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De "speaker" a "locutor" (mas quase "falador")
2021 
Elisa Kopplin Ferraretto

Por pouco, as emissoras brasileiras não estariam cheias de “faladores”. Nos primeiros anos do rádio, como tudo era novidade, não havia palavras na Língua Portuguesa para designar algumas funções. Era o caso da relacionada ao anúncio das atrações da programação, que foi, então, denominado com a palavra inglesa speaker.

No início dos anos 1930, um dos primeiros speakers brasileiros – o professor Abílio de Castro, contratado pelo Rádio Clube de Pernambuco em fevereiro de 1926 –, propôs substituir o termo por “locutor”. Em entrevista ao professor e pesquisador de rádio Luiz Maranhão Filho, nos anos 1980, Castro relatou como surgiu a ideia do novo vocábulo:

Há tempo que eu vinha zangado com esse termo speaker. Eu vinha encabulado com ele porque, como estudioso da língua portuguesa, abominava qualquer estrangeirismo. O único que eu admitia era o latim, porque não o considerava estrangeirismo, como não é. É nossa língua mãe. De modo que eu escrevi para alguns colegas da Argentina pedindo que nos programas da América Latina eles empregassem o termo locutor e não speaker. Era uma palavra latina, uma palavra de origem latina, de locur, locus, locutur, loque - de maneira que daí vinha - locutus, locutoris, locutor, quer dizer, aquele que fala, que pronuncia, que se faz compreender. E a Holanda, depois do Rádio Clube, foi a primeira que admitiu o termo locutor. Aqui no Brasil foi onde mais se resistiu. Não quiseram aceitar.

Um dos que se opôs à ideia foi Mário Melo, que, em sua coluna no Jornal Pequeno, de Recife, sugeriu como alternativa o termo “falador”. Abílio de Castro contou a Maranhão como reagiu quando amigos lhe contaram sobre a proposta:

Falador é ele que fala da vida alheia, fala de tudo e de todos.

A polêmica continuou, agregando novas proposições, vindas de diferentes fontes, para substituir o anglicanismo: “elocutor”, “orador”, “falante”, “aulete”, “vozeiro” ou a forma aportuguesada “espíquer”. Mas, no final, o tempo e o uso consagraram a palavra sugerida por Abílio de Castro. O próprio Mario Melo acabaria se dando por vencido, em coluna publicada no Diário de Pernambuco:


Mário Melo dá o braço a torcer (23 de setembro de 1933)
Fonte: Diário de Pernambuco. Recife, 23 set. 1933. p. 1.


Coisas do rádio de outros tempos
2016
Luiz Artur Ferraretto

Ao longo do tempo, uma série de tecnologias deslumbrou profissionais de rádio pela sua inovação e foi usada no dia a dia como algo insubstituível. E, então, desapareceu. Vocês lembram destas?

Matriz de papelão para gravação de áudio
Fonte: Acervo particular.

Cartucho de fita magnética utilizado para spots e jingles
Fonte: Acervo particular.

Fita cassete
Fonte: Acervo particular.

Digital Audio Tape (DAT)
Fonte: Acervo particular.

MiniDisc
Fonte: Acervo particular.
O rádio de Porto Alegre em versão bico de pena
2017
Luiz Artur Ferraretto

A imagem dispensa palavras e palavras são a essência do rádio. No entanto, a arte de Francisco Carlos Souza da Silva, funcionário da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, junta rádio e imagem sob uma perspectiva artística. O resultado do trabalho desse admirador de grandes profissionais que passaram pelo microfone das emissoras do Rio Grande do Sul pode ser visto nos desenhos em bico de pena produzidos a partir de fotografias e reproduzidos abaixo.

Antônio Carlos Macedo, apresentador do Gaúcha Hoje e do Chamada Geral

Armindo Antônio Ranzolin, um dos mais importantes narradores esportivos do país


Cândido Norberto, o mais completo profissional de rádio do Rio Grande do Sul

Carlos Nobre, o principal humorista do Rio Grande do Sul

Celestino Valenzuela, o narrador do “Que lance!”

Glênio Reis, esse sabia muito de música

Adroaldo Guerra Filho, o Guerrinha, comentarista da Rádio Gaúcha

Lauro Quadros: “É isso aí e mais meio quilo de farofa”

Mauricio Sirotsky Sobrinho, fundador do Grupo RBS

Mendes Ribeiro, o narrador da Copa de 1958 e primeiro apresentador do Atualidade

Milton Ferretti Jung, o radialista da pronúncia mais correta do Brasil

Paixão Côrtes, o inventor do tradicionalismo gaúcho

Paulo Sant'Ana, o comentarista-torcedor do Grêmio


Teixeirinha, o cantor gaudério de amanheceres radiofônicos


Collor, Lula, FHC: nos jingles, as esperanças da redemocratização
2008
Luiz Artur Ferraretto

Em 1989, a esperança era um mar de bandeiras vermelhas, uma estrela de cinco pontas na maioria e a velha foice e o martelo, mais outra estrela, nas demais. Nos comícios, ainda retumbava a Internacional: “De pé, ó vítimas da fome/ De pé, famélicos da terra/ Da ideia a chama já consome/ A crosta bruta que a soterra/ Cortai o mal bem pelo fundo / De pé de pé..”. Atendendo aos desígnios do marketing, logo o velho hino da esquerda daria, rapidamente, lugar ao mais forte jingle político dos últimos 20 anos, aquele do “Lula lá”. Tão forte que sobreviveria, adaptando-se, a três derrotas e a duas vitórias do candidato do Partido dos Trabalhadores, Luiz Inácio Lula da Silva.

Está certo. Em tempos de Lula Light, o vermelho das bandeiras foi pendendo da esquerda para o centro, alguns dirão, inclusive, para a direita com flertes a ex-arenistas, aqueles da ditadura, transformando-se em explícitas e públicas vias de fato. O jingle de Hilton Acioli, no entanto, permaneceu, pelo menos, no imaginário das pessoas e rearranjado, alterado, foi mantido em espírito nas versões de campanhas posteriores. Ou este mesmo Lula Light não é um trocadilho maldoso com aquele mais esperançoso Lula Lá, provando, com certeza, a força musical e propagandística da canção daquela campanha de quase duas décadas atrás?

