge Alberto Mendes Ribeiro e Flávio Alcaraz Gomes, a direção da empresa destaca Francisco Antônio Caldas – filho de Breno Caldas – e Manuel Dias, enviado especial do jornal Folha da Tarde. Na Europa, é acertada, ainda, a participação de Otávio Muniz, cronista esportivo paulista com passagens, entre outras, pelas rádios América, Difusora, Panamericana e Tupi. Um exemplo do trabalho realizado por esta equipe aparece descrito na Folha da Tarde de 25 de junho de 1958, dia seguinte à semifinal entre Brasil e França, jogo no qual Mendes Ribeiro cunha uma expressão marcante no restante de sua carreira como narrador esportivo:
Como, no primeiro tempo, o juiz da contenda estivesse envidando esforços para desclassificar a seleção canarinho, Otávio Muniz, ao ocupar o microfone da U-58 para os comentários de meio-tempo, não poupou palavras para condenar a atuação do árbitro. Mendes Ribeiro também condenou tal atuação, com palavras causticantes, expressando seu pensamento numa feliz tirada: “Deus não joga, mas fiscaliza”. E esse comentário veio a propósito da sensacional reação da equipe brasileira, que encerrou o jogo com o marcador em cinco a seu favor, enquanto os franceses conseguiram marcar apenas dois tentos. 
[...] Informando os ouvintes da Guaíba sobre o jogo, pelas semifinais, que se desenvolvia em Gotemburgo, atuou Flávio Gomes, com informações precisas sobre os tentos conquistados por ambos os lados na contenda Suécia x Alemanha, da qual a seleção de casa saiu-se vitoriosa. Além de fornecer informes técnicos sobre o desenrolar da partida, Flávio Gomes narrou, ainda, para os ouvintes da grande Rede Ipiranga dos Esportes, comandada pela Rádio Guaíba, de Porto Alegre, as reações dos franceses que assistiam ao jogo Suécia x Alemanha, para não sofrer em Estocolmo. A voz de Flávio foi vibrante quando informou: “Os franceses choram em Gotemburgo”.
Do estúdio da Guaíba em Porto Alegre, Amir Domingues e Antônio Carlos Porto reproduzem as gravações dos gols e descrevem a repercussão do jogo na capital gaúcha, aproveitando, ainda, o recurso, até então inédito, da transmissão em duas vias para trocar impressões com Mendes Ribeiro sobre o desempenho da Seleção Brasileira. Graças a um sistema de alto-falantes instalado pela equipe técnica da rádio, a população aglomera-se em frente ao prédio da emissora e no Largo dos Medeiros para acompanhar a partida, fato que vinha se repetindo nas demais irradiações, mas que atinge proporções multitudinárias na decisão contra a Suécia no dia 29 de junho, em especial no último minuto da partida, quando Pelé – sabe-se lá por que chamado de Pelê por Mendes – marca o quinto gol brasileiro na vitória por 5 a 2 contra a Suécia.

À transmissão da Guaíba, envolvendo ainda 23 emissoras do interior do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, integrantes da chamada Rede Ipiranga dos Esportes, soma-se o interesse do público pelo futebol, crescente desde a Copa disputada, oito anos antes, em território brasileiro, mas frustrado pela derrota do selecionado nacional. Interesse que chega ao nível, até então, máximo com a conquista do primeiro título mundial, a coincidir com o sucesso da estrutura de irradiação montada pela ZYU-58. Até porque a Gaúcha, concorrente direta em matéria de cobertura esportiva, apenas reproduz o sinal gerado pela Nacional, do Rio de Janeiro, embora a estação carioca tenha aceito integrar Guilherme Sibemberg à sua equipe. A partir daí, e até a melhoria da rede de telecomunicações, equipamentos de single side-band incorporam-se às transmissões de longa distância realizadas pela Guaíba, que, na Europa, passa a contar sempre com o apoio da PTT. Para o público, após a Copa, em 1958, fica a impressão sintetizada numa frase de Flávio Alcaraz Gomes, o artífice da ida de um microfone gaúcho à Suécia:
Foi a vitória do Brasil e a vitória da Guaíba!



Flávio Alcaraz Gomes entrevista Amir Domingues e Jorge Alberto Mendes Ribeiro (4 de maio de 1997)
Trecho do programa Fórum alusivo aos 40 anos da Rádio Guaíba.
Fonte: TV2 GUAÍBA. Fórum. Porto Alegre, 4 maio 1997. Programa de televisão.

Flávio Alcaraz Gomes (8 de dezembro de 2004)
Trecho de entrevista não utilizado no documentário Itinerários de um repórter, realizado pelo Centro de Produção Audiovisual da Universidade Luterana do Brasil.

Fonte: Acervo particular.

Flávio Alcaraz Gomes (6 de janeiro de 2005)
Trecho de entrevista não utilizado no documentário Itinerários de um repórter, realizado pelo Centro de Produção Audiovisual da Universidade Luterana do Brasil.
Fonte: Acervo particular.
Dê Asas à sua Inteligência e o apogeu dos programas de perguntas e respostas
2008
Luiz Artur Ferraretto

Jorge Alberto Mendes Ribeiro e a candidata Fé Ema Xavier (1957)
O apresentador sabatina a candidata, que participa do programa respondendo sobre a vida do profeta Maomé.
Fonte: Nomes que fizeram a imprensa gaúcha. Porto Alegre: Press & Advertising, n. 2, p. 73, set. 2003.