Desde então, nem só do jingle do candidato três vezes derrotado e duas vezes vitorioso viveriam as campanhas presidenciais. O do vencedor das eleições de 1989, Fernando Collor de Mello, era também muito bom, talvez a provar a supremacia qualitativa, por vezes, da mensagem propagandística sobre o conteúdo do produto vendido. Os do outro Fernando, o FHC, o Fernando Henrique Cardoso do PSDB, tinham até certo teor sociológico a lembrar a profissão de origem do político habilidoso que venceria os pleitos de 1994 e 1998. Em ambos, a voz de Dominguinhos sustentaria propostas, sonoridade levemente nordestina sem deixar de ser, em sua totalidade, brasileira. Ah, e dizendo o que as pessoas queriam ouvir.

Jingle político é assim mesmo. Não ganha eleição, mas ajuda. Mensagenzinha repetitiva para não sair da cabeça e influenciar o eleitor. Agora, se permanece anos depois como referência, fazendo parte do imaginário popular, aí então, talvez tenha transcendido o objetivo inicial. De mera propaganda, graças à habilidade de seus criadores, torna-se quase uma obra de arte, reverenciada como um hino pelo eleitor do candidato apoiado ou respeitada e até invejada pelo outro, o que vota no adversário combatido.


Jingle da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência (1989)
Fonte: OS 20 MAIORES jingles políticos de todos os tempos. São Paulo: Abril, 2004. CD.


Jingle da campanha de Fernando Collor de Mello à presidência (1989)
Fonte: OS 20 MAIORES jingles políticos de todos os tempos. São Paulo: Abril, 2004. CD.


Jingle da campanha de Fernando Henrique Cardoso à presidência (1994)
Fonte: OS 20 MAIORES jingles políticos de todos os tempos. São Paulo: Abril, 2004. CD.


Jingle da campanha de Fernando Henrique Cardoso à presidência (1998)
Fonte: OS 20 MAIORES jingles políticos de todos os tempos. São Paulo: Abril, 2004. CD.
O bordão nosso de cada dia
2008
Luiz Artur Ferraretto

O bordão é uma marca; todo mundo que trabalha em rádio sabe disto. Por vezes, é uma marca também, redundância à parte, do seu tempo. Alguns cheiram a clichê. Algo velho até. Por vezes, na forma de falar, ganham, no entanto, novas e inusitadas conotações. O arcaico vira moderno. O dos tempos de antanho, do fox e do tango, adapta-se ao rock. Giram um pouquinho mais os ponteiros dos relógios, trocam-se as folhinhas do calendário, e se transforma em clássico. Dois exemplos são expressões comuns nos anos 1930 e 1940 adotadas quatro ou cinco décadas depois pelos comunicadores do rádio jovem porto-alegrense Mauro Borba e Kátia Suman, ambos de berço na Ipanema FM. Se o primeiro ataca sempre com um “prezados ouvintes”, a segunda tasca um “radiouvintes” e assim vão recriando, com gosto de novidade, o tradicional e forjando expressões clássicas – suas marcas – para o seu público. Nesta coisa do presente mutado a cada instante em passado, há os que chegam quase a registrar com a sua criatividade um momento particular desta constante transição. Quando a locução executiva, a do comunicador operando equipamentos enquanto fala ao microfone, tornou-se comum, Julio Fürst, por exemplo, tonteava os ouvintes com um jogo rápido de palavras, descrevendo o que estava fazendo dentro do estúdio:

– Eu pego o disco, tiro o disco, boto o disco, rolo o disco e toco o disco...

Julio Fürst
Entrevista realizada por Luiz Artur Ferraretto em 12 de novembro de 2004.

Se a palavra que identifica o comunicador atesta como bordão a passagem das épocas nas ondas de hertz, atua de forma idêntica com as emissoras, às vezes de modo curioso. A Gaúcha, de Porto Alegre, na década de 1930, identificava-se como “A pioneira”, por ser a mais antiga em atividade na capital do Rio Grande do Sul. Anos depois, mesmo bem mais velha, adotou o slogan criado por Flávio Alcaraz Gomes e pela Símbolo Propaganda: “Gaúcha – A fonte da informação”. A Farroupilha, no apogeu do espetáculo radiofônico, com seus 50 kW, era “A mais poderosa emissora gaúcha”. Nos anos 1950, a Difusora, hoje Band AM, teve uma fase como “A única no esporte”. Já sob o controle dos frades capuchinhos, passou a se identificar como “PRF-9 – Rádio Difusora Porto-alegrense – Esporte, música e notícia”. Quase na mesma época, uma pequena pêerre da Zona Norte de Porto Alegre tornou-se a primeira no estado a transmitir 24 horas, adotando o slogan “Noite e dia, a Metrópole irradia”.

No interior, não é diferente. Marca-se terreno com um bom bordão, com uma boa frase de efeito. Em Rio Grande, por exemplo, foi inaugurada, em meados do século 20, a Minuano, com estúdios na cidade e utilizando uma nova tecnologia, a frequência modulada, para levar o seu sinal até a planta transmissora na cidade de São José do Norte, do outro lado do canal de acesso à Lagoa dos Patos. Criação do radialista Dolar Tanus, o slogan da nova emissora – “Onde sopra o minuano, fala a voz do gaúcho” – vai marcar este novo momento do rádio na região.

Nos tempos da ditadura militar, é a Continental AM, de Porto Alegre, que vai ousar. E incomodar muito a censura do governo verde-oliva. Brincava com os índices de audiência aferidos pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística e se assumia como “A rádio que não dá Ibope”. Mas o que mais caracteriza a emissora mesmo são as dezenas de frases associdas à hora certa e ao prefixo de emissora. De início, algo assim:

– Na Porto Alegre das menininhas do Colégio Bom Conselho, duas e 10. Continental, ZYH-223, 1.120 kHz.