A capital do Rio Grande do Sul viveu um momento de grandes embates radiofônicos e de premiações de vulto no final da década de 1950. Muito diferente de atrações de gosto duvidoso e de interesse quase zoológico como os Big Brothers de hoje, os programas de perguntas e respostas chamavam a atenção por delimitar a disputa no campo do conhecimento e não do esdrúxulo. Foi o então o diretor comercial da Rádio Guaíba, Flávio Alcaraz Gomes, que lançou a onda ao idealizar uma versão do quiz show televisivo The $64,000 Question, da Columbia Broadcasting System, dos Estados Unidos. Assim, lançado em 18 de junho de 1957, Dê Asas à sua Inteligência desencadeia um processo que vai além do êxito rápido obtido na recém-inaugurada estação da família Caldas Júnior. “Um sucesso de arrasa-quarteirão”, na definição de seu criador, a atração da Guaíba vai obrigar uma reação por parte da Farroupilha, que introduz no estado outras atrações baseadas na mesma fórmula.

Este tipo de programa não era propriamente uma novidade nem no Rio Grande do Sul, nem em outros estados. Flávio Alcaraz Gomes, de fato, soube identificar uma tendência e aproveitá-la com habilidade. No centro do país, no ano de 1955, estreia o programa O Céu é o Limite, na TV Tupi, de São Paulo, com o apresentador Aurélio Campos lançando o bordão “absolutamente certo”. É, no entanto, J. Silvestre que, apresentando o programa, vai tornar a frase conhecida nacionalmente. Os candidatos, respondendo sobre um tema da sua escolha, acumulam prêmios até desistirem ou cometerem algum erro. O sucesso obtido pelo O Céu é o Limite alerta Flávio para as possibilidades comerciais de uma atração deste tipo, então ausente nas emissoras de rádio de Porto Alegre. Como não há verba para prêmios milionários, o diretor comercial da Guaíba negocia passagens aéreas com a Panair do Brasil. A cada etapa ultrapassada, o patrocinador oferece viagens para capitais de estados cada vez mais distantes até chegar ao prêmio máximo – e internacional –, Paris, com as despesas de transporte aéreo e de estada pagas. Assim, todas as terças-feiras, a partir das 21h30, entre a primeira e a segunda sessões do Cinema Imperial, Jorge Alberto Mendes Ribeiro sabatina quatro candidatos que respondem a três questões cada um. De O Céu é o Limite, o apresentador empresta o “absolutamente certo”, utilizando ainda, em uma referência indireta, a expressão “Paris é o limite”. Com os bordões, brinda as respostas corretas e instiga os participantes, que têm de demonstrar sua capacidade em perguntas cada vez mais detalhistas e, portanto, de dificuldade também crescente, elaboradas por Roberto Eduardo Xavier com o auxílio de Eloy Terra.

A repercussão do programa associada à de outro sucesso da Rádio Guaíba, Histórias do Mestre Estrela, leva a emissora, no final de 1957, a apostar em uma ideia de Roberto Eduardo Xavier, criando uma nova atração baseada em perguntas e respostas, mas para o público infanto-juvenil. Assim, Antônio Gabriel passa a apresentar, nas manhãs de domingo, no Cinema Cacique, Você é o Sabichão. Sob o patrocínio da Casa Victor, o programa oferece prêmios variados: de elepês e brinquedos a cadernetas de poupança.

No entanto, a repercussão mais forte do interesse despertado pelo Dê Asas à sua Inteligência vem mesmo da Farroupilha. Pouco mais de dois meses depois da estreia do programa, a emissora dos Associados lança, em 29 de agosto de 1957, Do Zero ao Infinito. O patrocínio da Viação Aérea Rio-grandense garante, então, prêmios em um total de Cr$ 1,5 milhão, o equivalente, na época, a US$ 20 mil. É a Varig também que paga as passagens para o Rio de Janeiro e a estada dos candidatos que atingem a décima rodada de perguntas, automaticamente tendo a sua participação garantida em O Céu é o Limite, na TV Tupi carioca. Além disto, para conduzir as apresentações nas quintas-feiras, às 21h30, o animador J. Silvestre e a, como define o Diário de Notícias, “famosa estrela do cinema nacional” Ilka Soares deslocam-se para Porto Alegre a cada semana. De início, a produção está a cargo da Standard Propaganda, no Rio de Janeiro. Em seguida, quando fica sob a responsabilidade de Athayde de Carvalho, Gilberto Lehnen e Afonso Neto, do escritório da agência em Porto Alegre, a condução do De Zero ao Infinito passa para Ernani Behs, com Lourdes Helena de auxiliar.

Ilka Soares e J. Silvestre no Do Zero ao Infinito (1957)
Fonte: Diário de Notícias, Porto Alegre, 29 ago. 1957. p. 5.