Trecho do documentário Rádio Continental AM: rebeldia jovem nos anos de chumbo (2007)

Fernando Westphalen, diretor da Continental nos anos 1970, relembra os bordões da emissora
Produção dos alunos de Radiojornalismo 3 do curso de Jornalismo da Universidade Luterana do Brasil.
Produção: Airton Júnior, Airton Ruschell, Lenemir Falk e Luciana Borba.
Pós-produção e edição final: Ricardo Pereira.
Professor responsável: Luiz Artur Ferraretto.
Gravado no Centro de Produção Audiovisual da Universidade Luterana do Brasil, em Canoas, Rio Grande do Sul.
Fonte: Acervo particular.

Depois, testando os censores, guardiões da moral, dos bons costumes e da falta de liberdade, brincando com os fatos que iam se sucedendo no Brasil da abertura política. Por exemplo, citando o sequestro dos militantes uruguaios de esquerda Lilian Celiberti e Universindo Dias por policiais do Departamento de Ordem Política e Social:

– Na Porto Alegre do sequestro dos uruguaios, três e 15. Continental, ZYH-223, 1.120 kHz.

Na década seguinte, em uma cena política de retorno – lento e gradual, como queriam os militares – à democracia, a Rede Brasil Sul aproveitou para lançar um bordão provocativo ao criar uma nova emissora. Depois de uma campanha com certo teor erótico, voz feminina muito sensual dizendo “Vem comigo, vem” ou “Vem, vamos fazer os melhores programas juntos. Eu fui feita para você”, a nova emissora adotou um slogan ousado para os padrões do início dos anos 1980: “Atlântida FM, põe e deixa”.

Na época, houve quem se assustasse com tanta audácia, mas audácia mesmo foi, um pouquinho mais tarde, a de um comunicador de rádio povão. Exagerando e forçando uma rima, ele repetia ao microfone da Difusora:

– Troque a ceroula ouvindo a Difu-soooo-u-ra!!!!!!!!!!!!

Explica-se. A Farroupilha, que começava a reinar neste segmento, fazia, então, intensa campanha com promoções envolvendo uma marca de pilha. Era o “Troque a pilha na Farroupilha”. Mesmo assim, nos dois casos, haja criatividade. Ou falta desta.
O bordão dos cronistas esportivos
2007
Luiz Artur Ferraretto

Está lá no bom e sempre útil Dicionário Aurélio: “Palavra ou frase que se repete a cada frase na conversa ou na escrita”. Já no rádio, bordão é um pouco mais do que isto, quase uma marca pessoal, uma exclusividade deste ou daquele profissional, deste ou daquele programa e, até, desta ou daquela emissora, marcando e/ou demarcando uma personalidade para o ouvinte. E há para todos os gostos, logo neste veículo, aquele que, nos bancos da universidade, é vítima das críticas dos professores a respeito de clichês e de redundâncias. Clichês e redundâncias que fazem, não raro, a delícia de ouvintes na sintonia de comunicadores muito especiais.

Comecemos, então, pelo esporte, sempre rico quando o assunto são frases de efeito, exageradas por vezes, mas vá lá. No Rio Grande do Sul, quem foi guri nos anos 1960 vai lembrar da narração sóbria de Pedro Carneiro Pereira, aquele de precisas descrições ao microfone da Rádio Guaíba. Mesmo que não recorresse a figuras de linguagem, recurso usual nas emissoras do centro do país, ele sempre abria as jornadas esportivas com uma frase, sua marca registrada:

– O árbitro olha o seu relógio, nós o nosso e inicia partida...

Da mesma escola, o grande Armindo Antônio Ranzolin não dispensaria um “Alô, amigos” na abertura de suas intervenções como apresentador, narrador ou comentarista. Da mesma geração e colega de ambos, o já irreverente Lauro Quadros seria – e é até hoje – um caso à parte, criando dezenas de bordões. Para definir profissionais ou elogiar um lance de brilhantismo, saía com um “esse conhece o rengo sentado e o cego dormindo” ou “ele sabe a cabeça que tem piolho”. Quando queria indicar uma área do campo de marcação deficiente do adversário por onde um time poderia chegar ao gol, soltava um “ali é o caminho da roça”. E, para encerrar um raciocínio, largava sempre: “É isto aí mais meio quilo de farofa”. De segunda a sexta, conduzindo o seu Polêmica, na Gaúcha, ainda brinca com as palavras, incentivando os ouvintes a ligarem para o programa:

– Não se esconda, responda! – em meio a outras frases que vão surgindo conforme o andamento dos debates.

Agora, os reis dos bordões são mesmo os narradores de teor mais conotativo, como os estudiosos definem os que abusam das metáforas, metonímias e outros que tais. Neste estilo, quem mais fez sucesso no Rio Grande do Sul nas últimas três décadas foi um paranaense aqui chegado de Minas Gerais: Haroldo de Souza, hoje na Rádio Guaíba. O radialista vai escandindo vogais na sua maneira particular de anunciar o gol – “Adiviiiiiinheeee...” – para, logo em seguida, incentivar a comemoração do momento máximo do futebol – “As bandeiras estão tremuuulaaando, tremuuulaaando... torcedor do Brasil” –, fala secundada, em meados da década de 1970, por uma vinheta repetindo-a na forma de música. Quando o time local está em desvantagem, Haroldo transporta-se para as arquibancadas: “E, agora, tchê?” ou “Isto é profundamente lamentável, torcedor do Brasil”. Esta última é usada, ainda, quando alguém comete uma falta grave. Se o jogador erra em gol ou, para evitar o ataque do adversário, chuta para fora do campo de jogo, vem um “É bola pro mato que é jogo de campeonato”. Ironia do destino, ao se transferir para a Gaúcha, na sua primeira escala no estado, Haroldo de Souza chega justamente para contrapor com o seu estilo a sobriedade da concorrente, a Guaíba, sua emissora nos anos 1990 e 2000.
Os operadores de rádio do Rio Grande do Sul
2014
Luiz Artur Ferraretto


Exijo sempre dos meus alunos que incluam, ao final de qualquer programa, o nome do operador de áudio. Sem o pessoal técnico não existe rádio. Por vezes, frente a neófitos com ou sem diploma, estudantes de Jornalismo ou profissionais recém-formados, cabe ao técnico ensinar, pelo menos, o amor e o respeito ao rádio. Na maioria das vezes, fornecem um conteúdo essencial que nenhuma universidade tem condições de oferecer: malícia, macetes, dicas, enfim experiência de vida. São eles que, formando expressiva parcela da categoria conhecida como radialista, sofrem mais com os processos de automação e informatização em desenvolvimento em todas as empresas de radiodifusão.

No tempo do espetáculo, destacavam-se, nas grandes atrações da programação, em funções distintas e complementares, mas fundamentais para a construção sensorial de imagens. Proporcionando veracidade à narrativa ao produzir os sons exigidos pelo roteiro, aparecem, então, no Rio Grande do Sul, profissionais como Moacir Ribeiro, Pedro Amaro e Vitor Stobbe, que, com criatividade, preparam os efeitos necessários às encenações radiofônicas. Para representar um incêndio, por exemplo, em meio à gritaria dos intérpretes, o contrarregra esfrega, próximo ao microfone, um papel entre os dedos das mãos, enquanto outra pessoa quebra palitos, reproduzindo o crepitar das chamas. Por vezes, a equipe das emissoras enfrenta desafios em que, por tentativa e erro, os técnicos chegam a alguma solução adequada. É o caso desta situação descrita por Vitor Stobbe:

– Tinha uma escada de abrir e botamos nos degraus ferro, lata, tudo um do lado do outro e armamos um microfone de pedestal. E lá no operador, que fui eu, eu joguei, com dois discos de 78 rotações, um ruído diferente de trem, mais um apito grave e outro agudo. Então, eu vim subindo o volume, vim subindo, vim subindo, dei o sinal e o cara puxou a escada. Caiu tudo, um barulhão. Deu o efeito de acidente de trem. Era auxiliado por um contra-regra. Tinha eu na mesa e tinha o Moacir Ribeiro, que era o contra-regra, que fazia os efeitos de passos, subindo escada, abrindo porta, batendo na porta, campainha, tudo na hora, feito ali.

Já com o rádio em transição para a fase das emissoras segmentadas, destacam-se profissionais como Alcides Krebs e Bruno Steiger, da Guaíba, responsáveis, por exemplo, pela transmissão das cerimônias de inauguração de Brasília em abril de 1960. Sob a supervisão do engenheiro Homero Carlos Simon, a cobertura por si demonstra as dificuldades de transporte e telecomunicações da época, vencidas por um transmissor de single side-band (SSB) e pelo esforço dos profissionais da emissora. A primeira dificuldade a superar é, então, a distância entre a nova capital e o Sul do país. Até São Paulo, a equipe da rádio desloca-se de avião. De lá até o destino final – 1.280 km de estrada, dos quais 250 de chão batido – utilizam uma Kombi. No Planalto Central, há que localizar um terreno de 280 por 160 metros, adequado à instalação das antenas rômbicas, posicionadas, com o auxílio de uma bússola, de modo a direcionar o sinal para Porto Alegre. Utilizando uma área próxima à torre da Rádio Nacional, emissora que cede a energia elétrica para a Guaíba, quatro mastros de eucalipto com 11 metros de altura são colocados formando um losango: 240 metros de fio de cobre nos lados maiores, 160 nos menores, raspados e emendados com solda a cada 10. Junto com a instalação de um pesado transmissor de SSB, o trabalho em seu conjunto consome parte da madrugada e do dia seguinte, antecedendo a transmissão propriamente dita. Uma trabalheira impossível sem o empenho dos técnicos da Guaíba, tanto em Brasília como em Porto Alegre. Na emissora da Caldas Júnior, não se pode esquecer de um decano destes profissionais: Celso Costa. Contam que, sem ele, a Rede da Legalidade não teria se concretizado.

Um exemplo do qual fui testemunha, já do radiojornalismo consolidado e com a transmissão integral do fato interessante suspendendo a programação normal de uma emissora, é o que ocorre, na Gaúcha, nos dias 4 e 5 de janeiro de 1988, quando do motim na Penitenciária Estadual do Jacuí, em Charqueadas, a 56 km de Porto Alegre. Pela distância, a qualidade de som das unidades móveis não é a ideal. Fora isto, não existem linhas telefônicas passíveis de uso. Em uma época pré-telefonia celular, para garantir que a reportagem da rádio fale ao vivo do acesso à prisão na estrada RS 401, o técnico Francisco Paulo Bisogno, o Chicão, passa a operar um transreceptor, captando o sinal dos hand-talks, os radiocomunicadores utilizados então pelos repórteres, reforçando-o na irradiação para as instalações da emissora.

A estação da Rede Brasil Sul tem, na época, uma excelente equipe técnica. Se nas transmissões externas, normalmente associadas ao futebol, destacam-se profissionais como o Chicão, além de Alcides Farias, Carlos Alberto Braga e João Carlos Sosnowski, junto aos estúdios está o experiente Holmes Aquino, só ele uma parte da história do rádio da Zona Sul do estado e da capital gaúcha ao longo da segunda metade do século 20. Há, na central técnica, Antônio Edson Peres, o Caverna, que, sem meias palavras, consolida-se, nas décadas seguintes, como a principal liderança do Sindicato dos Radialistas do Rio Grande do Sul. No estúdio principal, entre outros, está o sempre preciso e solicito Glademir Menezes, o Gaiola, e, nas gravações, gente como Cley Correa; Isaac Barrientos; Jorge Cecílio; Lauro Pons Santos, o Laurinho; Luiz Gonzaga; Manuel Almeida, o Maneca; e Marco Aurélio Pacheco, o Magrão. Todos operam, na época, pesados gravadores de rolo e algumas mesas de áudio transistorizadas, embora ainda existam equipamentos valvulados. Sem computadores ou sofisticados softwares, corrigem, com estilete e uma fitinha adesiva, gaguejadas e imprecisões de entrevistados e entrevistadores. O mesmo fazem seus colegas da Guaíba. Gente como Délcio Kaiser, Miguel Giuseppe, José Krebs, Ronaldo Krebs, José Coutinho...