Ao longo de agosto, os Diários e Emissoras Associados, detentores dos direitos de O Céu é o Limite, começam uma intensa campanha de divulgação, preparando também o lançamento deste programa em Porto Alegre, na Rádio Farroupilha. O diretor artístico da PRH-2, Ruy Rezende, e o futuro apresentador da versão gaúcha Ary Rêgo viajam a São Paulo, no início do mês, para acompanhar as rotinas de produção na TV Tupi, onde Aurélio Campos conduz o programa original. Trazem de lá o modelo de uma das atrações mais rentáveis da televisão – Cr$ 125 mil por audição –, aqui adaptada ao rádio. Assim, cada candidato é submetido a uma seleção preliminar, na qual tem de responder a 15 perguntas sobre o assunto escolhido, garantindo que só cheguem ao microfone os participantes mais qualificados e interessantes. A estreia acontece no domingo, 1º de setembro de 1957, às 22h05, prometendo distribuir, sob o patrocínio da Real Aerovias, “dinheiro a rodo” aos vencedores.

Já no início dos anos 1960, com a TV, dia a dia, ocupando o espaço antes pertencente ao rádio, esta fórmula vai sendo abandonada. Já era, então, muito difícil carrear verbas publicitárias para este tipo de atração. Aos anunciantes, parecia bem mais eficiente a opção de investir em conteúdo semelhante produzido por emissoras de televisão do centro do país.
Amir Domingues e as primeiras grandes coberturas eleitorais
2006
Luiz Artur Ferraretto

Amir Domingues (1960)
O jornalista mostra no mapa a rede de correspondentes montada pela Guaíba em todo o país para a cobertura das eleições presidenciais.
Fonte: Correio do Povo, Porto Alegre, 3 maio 1997. p. 5.

Logo após a sua inauguração, embora não se dedique à cobertura dos fatos locais do dia a dia com equipe de reportagem própria, a Rádio Guaíba, de Porto Alegre, contando com profissionais ecléticos e escorada na Companhia Jornalística Caldas Júnior, acompanha grandes eventos, inovando, inclusive, em âmbito nacional. É nesta linha que, para as eleições de 3 de outubro de 1958, Amir Domingues monta a primeira estrutura de apuração paralela da história do rádio do Rio Grande do Sul, base para trabalho semelhante repetido, dois anos depois, em combinação com a Nacional, do Rio de Janeiro, já aí ampliado para todo o território do país.

Ciente de que, na época, a totalização dos votos pela Justiça Eleitoral demora dias em função das precárias condições de comunicação entre o interior e a capital, o jornalista, junto com o engenheiro Homero Carlos Simon, diretor técnico da Guaíba, mapeia o estado, levantando todos os circuitos existentes. Mesmo assim, 24 dos 115 municípios gaúchos não possuem, então, ligações telegráficas, telefônicas ou radiofônicas. O planejamento inclui a divisão do território em regiões, fazendo com que os dados das mesas de escrutínio coletados por uma equipe de 250 pessoas convirjam, primeiro, para centrais em pontos estratégicos do interior e, em seguida, destes para Porto Alegre. Em um rodízio constante, os correspondentes dão ao microfone os números já apurados, enquanto segue a contagem de votos e a coleta de informações nos demais postos montados pela emissora. Um dia e meio depois do pleito, a Guaíba, comandando uma cadeia com três dezenas de estações, anuncia a vitória de Leonel Brizola, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), em coligação com o Partido de Representação Popular (PRP) e o Partido Social Progressista (PSP). O resultado oficial – sem diferença significativa em relação à estimativa da rádio – sai somente em 25 de outubro.

A precisão e a rapidez do trabalho realizado no Rio Grande do Sul chamam a atenção da Nacional, do Rio de Janeiro, rádio onde o gaúcho Heron Lima Domingues, desde 1944, como locutor exclusivo da edição carioca do Repórter Esso, vinha se convertendo na “estrela máxima do radiojornalismo brasileiro”, como registram Luiz Carlos Saroldi e Sonia Virgínia Moreira, no seu livro Rádio Nacional, o Brasil em Sintonia. Além da credibilidade obtida pela Guaíba em apenas três anos de existência, os laços de parentesco – eram primos e também cunhados – entre o Domingues radicado na ainda capital federal e o outro, responsável pelo Departamento de Notícias da estação ligada à Caldas Júnior, em Porto Alegre, vão facilitar, na época, a combinação de esforços jornalísticos das duas emissoras.

Seis meses antes das eleições de 3 de outubro de 1960, o diretor do Departamento de Notícias da Guaíba e dois funcionários – Isnar Camargo Ruas e José Baños – começam a percorrer o território brasileiro, analisando as condições de transmissão e montando a rede de profissionais a ser empregada. Nas capitais, escolhem aquela que parece ser a principal estação de rádio e oferecem uma permuta de informações. Com a Nacional, sem que ocorra a subordinação de uma rádio à outra e nem mesmo a transmissão de ambas em rede, a Guaíba acerta o compartilhamento dos correspondentes das regiões Norte e Nordeste. Todos, no entanto, falam para as duas em separado, como recorda Amir Domingues:

Nós acompanhamos a Nacional e a Nacional acompanhou a Guaíba. Só que, quando a Nacional falava, nós podíamos computar os dados e, quando a Guaíba falava, o mesmo acontecia com a Nacional. Isto, obviamente, dobrava o volume de cobertura e nos permitia realizar o trabalho mais amplo e rápido. Procuramos estabelecer correspondentes comuns. Onde era Guaíba era Nacional e falava para as duas. Para as duas, o veículo e não a voz. Cada uma tinha o seu correspondente no ar. Havia, portanto, um esquema para colocação no ar e outro para computação das informações.