Para se entender um pouco como era o trabalho desse pessoal antes dos computadores, vale lembrar que, para as inserções sonoras rápidas, eram usados cartuchos, ou seja, uma fita de um rolo que, girando sobre seu próprio eixo, mantém sempre a gravação no ponto para ser veiculada. Com este tipo de equipamento, na Gaúcha e, depois, na Guaíba, um desafio para o técnico vai ser a colocação no ar do programa Flávio Alcaraz Gomes Repórter. Repleto de vinhetas, efeitos sonoros e participações de comentaristas, repórteres e entrevistados, a atração de início de manhã exige muita atenção e uma operação precisa de cartucheiras, gravadoras de rolo e da própria mesa de áudio. Nesta tarefa, há que recordar o operador Dickson Ricardo, com passagem pelas duas emissoras.

Se a estação tem menos recursos que as duas líderes do segmento de radiojornalismo, o operador é ainda mais exigido. No início da década de 1990, profissionais como Edson Leandro, Luiz Matoso Braga, Genésio de Souza, Joãozinho Carvalho, Mauro De Mari, Paulo Semensatto e Luiz Alberto Barbosa são exemplos disto na Bandeirantes AM, de Porto Alegre. Há, ainda, os que, destacando-se na parte técnica, migram para outras funções, caso de Paulo Pires, radialista de amplos conhecimentos esportivos, que, também na Band, da operação vai para o plantão esportivo, a apresentação e os comentários. Caso também de Otto Bede, de precisos cortes e efeitos no teclado de um PC operando os SoundForges da vida, atualmente produtor na Guaíba.

Existem também aqueles com quem a gente trabalha nas faculdades e se tornam fundamentais na vida de estudantes. Fora alguns dos já citados, como o Dickson, o Laurinho, o Magrão e o Otto, tive a sorte de trabalhar também com caras como o Eloi Lopes, o João Blattner, o Marcell Bocchese, o Neudimar da Rocha (Batata) e o Ricardo Pereira. A eles, muitos alunos devem, com certeza, parte das notas dadas por nós professores.

Aqui vale o velho clichê de desculpas sobre os profissionais não lembrados. Os citados, de fato, ficam como exemplo de funções sem o pretenso glamour dos títulos universitários, muitas vezes desprezados pelos portadores de diplomas, mas, com certeza, essenciais. Afinal, quem vai saindo das universidades, com seu canudo de baixo do braço, que saiba: rádio é trabalho de equipe e um bate-papo com um bom técnico vale, por vezes, como muitas aulas. Eu tenho certeza disto. Com vários destes profissionais, aprendi o que nenhuma aula ensina.
Cley Correa e Glademir Menezes, dois ícones do estúdio da Gaúcha
2020
Luiz Artur Ferraretto

Cley Correa (anos 1980)
Fonte: Perfil de Cley Correa no Facebook

Glademir Menezes (anos 2000)
Fonte: Perfil de Glademir Menezes no Facebook

Raramente, o pessoal da técnica fala ao microfone. De fato, em algumas emissoras, tornou-se usual não mais citar a ficha técnica. Fora isso, existe ainda uma boba disputa entre jornalistas e radialistas, com esses últimos sofrendo, às vezes, preconceito por parte dos primeiros. Os salários dos radialistas também são, não raro, menores. E há focas que, por terem um diplominha de Jornalismo, se acham os tais.

Ao chegar na Gaúcha, em 1986, não me achava o tal. Sempre fui muito inseguro. Para me salvar, tive aulas de realidade com muitos profissionais de verdade, pessoal curtido na lida, no dia a dia, na resolução rápida e competente de problemas reais. Anos depois, em uma tarde de outubro de 2013, ao sintonizar os 600 kHz, ouvi dois desses professores: os radialistas Cley Correa e Glademir Menezes.

Para comemorar os 20 anos do Gaúcha Repórter, programa que ocupava as tardes da emissora, o então apresentador Lasier Martins e a sua produção resolveram entrevistar quem foi essencial na trajetória de sucesso daquela atração. Algo raro, e que merece ainda palmas, foi a inclusão de seus dois mais históricos operadores de áudio. É o que você pode ouvir abaixo.

Lasier Martins entrevista Cley Correa e Glademir Menezes (21 de outubro de 2003)
Fonte: RÁDIO GAÚCHA. Gaúcha Repórter, Porto Alegre, 21 out. 2003. Programa de rádio.

Ao escutar as entrevistas, lá em 2013, voltei no tempo. Não só ao passado de repórter inexperiente. Quando morava no bairro Niterói, em Canoas, encontrei algumas vezes o Cley no Trensurb, o trem metropolitano da Grande Porto Alegre. Eu já tinha virado professor e ele se transferira para a RBS TV. Morava próximo a uma das estações, justamente aquela em que eu apanhava o trem. Cada conversa seguia sendo uma lição. Já professor, como entrevistado, várias vezes cruzei com o Glademir na Gaúcha. Acho que é o operador há mais tempo em atividade no rádio de Porto Alegre. Segue formando gerações de profissionais. Sei disso. Meus alunos na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, quando se transformam em estagiários ou funcionários da Gaúcha, sempre comentam a respeito do “Vô”, forma de reverenciar a experiência do Glademir, cara sempre disposto a ajudar seus colegas. O Cley já foi operar rádios celestiais e finalizar programas de TV entre as nuvens. O Glademir segue firme por aqui. São dois exemplos de profissionais. Palmas para eles. Sempre.
A Feira do Livro, os escritores e o rádio
2017
Luiz Artur Ferraretto

Marca da Feira do Livro de Porto Alegre

Como ocorre todos os anos desde 1955, as barracas, barraquinhas e estandes voltam, em um final de semana de outubro ou de novembro, com seus livros à Praça da Alfândega, no centro de Porto Alegre, e lá, ficam por uns 15 dias. Talvez o mais importante evento do calendário cultural do Rio Grande do Sul, a Feira do Livro, também como sempre tem ocorrido, é assunto nas emissoras de rádio, algumas chegando a transferir parte da sua programação para a área delimitada pela Rua da Praia, como todos nós, gaúchos, chamamos a Andradas das denominações oficiais. Do outro lado, está o rio Guaíba, que a ciência descobriu ser lago. Fora isto e sob pena de esquecer alguém, vale trazer à memória a lembrança, evocada pela feira, de grandes escritores a ela ligados. E ao rádio também.