Cinco circuitos de comunicação são montados com o apoio de três radiotransmissores de single side-band (SSB), que garantem a autonomia em relação à estrutura de telefonia da época. A Guaíba conta, ainda, com o apoio das sucursais da Companhia Jornalística Caldas Júnior. Para o Rio de Janeiro, onde parte das operações é centralizada, deslocam-se Adroaldo Streck e Pedro Carneiro Pereira, além do próprio Amir Domingues. Apesar das condições técnicas, a emissora consegue falar, inclusive, de Rio Branco, no então território do Acre, usando circuitos de radiocomunicação do Serviço de Proteção ao Índio, um feito histórico quando uma ligação telefônica entre Porto Alegre e o centro do país demorava horas e horas para ser completada.

Flávio Alcaraz Gomes entrevista Amir Domingues e Jorge Alberto Mendes Ribeiro (4 de maio de 1997)
Trecho do programa Fórum alusivo aos 40 anos da Rádio Guaíba.

Fonte: TV2 GUAÍBA. Fórum. Porto Alegre, 4 maio 1997. Programa de televisão.
A Guaíba e a cobertura da inauguração de Brasília
2013
Luiz Artur Ferraretto

Em abril de 1960, o microfone da Guaíba está presente na inauguração de Brasília. A cobertura demonstra as dificuldades de transporte e telecomunicações da época, vencidas por um transmissor de single side band, tecnologia que a emissora havia incorporado após o sucesso verificado nas irradiações da Suécia durante a Copa do Mundo 1958.

No caso da cobertura em Brasília, a primeira dificuldade a superar é, então, a distância entre a nova capital e o Sul do país. Até São Paulo, a equipe da rádio desloca-se de avião. De lá até o destino final – 1.280 km de estrada, dos quais 250 de chão batido – utilizam uma Kombi. No Planalto Central, há que localizar um terreno de 280 por 160 metros, adequado à instalação das antenas rômbicas, posicionadas, com o auxílio de uma bússola, de modo a direcionar o sinal para Porto Alegre. Utilizando uma área próxima da torre da Rádio Nacional, emissora que cede a energia elétrica para a Guaíba, quatro mastros de eucalipto com 11 metros de altura são colocados formando um losango: 240 metros de fio de cobre nos lados maiores, 160 nos menores, raspados e emendados com solda a cada 10. Junto com a instalação de um pesado transmissor de SSB, o trabalho em seu conjunto consome parte da madrugada e do dia seguinte.

Na sequência, dada a inexistência de linhas telefônicas para efetivamente irradiar as cerimônias, o jornalista Jorge Alberto Mendes Ribeiro, com o apoio dos técnicos Alcides Krebs e Bruno Steiger, sustenta as transmissões ao microfone no improvisado estúdio junto às antenas, a 15 km do Eixo Monumental, fazendo a escuta da Tupi e Nacional. A artimanha envolve o restante da equipe, formada por Amir Domingues, Pedro Carneiro Pereira e Petrônio Cabral. Dando mais credibilidade ao seu posto volante, Amir Domingues chega a se deslocar entre o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Brasília Palace Hotel, gravando entrevistas de tal modo que, ao serem colocadas no ar, pareçam irradiadas ao vivo. Revelado somente anos mais tarde, o embuste passa despercebido e acaba por aumentar o prestígio já crescente da rádio.


Flávio Alcaraz Gomes entrevista Amir Domingues e Jorge Alberto Mendes Ribeiro (4 de maio de 1997)
Trecho do programa Fórum alusivo aos 40 anos da Rádio Guaíba.
Fonte: TV2 GUAÍBA. Fórum. Porto Alegre, 4 maio 1997. Programa de televisão.
Rede da Legalidade: do porão do Palácio Piratini para o Brasil
2006
Luiz Artur Ferraretto

Capa da Revista do Globo, a edição dos “12 dias que abalaram o país” (setembro de 1961)
Fonte: Revista do Globo, Porto Alegre, ano 33, n. 803, 16-29 set. 1961. Capa.

– Peço a vossa atenção para a comunicação que vou fazer. Muita atenção. Atenção, povo de Porto Alegre! Atenção, Rio Grande do Sul! Atenção, Brasil! Atenção, meus patrícios, democratas e independentes, atenção para minhas palavras.

Por volta das 11h, do dia 28 de agosto de 1961, é um Leonel de Moura Brizola jovem, na força dos seus 39 anos e, há pouco menos de três, eleito governador do Rio Grande do Sul, que se dirige à população no improvisado estúdio de rádio nos porões do Palácio Piratini. Nestas quase duas semanas – “os 12 dias que abalaram o país”, como vai definir, logo depois, a Revista do Globo, tradicional publicação gaúcha, em sua reportagem de capa –, o governador torna-se figura constante ao microfone da Rede ou Cadeia Nacional da Legalidade, circulando por ali – uma imagem quase quixotesca, com uma metralhadora INA a tiracolo e um exemplar da Constituição Federal na mão –, em meio a dezenas de jornalistas e técnicos voluntários.

Está começando “o último levante gaúcho”, como o historiador Joaquim Felizardo chama o movimento em defesa da posse do vice-presidente da República, João Belchior Marques Goulart, o Jango, após a renúncia de Jânio Quadros. Em contraste com outras mobilizações anteriores, nesta, o rádio constitui-se na arma principal.

A crise daquele fim de agosto e início de setembro, primeiro embate do processo que leva a direita ao poder três anos depois, começa na sexta-feira, 25 de agosto. Para o sábado, previa-se a chegada do presidente da República em uma visita oficial de cinco dias ao estado. Menos de um ano antes, Jânio da Silva Quadros, de meteórica carreira política e não atrelado às máquinas partidárias tradicionais, tinha sido eleito por uma coligação em que despontava uma relutante União Democrática Nacional. Como a legislação permite, presidente e vice são escolhidos em separado. Apoiando Jânio, a UDN tem como candidato a vice Milton Campos, e o Partido Democrata Cristão lança Fernando Ferrari. Ambos, no entanto, são derrotados por João Goulart, do PTB, herdeiro político de Getúlio Vargas e com bom trânsito à esquerda. Naquela sexta-feira algo chuvosa, a renúncia do presidente surpreende a todos. Depois de se assegurar de que não há um golpe em andamento, Brizola decide garantir a posse de Jango, naquele momento em visita oficial à República Popular da China, do líder comunista Mao Tse-Tung.

No Rio de Janeiro, o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, de fortes tendências golpistas, dá apoio aos militares contrários a João Goulart. Em Brasília, o ministro da Guerra, Odílio Denys, anuncia que, ao pisar em solo brasileiro, o vice-presidente será preso. Dias depois, o general vai dizer que o Brasil encontra-se em uma encruzilhada entre a democracia e o comunismo. Candidato derrotado e indicado pelo Partido Social Democrático para encabeçar a chapa que tivera Jango como vice pelo PTB, o marechal Henrique Batista Duffles Teixeira Lott lança um manifesto endereçado aos seus “camaradas das Forças Armadas”, defendendo a constitucionalidade. No início da manhã de domingo, o militar legalista é preso. A censura também começa a se fazer presente nas redações da antiga capital federal.

Ainda no sábado, Hamilton Chaves, do Gabinete de Imprensa do Palácio Piratini, distribui, aos veículos de Porto Alegre, o manifesto do marechal Lott, acrescido de uma nota do governador Leonel Brizola. As rádios Gaúcha e Farroupilha já haviam suspendido sua programação normal e transmitiam dos centros do poder político na capital.

Por volta das três horas da madrugada de domingo, Brizola dá uma entrevista coletiva, garantindo que vai resistir à tentativa de golpe. Falando ao microfone das rádios Difusora, Farroupilha e Gaúcha, o governador começa a atrair milhares de pessoas para o Palácio Piratini e para a Praça da Matriz, em frente à sede do Executivo do Rio Grande do Sul. Está começando a se constituir o que ele chamará, em vários discursos, de a Cidadela da Legalidade. Naquela madrugada ainda, por ordem do ministro da Guerra, são retirados os cristais dos transmissores das rádios Farroupilha e Gaúcha, tentando repetir em Porto Alegre o que já ocorria em outras capitais controladas pelos golpistas.

O diretor da Gaúcha, Maurício Sirotsky Sobrinho, propõe que a emissora seja requisitada pela Assembleia Legislativa, o que chega a ocorrer, com alguns efeitos práticos. A rádio, no entanto, vai acabar se integrando à Rede da Legalidade. Também a Farroupilha tenta articular o seu retorno ao ar. Na manhã de domingo, dia 27, das grandes emissoras de Porto Alegre, apenas a Guaíba, ligada aos jornais Correio do Povo e Folha da Tarde, permanece transmitindo. Com certa simpatia pelo Partido Libertador e pela causa dos grandes produtores rurais – integrando, portanto, o que, na época, se chamava de as classes conservadoras –, o empresário Breno Caldas, proprietário da Guaíba, mantém uma atitude discreta desde os primeiros momentos da crise. Não é simpático nem à figura nem às ideias do governador. Por sua vez, Brizola sente-se acuado e, mesmo alertado pelo seu secretário do Interior e Justiça, João Caruso, de que apenas o governo federal tem poder para requisitar uma emissora de rádio, decide colocar a Guaíba a serviço da segurança pública. Em uma ligação telefônica para a casa do proprietário da emissora e da Companhia Jornalística Caldas Júnior, comunica categórico:

– Doutor Breno, eu quero avisá-lo que eu resolvi encampar a Rádio Guaíba. Já ocupei os transmissores lá na ilha [da Pintada, onde estão até hoje os transmissores da rádio] e vou ocupar agora aqui no centro, e quero lhe dar conhecimento disso.

É um Breno Caldas irritado que responde ao governador do estado:

– Isso aqui é uma concessão federal e é uma propriedade privada. O senhor está invadindo uma propriedade privada e, ao mesmo tempo, esbulhando um direito de exploração de uma concessão regularmente concedida.

Depois de muita discussão e tendo que aceitar o ato do governo, o empresário pede uma garantia por escrito:

– Então o senhor faz o seguinte, me manda uma carta ou um ofício... um documento oficial... o senhor assuma toda a responsabilidade desse gesto. Assim, da minha parte não haverá problema, eu não posso fazer nada, só posso me conformar com o fato consumado, mas, ao menos, quero me resguardar.