Autor em início de carreira, com dois romances – Caminhos Cruzados e Um Lugar ao Sol – começando a despertar o interesse do público, Erico Verissimo, por exemplo, divide seu tempo, no ano de 1937, entre a Revista do Globo e a Rádio Sociedade Farroupilha. Na então PRH-2, incorpora, diariamente, o Amigo Velho, improvisando estórias para a Hora Infantil da emissora. Muitas delas vão aparecer em livros como As aventuras do avião vermelho, Os três porquinhos pobres ou Rosa Maria no castelo encantado, editados na Coleção Nanquinote. No programa, funciona, ainda, o Clube dos Três Porquinhos, que confere diplomas aos ouvintes-mirins a ele associados. O improviso, aliás, fruto do corre-corre em que Erico vive na época, transforma o escritor em uma das vítimas do Estado Novo, a ditadura imposta por Getúlio Vargas ao país no mês de novembro daquele ano. Sem tempo para nada, as estorinhas do Amigo Velho surgiam na caminhada, quase sempre às pressas, do prédio da Livraria do Globo até o da Farroupilha, separados por três ou quatro quadras. Resultado: não há roteiro escrito a ser submetido aos zelosos censores do governo e, como também não há tempo para redigi-los, Erico acaba deixando a Farroupilha.

Anos depois, quando a ditadura já é a dos militares da quartelada de 1964, problemas deste tipo terá também o filho do autor de O tempo e o vento. Com uma crônica na Rádio Continental AM, 1.120 kHz, Luis Fernando Verissimo vive no início dos anos 1970 situação tão paradoxal como a do seu pai. Um texto sobre a Teoria da Evolução, de Charles Darwin, irrita os donos do poder e é censurado:

– Talvez tenham deduzido que evolução lembrava macaco, macaco lembrava gorila, e gorila lembrava militar, e eu estava usando Darwin para algum fim subliminar.

Já, tempos antes, nas noites de domingo da virada da década de 1930 para a de 1940 ao microfone da PRH-2, a voz de Josué Guimarães dá vida a personagens do Teatro Farroupilha, o principal programa do gênero, conduzido na época por Pery Borges e Estelita Bell, a chamada “dupla de ouro do rádio gaúcho”, como registra a imprensa de então. Fruto da amizade com o escritor, Estelita vai guardar, com carinho, durante anos, uma coleção completa da revista Ondas Sonoras, que traz, com frequência, reportagens sobre ela e o marido. É o escritor de Camilo Mortágua quem cria e administra a publicação, “uma revista que trata de rádio, cinema e teatro”. Aliás, serão dele, Josué, as ilustrações de Seis anos de rádio, obra lançada por Pery Borges, em 1942, e relatando os primeiros passos da dramaturgia radiofônica no Rio Grande do Sul, um livro de sucesso embalado pela popularidade obtida nas sucessivas encenações do Teatro Farroupilha.

Mario Quintana, o mais importante poeta da literatura gaúcha, embora sem experiências ao microfone, também tem seu nome associado um pouco à história do veículo. Há alguns anos, na Rádio Guaíba, a voz límpida e de pronúncia perfeita do locutor Milton Ferretti Jung ressalta a relevância dos versos sensíveis do poeta, ele próprio funcionário do Correio do Povo, carro-chefe entre as publicações da casa. Quintanares, de nome emprestado do poema, faz, na época, uma ruptura quase lírica na programação da emissora.

Cabe lembrar, ainda, dos que, profissionais consagrados do rádio, enveredam pela literatura. Um exemplo é Sérgio Jockymann, texto que brilha em várias emissoras da capital nos tempos do espetáculo radiofônico e chega aos anos 1980 e 1990 fazendo comentários e apresentando programas jornalísticos. A carreira em contos, novelas e peças de teatro vai seguir em paralelo à sua atividade radiofônica. Já Antonio Carlos Resende começa na Farroupilha aos 18 anos em 1947, mas só escreve seu primeiro livro – Magra, mas não muito, as pernas sólidas, morena – três décadas depois. No rádio, consagra-se como locutor esportivo. Na literatura, publica com regularidade, transitando, com toques de erotismo, pelas venturas e desventuras do amor.

Da relação entre a Feira do Livro e o rádio, há que registrar também alguns patronos do evento: os jornalistas Ruy Carlos Ostermann (2002), principal comentarista de futebol do Sul do país, com várias obras voltadas ao esporte; e Walter Galvani (2003), apresentador de programas radiofônicos e autor de diversos livros, entre eles Nau capitânia, uma biografia de Pedro Alvarez Cabral, que lhe rendeu o Prêmio Casa de las Américas, outorgado pelo governo de Cuba.

Em todos estes exemplos, há que convir: o rádio e a literatura, como exercícios mentais, têm mesmo algo em comum além de radialistas-escritores ou de escritores-radialistas. Possuem a capacidade de criar imagens, mexendo com o consciente e o inconsciente, seja na palavra precisa, exigência de ambas as formas de expressão, seja pelo conjunto de elementos sonoros empregados, particularidade radiofônica a ressaltar, por exemplo, enredos reais – os dos noticiários – ou ficcionais – os das velhas novelas –, tudo sempre em uma espécie de literatura/ escritura sonora.
Manuais de redação e produção: algo esquecido nas rádios
2017
Luiz Artur Ferraretto

Um dos problemas atuais no radiojornalismo é, sem dúvida, a despadronização e certo desleixo com a técnica. Tem origem, em parte, em um ensino universitário por vezes distanciado da realidade das emissoras. Há nestas, no entanto, menos rigor com o produto final do que em outros tempos. A ainda não assimilada transformação do profissional em multitarefa talvez explique essa situação. A redução de vagas em função da crise provocada pela internet, mais antiga, e pela situação econômico-político, recente, também pode estar entre os motivos.