No final da manhã daquele domingo, dia 27, da janela junto ao estúdio da Rádio Guaíba, o diretor comercial da emissora, Flávio Alcaraz Gomes, vê duas kombis da Guarda Civil estacionarem bruscamente. Delas, sai uma dezena de cardeais, como o povo apelidou os homens do choque em seus uniformes de cor cáqui e seus quepes vermelhos. Quem traz a intimação é o secretário estadual da Fazenda, Gabriel Obino, escolhido por Brizola devido às suas boas relações com a família de Breno Caldas. Consultado via telefone por Gomes, o empresário recomenda:

– Podes entregar a rádio, desde que ela seja operada de outro lugar.

Trabalhista convicto, o responsável técnico pela Rádio Guaíba, engenheiro Homero Carlos Simon, aproveita, então, uma linha telefônica instalada para fornecer o áudio da visita de Jânio às emissoras de rádio. Deste modo, faz uma conexão – improvisada, mas eficiente – entre os transmissores na Ilha da Pintada e uma pequena sala no porão do Palácio Piratini, onde as paredes haviam sido cobertas, tempos antes, com forração acústica, preparando um futuro estúdio para os pronunciamentos semanais de Brizola na Farroupilha. Agora, com um microfone e um toca-discos colocados às pressas, começa a se estruturar, nestas instalações precárias, a Rádio da Legalidade, base de uma rede que irá mobilizar milhares de pessoas e garantir a posse constitucional de Jango.

Primeiro discurso de Leonel Brizola ao microfone da Rede da Legalidade (28 de agosto de 1961)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.


Trecho do Musical Legalidade (4 de setembro de 2011)
Espetáculo produzido pelo governo e pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e encenado em frente ao Palácio Piratini, o palco dos fatos 50 anos antes. Na sequência do primeiro discurso de Leonel Brizola ao microfone da Rede da Legalidade, o ator Evandro Soldatelli aparece rodeado por profissionais de rádio e de imprensa que assistiram à transmissão original.
Narração: Ida Celina e Luiz Paulo Vasconcelos.
Direção geral: Carla Joner.
Direção artística: Luciano Alabarse.
Direção musical: Hique Gomez.
Roteiro: Rafael Guimaraens.
Produção executiva: Claudia D’Mutti
Fonte: TVCOM/ TVE. Musical Legalidade. Porto Alegre, 4 set. 2011. Programa de televisão.
“Avante brasileiros de pé...”
2006
Luiz Artur Ferraretto

Hino da Legalidade, de Paulo César Pereio e Lara de Lemos (agosto de 1961)
Fonte: Acervo particular de Flávio Alcaraz Gomes.

É no domingo, 27 de agosto de 1961, que começam as transmissões da Rede ou Cadeia Nacional da Legalidade. O primeiro pronunciamento do governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, pouco depois das 14h, estende-se por 36 minutos. Discos com marchas militares – muitos deles do programa Aí Vem a Banda, da própria Guaíba – alternam-se com proclamações e manifestos. De início, a leitura fica a cargo de Naldo Charão de Freitas, um funcionário do Gabinete de Imprensa do Palácio Piratini. Logo, a Rádio da Legalidade ganha a credibilidade do principal locutor-noticiarista do Rio Grande do Sul: Lauro Hagemann, titular da edição local do Repórter Esso, da Farroupilha. A ele, seguem-se diversos profissionais que vão aderindo espontaneamente ao trabalho. Já no final da crise, os jornais de Porto Alegre vão publicar a Proclamação dos Jornalistas e Locutores da Rede da Legalidade. Um trecho do documento expressa o clima reinante nos porões do Piratini:

Povo brasileiro!
Esta é a nossa proclamação, a proclamação daqueles que trabalham na Rede da Legalidade!
Pertencemos a todas as emissoras de Porto Alegre, redatores, locutores e pessoal da técnica, estamos todos aqui, livremente, espontaneamente, escrevendo, lendo ou controlando, com a liberdade que sempre tivemos em nossas emissoras. Não sofremos coação de espécie alguma.
Nem sequer solicitada foi a nossa presença.
Não temos armas na cintura, e muito menos em nossas costas. Nossa arma é a pena e a nossa tribuna é a Rede da Legalidade. Somos 200, 300 ou 400. Todos voluntários. Momentos há, que somos em número superior às máquinas de escrever, aos microfones e aos aparelhos de controle de som. Queremos auxiliar. Queremos ajudar. Esperamos nossa vez.
Ninguém nos chamou. Viemos atendendo a um ditame da consciência.
Viemos para defender a Constituição. Não somos trabalhistas, não somos pessedistas, não somos udenistas, nem comunistas. Somos brasileiros. Somos democratas. Somos legalistas.
Nada recebemos. Nossos serviços são gratuitos. Nossa colaboração é espontânea.
A matéria que divulgamos não é censurada. Nós afirmamos: trabalhamos de acordo com a nossa consciência, de acordo com a nossa capacidade.
Jornalistas do Rio de Janeiro, jornalistas de São Paulo, jornalistas de outros estados da Nação!
Se vossos artigos são censurados, se a censura ditatorial de alguns loucos e mal formados manda vossos artigos para a cesta, se vossas penas sofrem por terem que escrever artigos sob medida, que convenham aos antidemocratas que procuram rasgar a Constituição por meio do golpe, mandai vossos artigos para a Rede Nacional da Legalidade. Nós aqui os transmitiremos aos quatro cantos do país e podereis comprovar que, no Sul, reina a mais completa liberdade de imprensa.
Enviai vossos artigos, a revolta de vossos espíritos contra a prepotência, que nós, aqui, teremos o máximo prazer em transmiti-los ao Brasil e ao mundo.
Não houve, ainda, no Brasil uma cadeia radiofônica tão ouvida. Mandai vossas mensagens, jornalistas livres do Brasil, que elas chegarão ao seu destino.
A Rede Nacional da Legalidade é um produto nosso, dos locutores, redatores e técnicos em radiodifusão. Foi criada pelos jornalistas livres do Rio Grande do Sul. Ela merece o vosso respeito. Ela merece a vossa sintonia.