Nas décadas de 1980 e 1990, quando o jornalismo se firmou como segmento era bem diferente. Grandes emissoras produziam manuais de redação e produção para consumo interno, chegando mesmo a lançá-los na forma de livro. No Rio Grande do Sul, não foi diferente. A pioneira, embora ainda em sua fase de música-esporte-notícia, foi a Guaíba em meados da década de 1970, com mais de uma edição. Na segunda, por exemplo, compilada por Aldo Jung, o então locutor do Correspondente Renner, Milton Ferretti Jung, dava uma pequena aula sobre a necessidade deste tipo de guia:

Apresentação da segunda edição do livreto Normas de redação, da Rádio Guaíba (meados dos anos 1980)

Além da contribuição dos irmãos Aldo e Milton Jung, o trabalho teve a colaboração de vários jornalistas da emissora: Dilon Trescastro Rodrigues, Eridson Marques Lemos, Flávio Dutra, Flávio Veiga Miranda, Floriano Fidelis Soares, Hermelindo Paes de Macedo, Idalino Asp Vieira e Luiz Figueredo.

Capa da primeira edição do livreto Normas de redação, da Rádio Guaíba (meados dos anos 1970)

Em outubro de 1987, a Gaúcha, que havia passado a liderar o segmento de jornalismo no ano anterior, produziu também as suas Normas de redação, produção e apresentação. Na época, dirigiam os vários setores da emissora voltados à produção de conteúdo profissionais como Claiton Selistre, Claudio Moretto, Rita Campos Daudt, Domingos Martins, Armindo Antônio Ranzolin e Flávio Dutra.

Capa do livreto Normas de redação, produção e apresentação (1987)

Dez anos depois, o coordenador de Jornalismo da emissora e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Luciano Klöckner, escreve A notícia na Rádio Gaúcha, publicado na forma de livro pela Editora Sulina.

Capa do livro A notícia na Rádio Gaúcha, de Luciano Klöckner (1997)

Ainda na década de 1990 e no início dos anos 2000, a Guaíba, com Flávio Portella na Gerência de Jornalismo, atualizaria o seu manual, mantendo, inclusive, uma versão on-line disponível para acesso em seu site.

Página inicial da versão on-line do Manual de redação, da Rádio Guaíba (2000)

A mais recente versão desta prática em emissoras do estado é o livreto Nosso jeito de fazer comunicação, publicado em 2013 pela Ordem dos Frades Capuchinhos, com orientações para as emissoras da Rede Sul de Rádio – atual Tua Rádio – e da Rede Maisnova FM.

Capa do livreto Nosso jeito de fazer comunicação, da Rede Sul de Rádio e da Rede Maisnova FM (2013)
“De Washington, Luiz Amaral”
2006
Luiz Artur Ferraretto

Luiz Amaral ao microfone da Voz da América (anos 1980)
Fonte: Acervo particular de Luiz Amaral.

Meu primeiro contato com o Luiz Amaral ocorreu em alguma manhã ou tarde do início da década de 1980 na biblioteca da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Entre uma aula e outra, inexperiente e muito mal-informado sobre a profissão de jornalista, encontrei numa estante um dos livros do mestre baiano, não sei se o Jornalismo, Matéria de Primeira Página ou o Técnica de Jornal e Periódico. Estava ali, ao lado dos de Luiz Beltrão e dos de Mario Erbolato. Estes três juntos, sem conhecê-los pessoalmente, acabaram sendo grandes professores e me inspiraram a escrever, por exemplo, sobre a técnica do rádio. A eles, devo a certeza da necessidade de ensinar, a certeza de que, hoje, falta algo na moderna produção de textos para os bancos universitários de Jornalismo. Enfim, reflete-se muito e, por vezes, ensina-se pouco, talvez por não existir em quantidade suficiente, nos bancos universitários, a experiência de vida profissional destes primeiros autores da, agora, extensa bibliografia especializada existente no país.

E se, em seus escritos didáticos, Luiz Amaral usou sempre de um texto simples e direto, o que dizer dos boletins com os quais agraciava os ouvintes de dezenas de emissoras de todo o país a reproduzirem o material gerado pela Voz da América, a estação do governo dos Estados Unidos? Cada vez que o baiano de Ilhéus falava, eu – e, com certeza, muitos outros – punha de lado minhas restrições ideológicas à rádio fruto da Guerra Fria e do imperialismo ianque. Era uma informação sóbria, bem descrita e transmitida com rara habilidade, marcada ao final pela assinatura:

– De Washington, Luiz Amaral.

Na segunda metade da década de 1980, a rotina nas redações das duas principais emissoras do Rio Grande do Sul dedicadas ao jornalismo – a Gaúcha e a Guaíba – incluía, assim, uma ligação telefônica diária ao serviço brasileiro da Voz da América. Era o meio da época para gravar os boletins do Luiz e de seus colegas. Prática semelhante valia em relação à British Broadcasting Corporation, de Londres.

Às vezes, eu via, no estúdio auxiliar da Gaúcha, a editora do radiojornal Chamada Geral, Vera Monteiro, gravando esses boletins, que traziam, numa época pré-internet, certa impressão pessoal, acrescentando informação ao noticiário recebido via teletipo, as pesadas máquinas por onde chegava o material das agências noticiosas. Lembrava, então, de outras tardes, dois ou três anos antes, quando, juntando o pouco dinheiro que tinha, consegui comprar, na Livraria do Globo, um exemplar de Técnica de Jornal e Periódico. Foi a minha leitura de férias em um momento de dúvidas sobre a correta escolha ou não da profissão. E sempre vou agradecer ao Luiz por ter escrito este livro em particular.