Antes disto, a cadeia radiofônica e o movimento em prol da posse de João Goulart vivem seu momento mais dramático. Radioamador por hobby, o diretor técnico dos Correios e Telégrafos, João Carlos Guaragna, intercepta, entre 21 e 23h daquele domingo, dia 27, a comunicação telegráfica entre o Ministério da Guerra e o III Exército. Uma das ordens recebidas e a resposta transmitida de Porto Alegre vão colocar em alerta o Palácio Piratini:

Ministério da Guerra – É necessária firmeza e energia do III Exército a fim de não permitir cresça a força do adversário potencial que tem todo o interesse em manter a ordem a fim de que o sr. João Goulart assuma a Presidência. Reitera a ordem a fim de que sejam suspensas as irradiações. Trata-se estratagema que só favorecerá inimigo em potencial.
III Exército – General Machado Lopes [comandante do III Exército] deseja Ministério Aviação providências diretamente governador sentido devolução imediata Rádio Guaíba.

Deste modo, naquela madrugada fria, o responsável pela Companhia da Guarda, capitão Pedro Américo Leal, com seus 222 soldados de elite, prepara-se para atacar a ilha da Pintada, guarnecida por 100 homens da Brigada Militar, e tomar os transmissores da Guaíba, suspendendo, assim, as irradiações do Palácio Piratini. Pouco antes de iniciar as operações, recebe, por telefone, nova determinação repassada pelo ajudante de ordens do Estado Maior, general Antônio Carlos Muricy. O comandante do III Exército, José Machado Lopes, suspendia o ataque, aderindo à Legalidade.

Desconhecendo a decisão do general, na manhã de segunda, dia 28, o clima no Palácio Piratini é de muito nervosismo e expectativa. A Cidadela da Legalidade está ameaçada. A Praça da Matriz assemelha-se a um acampamento militar. Pesados bancos de cimento são colocados por estudantes e sindicalistas como barricadas nas ruas de acesso, na tentativa de impedir o avanço de tanques. No telhado do Piratini, metralhadoras permanecem posicionadas. Há montes de sacos de areia e rolos de arame farpado completando o quadro, onde quase 80 mil pessoas ficam de vigília. Muitos portam revólveres Taurus novos, requisitados a uma loja da capital. Por volta das 11h, Leonel Brizola recorre ao microfone da Legalidade para denunciar o ataque iminente e pedir que o general Machado Lopes apoie a posse de João Goulart:

– Estamos aqui prestes a sofrer a destruição. Devem convergir sobre nós forças militares para nos destruir, segundo determinação do ministro da Guerra. Mas tenho confiança no cumprimento do dever dos soldados, oficiais e sargentos, especialmente do general Machado Lopes, que, esperamos, não decepcionará a opinião gaúcha. Assuma, aqui, o papel histórico que lhe cabe. Imponha ordem neste país. Que não se intimide ante os atos de banditismo e vandalismo, ante este crime contra a população civil, contra as autoridades. É uma loucura. Povo de Porto Alegre, meus amigos do Rio Grande do Sul! Não desejo sacrificar ninguém, mas venham para a frente deste palácio, numa demonstração de protesto contra esta loucura e este desatino. Venham, e se eles quiserem cometer esta chacina, retirem-se, mas eu não me retirarei e aqui ficarei até o fim. Poderei ser esmagado. Poderei ser destruído. Poderei ser morto. Eu, a minha esposa e muitos amigos civis e militares do Rio Grande do Sul. Não importa. Ficará o nosso protesto, lavando a honra desta Nação. Aqui, resistiremos até o fim. A morte é melhor do que a vida sem honra, sem dignidade e sem glória. Aqui, ficaremos até o fim. Podem atirar. Que decolem os jatos! Que atirem os armamentos que tiverem comprado à custa da fome e do sacrifício do povo! Joguem estas armas contra este povo. Já fomos dominados pelos trustes e monopólios norte-americanos. Estaremos aqui para morrer, se necessário. Um dia, nossos filhos farão a independência do nosso povo!

Mal o governador termina de falar, chega o jornalista Flávio Alcaraz Gomes com a notícia mais importante do dia, obtida por ele no Estado Maior do III Exército: Machado Lopes está vindo aderir ao movimento que defende o cumprimento da Constituição. Logo em seguida, ocorre a reunião do general e do governador no Piratini. Pouco depois do meio-dia, os dois aparecem numa sacada do palácio, saudando a multidão. Brizola acompanha Lopes até o QG do Exército e, na volta, anuncia, ao microfone, a união das forças civis e militares em torno da Legalidade.

Anos depois, Leonel Brizola, recordando, para o Projeto Vozes do Rádio da PUC/RS, o Movimento da Legalidade, reconheceria o papel fundamental do rádio naquele momento:

– Foi possível aquela resistência nacional, porque contamos com uma comunicação através do rádio. E foi graças àquela locução plena de emoção que eu fiz para dar conhecimento à opinião pública daquela ordem tresloucada de bombardear o palácio, tanto que eu pedi para a população toda se retirar. Só ficasse quem quisesse enfrentar a situação. Foi tal a mensagem, a emoção, que aquilo ali, praticamente, tocou profundamente na fibra do povo gaúcho. Foi devido a isto que nós conseguimos, praticamente, conter toda aquela investida golpista.

Na tarde de terça-feira, dia 29, Farroupilha e Gaúcha voltam a transmitir e pedem para serem requisitadas, forma de garantir certa tranquilidade caso triunfem as forças golpistas. A rede passa a contar, deste modo, com seis faixas de transmissão em ondas curtas – Farroupilha (19 e 31 metros), Gaúcha (25 e 49 metros) e Guaíba (25 e 49 metros). Para vastas regiões do país, as irradiações chegam por meio da Rádio Brasil Central, de Goiânia, ocupada pela Polícia Militar por ordem do governador de Goiás, Mauro Borges, que apoia a posse de Jango. Talvez graças a toda esta abrangência, reforçada pelo canal livre internacional em ondas médias da Farroupilha, começa a ser transmitido, das 2 às 4h, em meio à madrugada, o programa A Ponte da Amizade, um serviço que permite aos ouvintes enviarem notícias suas a parentes e amigos de outros estados. Certo está que a Cadeia da Legalidade, como Lauro Hagemann recordaria mais tarde, “chegou quase ao final a ter uma programação normal de qualquer emissora, com horários determinados para o noticiário e a música”. Dias depois, na quinta-feira, 31 de agosto, começam as irradiações em outras línguas. O noticiário vai incluir textos em inglês, francês, espanhol, italiano e árabe. A rede já conta, então, com dezenas de emissoras retransmitindo o seu sinal. O movimento ganha, mais ou menos por aí, um hino, com letra de Lara de Lemos e música de Paulo César Pereio:

Avante brasileiros de pé
Unidos pela liberdade
Marchemos todos juntos de pé
Com a bandeira que prega a igualdade
Protesta contra o tirano
Se recusa à traição
Que um povo só é bem grande
Se for livre como a nação.


Trecho do Musical Legalidade (4 de setembro de 2011)
Paulo César Pereiro e Lara de Lemos (protagonizada pela atriz) lembram como foi composto o Hino da Legalidade.
Fonte: TVCOM/ TVE. Musical Legalidade. Porto Alegre, 4 set. 2011. Programa de televisão.

De um dia para o outro, o número de emissoras integrantes passa de quatro para 114. Pelas ondas do rádio, o movimento em prol da posse de João Goulart vai crescendo. Assim, por volta das 23h40 de 1° de setembro, a Rede Nacional da Legalidade pode anunciar:

– A partir deste instante, o doutor João Goulart é o presidente da República. Todos os cidadãos do Brasil deverão submeter-se à ordem do comandante supremo da Nação, no cumprimento da Constituição. Como primeiro magistrado, é ele comandante-em-chefe das Forças Armadas e responsável pelo destino do povo do Brasil, defendendo os direitos da Constituição.

Nesta noite, termina a longa peregrinação de João Goulart da China até o Brasil, dando tempo às articulações políticas para garantir a constitucionalidade. Às 20h25 do dia 5, o novo presidente desembarca, finalmente, na capital federal. Em Porto Alegre, pela última vez Brizola usa o microfone da Legalidade, agradecendo o apoio do povo do Rio Grande do Sul, mas reiterando sua discordância com a mudança do sistema de governo de presidencialista para parlamentarista. No que fora a Cidadela da Legalidade, não há mais mobilização popular. Ante as hesitações iniciais logo após a chegada de Jango ao estado, a frustração substituíra a esperança. Sob uma forte chuva, dispersou-se o povo que rasgava faixas aos gritos de covarde e traidor. No porão do Palácio Piratini, improvisado em locutor, o subsecretário do Ensino Técnico do governo do Estado, João Brusa Neto, que vinha exercendo o controle político das irradiações, encerra as transmissões da Rede Nacional da Legalidade:

– No momento em que o presidente constitucional do Brasil, doutor João Goulart, chega a Brasília, enviamos daqui, do subterrâneo da Legalidade, um abraço a todos os brasileiros que nos acompanharam em defesa da ordem, da legalidade e das instituições do Brasil.

No dia seguinte, um ofício do governador Leonel Brizola informa ao diretor da Rádio Guaíba, Arlindo Pasqualini, que a emissora pode voltar a transmitir normalmente. Duas semanas depois, a estação da família Caldas recebe, ainda, uma indenização de Cr$ 750 mil, quase o preço de um Simca Chambord, então um dos automóveis mais caros produzidos no país e vendido, conforme os anúncios do Correio do Povo, jornal ligado à emissora, a Cr$ 800 mil.


Flávio Alcaraz Gomes e o preço da Rede da Legalidade
Fonte: FERRARETTO, Luiz Artur. Itinerários de um repórter. In: GOMES, Flávio Alcaraz. Eu Vi!. Porto Alegre. Publicato, 2006. DVD.