Dez anos depois, descobri outro lado dele, o de ser humano educado e extremamente atencioso com todos. Quando, junto com a Elisa, então minha namorada, escrevi o livrinho Técnicas de Redação Radiofônica, alguém fez chegar um exemplar ao Luiz. Recebemos, na sequência, uma afetuosa mensagem de final de ano, repetida a cada 365 dias – 366 nos bissextos – desde então em todas aquelas datas de confraternização universal.

Em meados de 1994, conheci pessoalmente o Luiz em Porto Alegre durante o lançamento de Esses Repórteres..., deliciosa coletânea de histórias de redação. Um ano depois, estava de volta por aqui para autografar o ensaio A Objetividade Jornalística. Acabei acompanhando-o em algumas entrevistas. Em uma, especialmente, vi toda a técnica e o conhecimento do mestre, esgrimindo argumentos junto com o principal e mais importante jornalista do Rio Grande do Sul. Era um fim de tarde chuvoso, típico da época em que Porto Alegre sedia a sua Feira do Livro e acabamos chegando atrasados na TV Guaíba para o programa Guerrilheiros da Notícia. Imediatamente colocado na bancada do programa conduzido por Flávio Alcaraz Gomes, o Luiz, que não conhecia nenhum dos participantes – talvez o Flávio de nome –, agiu com a desenvoltura dos grandes profissionais. Os dois deram um show, com informação e picardia, analisando a eleição presidencial norte-americana ocorrida dias antes. Na mesma noite, outro momento de emoção. Na TVCom, o produtor Rogério Carbonera coloca um boletim radiofônico de Luiz Amaral, que se emociona sob o olhar do apresentador Lauro Quadros. Nas duas emissoras, a prova do respeito dos jornalistas do Rio Grande do Sul em relação ao mestre.

Lauro Quadros entrevista Luiz Amaral no programa Estúdio 36 (novembro de 1996)
Fonte: TV COM. Estúdio 36. Porto Alegre, nov. 1996. Programa de TV

Com o fim da Guerra Fria, o serviço brasileiro da Voz da América acabou sendo fechado. O Brasil ficou, a partir daí, sem as informações precisas do Luiz. Desde então, a cada vez que um atentado ou um conflito de porte obrigam a interrupção da programação das emissoras, cá neste canto do Brasil, eu ainda sinto falta dos boletins do Luiz Amaral. Eu e muitos ouvintes, vários deles sem se darem conta de que perderam alguma coisa muito importante. E dá-lhe, nestas ocasiões, notícias e mais notícias lidas de sites da internet: muita informação e pouco conteúdo!
Otília Souza, Suê Duarte e o adestramento de focas
2020
Luiz Artur Ferraretto

Algumas mulheres marcaram com muita garra e dedicação o rádio porto-alegrense da década de 1980, trazendo aos ouvintes as notícias direto do chamado palco de ação. No duro dia a dia da reportagem em um país fazendo a transição para a democracia e ainda sem eleições diretas para presidente, eram pau pra toda obra e encaravam qualquer parada: do buraco de rua ao motim no presídio, das votações na Assembleia Legislativa às dezenas de greve de trabalhadores. Com algumas, aprendi muitas coisas.

Nas eleições de 1986, em um free-lance que, dias depois, se transformaria em contrato com carteira assinada, conheci duas delas em torno a urnas e cédulas de votação. Na sede da Sociedade Ginástica Porto Alegre, a Sogipa, duas zonas eleitorais teriam seus votos apurados no lento processo de contagem manual, quase duas décadas antes das urnas eletrônicas. Pela Gaúcha, a mim coube uma das zonas e a outra a Otília Souza. Por ali, andava ainda Suê Duarte, da Guaíba, contornando com sua experiência a desvantagem numérica. Foca até a medula, fui acalmado por ambas. E tive uma lição de civilidade, profissionalismo e companheirismo:

– Guri, conosco não tem este negócio de concorrência. Aqui fora, nós somos é colegas – disse uma delas, quando um dos candidatos majoritários chegava à Sogipa. Em seguida, microfone em punho, foram entrevistá-lo, ao vivo e juntas, uma aguardando e respeitando a pergunta da outra, colocando, por um instante, as duas emissoras concorrentes em uma cadeia de mentirinha. No dia seguinte, lição aprendida, a situação iria se repetir, desta vez comigo e a Suê.

Anos depois, em um motim, a Gaúcha daria um furo monumental na Guaíba. Primeiro repórter a chegar à Penitenciária Estadual do Jacuí, em Charqueadas, anotei algumas informações em um papel e entrei ao vivo, minutos depois da rebelião ter sido anunciada pelos próprios presos, por telefone, ao microfone da rádio. Passados uns 15 ou 20 minutos, já com outros colegas na volta, entre eles um novato, chega a Suê esbaforida.

– Guri, o que tá havendo aí?

Expliquei as informações que tinha e passei as minhas anotações para ela, que correu para a unidade móvel da Guaíba, entrando no ar segundos depois. O foca aproximou-se de mim e, estranhando a minha atitude, me perguntou:

– Mas tu deste as tuas anotações para ela?

– Dei. Quem é concorrente é a Gaúcha e a Guaíba. Eu e ela somos colegas – respondi.

De fato, apenas repetia a frase não sei se dita pela Suê ou pela Otília lá naquela eleição de 1986, na Sogipa. Frase, fique claro, que nunca esqueci. Afinal, é preferível olhar para pessoas do que para empresas, nomes fantasia, marcas, logotipos, concorrentes...

Otília Souza (dezembro de 1988)
Fonte: AS CARAS da informação. Zero Hora, Porto Alegre, 2 jan. 1989. p. 34.

Reportagem de Suê Duarte na Rádio Guaíba (23 de dezembro de 1987)
Fonte: RÁDIO GUAÍBA. Bom Dia, Porto Alegre, 23 dez. 1987. Programa de rádio.